Está aqui

A explosão de Beirute não fez tremer a classe dirigente libanesa

Ao exigir a reconstituição de um governo de coligação, Emmanuel Macron, na sua visita logo após o drama, tirou toda a esperança aos libaneses de conseguirem criar um governo independente. Artigo de Gilbert Achcar.
Pessoas olham para destroços de silo em Beirute
Pessoas olham para destroços de silo em Beirute. Foto Wael Hamzeh/EPA

A tremenda explosão que abalou o Líbano e mais além a 4 de Agosto, matando quase 200 pessoas, ferindo mais de 6.000 e deixando cerca de 300.000 desalojados, foi sem dúvida um grande ponto de viragem na história do país, certamente tanto ou mais do que a explosão muito menor (uma tonelada de TNT comparada com 1.200 toneladas) que matou o antigo primeiro-ministro Rafik Hariri e outras 21 pessoas a 14 de Fevereiro de 2005.

Foram necessários quinze anos até que o Tribunal Especial das Nações Unidas para o Líbano emitisse um veredito sobre este terrível ataque, um veredito a propósito do qual muitos comentadores evocaram a montanha de Esopo que pariu um rato. Por esta bitola, não podemos esperar que, num futuro previsível, se faça luz sobre as causas e circunstâncias da tremenda explosão no porto de Beirute. Contudo, algumas conclusões podem já ser tiradas desta tragédia altamente traumática.

Toda a classe dirigente libanesa é culpada

A primeira é que, independentemente das circunstâncias particulares da explosão - seja acidental ou deliberada, desencadeada por uma explosão inicial num depósito de armas adjacente ou simplesmente fogo de artifício - a responsabilidade de deixar 2.750 toneladas de nitrato de amónio altamente explosivo armazenadas no coração de uma cidade durante seis anos recai sobre toda a classe dirigente libanesa. Os mais responsáveis são certamente aqueles que dirigiam o ramo executivo e que deveriam supervisionar a segurança do país, incluindo a do porto. Presidentes da República, primeiros-ministros, ministros dos transportes, chefes dos principais aparelhos de segurança e administradores portuários são todos igualmente culpados. A lista inclui tanto os funcionários do Estado libanês oficial como os do Estado paralelo do Hezbollah no Líbano, que é conhecido por acompanhar de perto o aeroporto e o porto de Beirute e usá-los como lhe apetece.

Esta mesma lógica aplica-se de forma ainda mais clara ao colapso da economia libanesa, pelo qual o período de responsabilidade conjunta é muito mais longo do que seis anos. De facto, passaram trinta anos desde que o país enveredou pelo caminho da "reconstrução" após quinze anos de guerra civil e internacional e num contexto global dominado pelo neoliberalismo.

Antes de 1975, ano em que a guerra começou, o Líbano já tinha fama de ser um dos paraísos fiscais do mundo: um país de capitalismo desenfreado, cujo segredo bancário e vantagens fiscais o tornaram um terreno ideal para a lavagem de dinheiro sujo, fuga de capitais e todo o tipo de tráfico num ambiente regional de estados ditatoriais, a começar pelo seu vizinho sírio. A guerra terminou após um acordo político e constitucional alcançado em 1989 entre as fações libanesas sob os auspícios conjuntos da monarquia saudita, apoiada por Washington, e do regime sírio. Foi confirmada no ano seguinte pela participação deste na coligação liderada pelos EUA na primeira guerra internacional contra o Iraque.

A concertação sírio-saudita

Durante uma dúzia de anos, o Líbano foi governado sob a égide deste acordo sírio-saudita: como representante oficioso do poder saudita, Rafik Hariri agiu em estreita colaboração com Ghazi Kanaan, o chefe todo-poderoso dos serviços secretos sírios no Líbano. O acordo expirou com a segunda guerra de Washington contra o Iraque e com a ocupação daquele país em 2003. Enquanto o regime baathista da Síria pôde participar numa guerra para expulsar as tropas do seu irmão inimigo, o regime baathista do Iraque que invadiu o emirado em Agosto de 1990, não podia aprovar uma guerra para ocupar o Iraque e derrubar o seu regime. Isto levou ao fim do acordo sírio-saudita e levou Washington a exercer pressão para a retirada das tropas sírias do Líbano, nomeadamente através da Resolução 1559 do Conselho de Segurança da ONU adoptada em 2004 (com a abstenção da Rússia e da China).

