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Exorcizar o culto a Churchill

Tariq Ali fala do seu último livro, “Churchill: o seu tempo, os seus crimes”, numa entrevista em que Donny Gluckstein questiona quer o que está por detrás do culto deste ex-primeiro-ministro britânico quer o que ele pensa sobre a crise política na Grã-Bretanha hoje.
Churchill. Foto de Yousuf Karsh.

Nos últimos anos assistimos a desafios quer em relação à narrativa oficial sobre a vida de Churchill quer a uma defesa acirrada do mitologia nacional em seu redor. Esta dinâmica foi simbolizada pelas imagens da estátua de Churchill em Westminster a ser colocada sob guarda da polícia em junho de 2020, depois das palavras “era um racista” ("WAS A RACIST") terem sido pintadas a spray sob o seu nome, no pedestal, durante um protesto do Black Lives Matter. A dinâmica de uma nova geração de ativistas anti-racistas, que desvendou as políticas coloniais de Churchill em países como a Irlanda e a Índia, tem sido acompanhada pelo coro dos meios de comunicação social e dos políticos no sentido de que ele deve ser beatificado como o líder que, sozinho, salvou a Grã-Bretanha do nazismo. A dificuldade em criticá-lo publicamente foi sublinhada quando o Churchill College da Universidade de Cambridge encerrou um grupo de trabalho que investigava o seu legado em junho de 2021.

No seu novo livro, Winston Churchill: His Times, His Crimes (Verso, 2022), o histórico ativista socialista, Tariq Ali, aborda o culto a Churchill. Donny Gluckstein conversou com ele para perceber o que o motivou a escrever o livro, o que está por trás do culto de Churchill e o que ele pensa sobre a crise política na Grã-Bretanha hoje.


Dizes que muito já foi escrito sobre Churchill. Então, por que escrever outro livro sobre ele?

Fiz o que um historiador marxista deveria fazer, que é utilizar todos os factos existentes e disponíveis sobre Churchill e apresentá-los no contexto das grandes lutas que ocorreram na sua época. Os acontecimentos centrais foram a formação da classe trabalhadora britânica e a formação do Império Britânico. Ambos chegaram a uma espécie de pico mais ou menos ao mesmo tempo. O que eu fiz irritou muito os historiadores e críticos conservadores. Simon Heffer, no The Telegraph, chamou ao livro um insulto marxista à história, o que é bom. Essa citação estará no verso da edição de bolso.

A principal razão pela qual escrevi este livro é que o culto a Churchill está completamente fora de controlo. A sua carreira, o que ele fez, e as suas verdadeiras opiniões políticas estão a ser ofuscadas ou encobertas. Ele tornou-se parte da indústria do património, uma espécie de "Orgulho e Preconceito" político na BBC. Estou feliz por ter escrito este livro porque, mesmo do lado anti-imperialista, muitos dos jovens que pintaram a sua estátua com slogans não têm uma ideia real de todos os detalhes. Não estou a dizer isto de forma paternalista – o material simplesmente nunca foi recolhido e organizado. É preciso haver um relato alternativo para esclarecer as coisas contra o culto a Churchill, que abrange os Conservadores, Liberais, Trabalhistas de direita e muitos Trabalhistas de esquerda também.

Na verdade, o ataque da direita ao livro fez ricochete porque alertou as pessoas. Tirando o The Independent, os órgãos de comunicação liberais ignoraram completamente o livro. Ignoraram porque estavam envergonhados. Eles não sabem que posição tomar numa situação em que novas guerras estão a decorrer e o bebé de Churchill, a NATO, ainda está ativo no mundo. Outro aspeto, que às vezes até as pessoas de esquerda esquecem, é que há um interesse enorme pelo Churchill que descrevi em lugares como o Médio Oriente. O livro recebeu críticas muito favoráveis em três importantes jornais do mundo árabe e uma edição árabe está atualmente em tradução.

Enquanto escrevia Churchill, descobri muitas coisas não mencionadas pelos historiadores tradicionais. Ou eles não sabiam, ou encobriam deliberadamente. Por exemplo, em relação aos motins e greves dos mineiros de 1910 em Tonypandy, no sul do País de Gales, onde Churchill desempenhou um papel ativo, ordenando a violência contra os grevistas, descobri que grande parte da papelada foi simplesmente destruída, incluindo as instruções de Churchill ao general em comando das tropas. A única pista de que esta existiu é dada através de um dos generais envolvidos, e que se referiu a algo que normalmente está nos registos oficiais, mas que não foi encontrado em nenhum lugar. Da mesma forma, muitas coisas sobre o papel de Churchill no golpe que derrubou o governo de esquerda de Mohammad Mosaddegh no Irão em 1953 foram destruídas. Há uma verdadeira batalha sobre o passado.

Mas não podem destruir totalmente a memória histórica do povo. Um exemplo é dado aquando da recolha de dinheiro para uma estátua de Churchill no exterior do parlamento. Nem um único concelho galês recolheu ou doou - nem um único! Outra coisa que não está em nenhum outro livro sobre Churchill, e na verdade até a mim me surpreendeu, é o motim que ocorreu na força expedicionária enviada para lutar contra os bolcheviques, após a revolução de 1917 na Rússia. Os soldados ficaram extremamente infelizes por serem usados daquela maneira. Eu conto a história de um oficial sénior do exército sul-africano, altamente condecorado. Ele simplesmente recusou-se a cumprir as ordens de Londres – isto é, de Churchill – para usar armas químicas, remanescentes da Primeira Guerra Mundial, em aldeias sob controlo bolchevique. Ele disse ao seu comandante sénior: “Olhe, esta é uma guerra lançada com falsos pretextos. Disseram-nos que estávamos aqui apenas para levar os retardatários do combate assim como prisioneiros aliados. Mas esta é uma guerra em grande escala contra um povo que está em revolução”. Aliás, ele não concordava com a revolução. O oficial foi demitido, mas houve um clamor das tropas e para além delas. O Daily Express publicou uma primeira página sobre isso: “As mentiras de Churchill expostas”. Tenho orgulho de ter encontrado isto e ter colocado no livro. Ninguém sabia.

Noutras matérias, não é tanto se o material está disponível, mas como o analisas e interpretas. Isso é o que enlouquece os historiadores conservadores. Eles gritam “não é verdade, não é verdade”, mas o que eles estão a dizer que é falso é a minha interpretação. Não podem desafiar os factos.

A próxima pergunta é sobre a estrutura do livro. Churchill está presente, mas não é uma biografia. Às vezes lidas com a história antes dele e depois vais diretamente para a atualidade. Qual foi a intenção ao escrever desta forma?

O prefácio deixa claro que esta não é uma biografia padrão. Era inútil escrever apenas outro livro que segue Churchill cronologicamente. A lógica não era tratar Churchill exclusivamente como um indivíduo, mas sim contextualizá-lo na formação social do seu tempo e no contexto do Império Britânico. Ele emergiu como o ideólogo arqui-imperialista, um soldado propagandista e depois um líder político. Deve ser colocado na estrutura do que estava acontecer à sua volta.

Nem todo os livros sobre Churchill são maus. Por exemplo, recomendo fortemente a biografia de Clive Ponting, Churchill (Sinclair-Stevenson, 1994). No entanto, mais ninguém forneceu o cenário da mesma maneira e espero ter criado um livro de referência para pessoas que procuram uma visão alternativa. Elas podem discordar, mas está lá. Também seria monótono repetir mecanicamente coisas já expostas, mesmo que por bons historiadores.

A melhor maneira de ver o primeiro Churchill é no contexto do conflito social entre a sua própria elite governante e uma classe trabalhadora que estava a crescer na maior parte da Grã-Bretanha, bem como o movimento nacionalista que estava a remodelar a Irlanda. O capítulo sobre a Irlanda é extremamente importante porque hoje Churchill está a ser glorificado. Um grande número de historiadores irlandeses financiados pelas universidades britânicas apresentou a luta de libertação nacional na Irlanda como algo lamentável, terrível e horrível. Um historiador refere-se ao Levantamento da Páscoa de 1916 como um “ultraje terrorista” — violência irracional contra um governo legítimo.

Eu queria corrigir isso. A história irlandesa é incrivelmente rica em termos de resistência. Por exemplo, se uma tempestade não tivesse atrasado o desembarque francês em Bantry Bay, em 1796, se o exército revolucionário francês se tivesse unido ao líder republicano Wolfe Tone e tomado a Irlanda, quem sabe qual teria sido o resultado. Não podemos saber. Podemos, no entanto, mostrar que a divisão entre protestantes e católicos na Irlanda é relativamente nova; Tone, que liderou o United Irishmen, era protestante.

Outro grande irlandês foi Charles Stewart Parnell. Após a derrota da luta armada, o foco mudou para o parlamento. As descrições das intervenções de Parnell na Câmara dos Comuns, por James Joyce, e outros, são impressionantes. Fora da Irlanda, é difícil entender o domínio que Parnell tinha sobre as massas. Finalmente foi destruído pelos métodos comuns dos serviços secretos britânicos. Acusado de adultério, em 1889, a sua posição como líder não foi apoiada pela Igreja Católica, porque estavam nervosos com a maneira como as coisas estavam a acontecer sob a sua liderança, e o líder liberal, William Gladstone, afastou-o. Destruíram o líder parlamentar mais eficaz que a independência irlandesa teve.

Então, em 1916, veio o Levantamento da Páscoa, seguido pelos ultrajes cometidos pelos “pretos e bronzeados” de Churchill – os gangues brutais de soldados britânicos desmobilizados, recrutados para lutar contra o lado nacionalista na Guerra da Independência da Irlanda. Como secretário de estado da guerra, Churchill era responsável pelas suas atrocidades. Posteriormente, uma longa luta e o Tratado Anglo-Irlandês de 1921, que aprovou a divisão da ilha e concedeu ao Estado Livre Irlandês o estatuto de domínio dentro do Império Britânico, levaram à trágica guerra civil na qual os nacionalistas irlandeses se mataram entre si. O primeiro-ministro britânico, Lloyd George, ria-se disto. Pensou: “Agora, dividimo-los”. Esta era a tática em todas as colónias imperiais. Estou satisfeito por ter tido a oportunidade de mostrar a verdade sobre a luta irlandesa.