O assassinato de Hariri desencadeou uma enorme onda de raiva popular que obrigou Damasco a retirar as suas tropas do Líbano. No entanto, o regime sírio continuou a puxar os cordelinhos no país através de uma aliança tripla composta pelo seu antigo cliente Amal, o movimento sectário xiita liderado por Nabih Berri, presidente vitalício do parlamento libanês (ele ocupa este cargo desde 1992), pelo Hezbollah, o agente libanês do seu aliado regional, o regime iraniano, e Michel Aoun, o seu antigo inimigo juramentado que tinha proclamado uma "guerra de libertação" contra as tropas sírias em 1989 e depois encontrou refúgio em França, de onde regressou em 2005 antes da sua espectacular viragem no ano seguinte.

Durante os últimos quinze anos, o Líbano viveu fundamentalmente uma renovação do seu governo conjunto sírio-saudita, com Saad Hariri a substituir o seu pai e a colaborar com a tripla aliança, e a continuação da mesma política económica com consequências desastrosas. A guerra na Síria após a Primavera Árabe de 2011 levou a um enfraquecimento considerável de Damasco e a um aumento considerável do papel de Teerão e do seu representante libanês, enquanto a influência do Irão aumentou fortemente em toda a região e na própria Síria. Uma consequência desta mudança no equilíbrio de poderes foi a eleição de Michel Aoun como Presidente da República em 2016. A infeliz tentativa do príncipe herdeiro saudita de forçar Hariri a terminar a sua colaboração com os apoiantes do Irão foi uma reação imprudente a esta viragem dos acontecimentos.

Os bancos e os seus acordos duvidosos

Por tudo o que foi dito, é evidente que a responsabilidade pelo colapso da economia libanesa que começou no ano passado recai sobre toda a série de membros da classe dirigente libanesa que ocupam posições governamentais desde o fim da guerra há 30 anos, tal como recai sobre o sector bancário com o qual têm estado intimamente envolvidos e mergulhados em todo o tipo de acordos duvidosos.

Não há melhor encarnação deste conluio do que Riad Salamé, Governador do Banco Central desde 1992 e até aos dias de hoje. Esta responsabilidade obviamente partilhada reflete-se no famoso slogan central da revolta popular que começou a 17 de outubro do ano passado: "Todos, quer dizer todos"! Este slogan não foi apenas um desafio à tradicional asfixia do protesto social por parte da classe dominante, através da agitação das divisões político-confessionais; também manifestou uma consciência aguda de que a classe dominante no seu conjunto está irremediavelmente apodrecida.

Com a raiva popular no seu auge durante a recente explosão em Beirute, muitos no Líbano esperavam que houvesse males que viessem por bem. Muitos acreditavam que a tragédia iria impor à classe dominante duas das principais exigências da revolta de outubro: um governo de peritos verdadeiramente independente da classe política libanesa e novas eleições com base numa nova lei eleitoral. A esperança era que uma forte pressão internacional obrigasse ao cumprimento destas exigências e proporcionasse contrapeso suficiente para permitir que um novo governo se libertasse da influência da classe dominante tradicional.

Manutenção da coligação Hariri-Hezbollah

A visita de Emmanuel Macron a Beirute no dia a seguir à explosão elevou esta expetativa ao seu auge. Um líder estrangeiro ousou visitar uma cidade e misturar-se com o seu povo pouco depois do desastre, muitos pensaram, esquecendo-se que o presidente francês em apuros no seu próprio país estava assim a oferecer a si próprio uma boa oportunidade mediática. No entanto, a esperança não durou muito: a política de Emmanuel Macron no Médio Oriente consistiu permanentemente em projetar-se como mediador entre os Estados Unidos e o Irão (onde a comunidade empresarial francesa tem objetivos importantes). Um momento crucial nesta política foi a tentativa abortada de 2019, na cimeira do G7 em Biarritz, de organizar um encontro entre Donald Trump e o Ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano Mohammad Javad Zarif.

A lógica desta posição em relação ao Líbano é que Emmanuel Macron tem agido sistematicamente para manter o governo de coligação Hariri-Hezbollah. Foi por isso que interveio decisivamente para permitir o regresso a Beirute de um Saad Hariri sequestrado em Riade em 2017. E foi por isso que rapidamente defraudou a expetativa do povo libanês de um governo independente e de novas eleições, exigindo a reconstituição de um governo de coligação. Em vez de permitir que a explosão em Beirute se torne o big bang da renovação política libanesa, Macron está a agir para a transformar numa força de recuo. Esta é uma receita segura para mais descontentamento e agitação.


Gilbert Achcar é professor na Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS) em Londres. Artigo publicado no Libération. Traduzido por Luís Branco para o esquerda.net.

Termos relacionados Internacional
(...)