Outro incidente ligado a Churchill foi a fome de 1943 em Bengala. Não foi o resultado de consequências não intencionais, como algumas outros fomes. Foi deliberado e bem organizado. Só precisas de ler a correspondência entre o vice-rei da Índia, Archibald Wavell, e Churchill. Wavell estava lívido. A sua esposa, em particular, ficou abalada quando visitaram Calcutá. Ela disse que nunca tinha visto seres humanos naquela condição, assim, como os animais. Tudo isto foi totalmente ignorado por Churchill e pelo líder trabalhista, Clement Attlee. Não foi levado a sério no gabinete de guerra e então Churchill teve a coragem de dizer que precisava de toda a comida disponível para os “gregos robustos” que lutavam contra o fascismo.

Gregos robustos, de facto! Churchill queria eliminar completamente a resistência grega porque a esmagadora maioria dos seus apoiantes era liderada pelo Partido Comunista da Grécia e pela esquerda. Josip Tito foi tolerado como líder da resistência na Jugoslávia porque o país não era estrategicamente importante para o Império Britânico. Mas a Grécia, e as suas ilhas, estavam no caminho para as bases militares. Além disso, Estaline tinha concordado que a Grécia cairia sob a esfera de influência britânica. A consequência disto foram assassinatos semi-genocidas em massa. As pessoas ficarão chocadas ao saber que as cabeças dos guerrilheiros gregos foram cortadas e colocadas em postes fora dos campos de concentração onde os prisioneiros da resistência eram mantidos. Os acontecimentos gregos foram encobertos. Reler estas coisas deixou-me furioso, principalmente porque a liderança soviética foi cúmplice e o maior grupo britânico à esquerda do Trabalhismo, o Partido Comunista, ignorou-o.

Foi apenas um punhado de parlamentares de esquerda, como Aneurin Bevan, Sydney Silverman e Konni Zilliacus, que desafiaram Churchill na Câmara dos Comuns. Eles envergonharam-no. Bevan, hoje venerado como um grande santo e fundador do nosso Serviço de Saúde, teve que insistir para ter direito à palavra na conferência do Partido Trabalhista. Foram-lhe dados apenas cinco minutos. Vergonhosamente, o Partido Trabalhista e os sindicatos apoiaram o governo de Churchill.

Ficámos muito preocupados com Tony Blair e a guerra do Iraque, como deveríamos. Mas quando o bombardeamento de Hiroshima e Nagasaki foi discutido no gabinete de guerra de Churchill, Attlee levantou a mão. No entanto, os líderes trabalhistas da época são os heróis de Paul Mason e dos da sua laia. Acham que o que estão a fazer agora é muito novo. Nada é novo – nem a esquerda Trabalhista nem as traições.

Dizes que Churchill estava a tentar manter o Império Britânico num momento de declínio irreversível e descreves as táticas desastrosas que ele adotou que foram de facto desastrosas até mesmo para o seu próprio lado. Assim, o culto a Churchill é puramente uma manobra política contemporânea ou é uma homenagem a um guerreiro genuinamente eficaz para a classe dominante?

Não houve culto a Churchill durante a Segunda Guerra Mundial. Mesmo dentro do exército ele tinha muita oposição. Tomemos o exemplo de Dunquerque em 1940. Este enorme desastre entrou para a história britânica como um mito de conto de fadas: os pequenos barcos a resgatar de forma galante a fuga da Força Expedicionária Britânica localizada em França. Parvoíce! Basicamente, foi a Marinha Britânica que conduziu o resgate. Obviamente, todos estão gratos pelo que eles fizeram. Mas não foi a feliz intervenção retratada nos filmes como um grande triunfo.

A Grã-Bretanha teve sorte. Os generais de Hitler ficaram furiosos com a decisão do Führer de não acabar com o exército britânico quando tiveram a possibilidade. O general alemão, Heinz Guderian, disse que estavam a cerca de meia hora de tomar todas as cidades portuárias, mas receberam ordens de parar. Hitler parou por razões políticas. Se eles continuassem, destruíssem o exército britânico, e tomassem a própria Grã-Bretanha, a Alemanha teria a responsabilidade de governar o Império Britânico, e não estava preparada para isso. Era melhor deixar os britânicos lidarem com o que sabiam melhor.

Então veio 1942, que testemunhou os duplos desastres da vasta guarnição britânica em Singapura, que caiu para os japoneses, e a derrota em Tobruk, que permitiu que os exércitos alemães avançassem ao longo da frente árabe. Os diários do Partido Conservador revelam que houve uma conspiração séria para se livrarem de Churchill e ele sobreviveu por pouco. Bevan estava no seu melhor durante esse tempo. Levantou-se na Câmara dos Comuns e disse: “Não culpe os soldados; culpe o corpo de oficiais. Essas pessoas são recrutadas dentro da sua própria classe e só são promovidas com base no seu nascimento.” Bevan afirmou que se o marechal de campo, Erwin Rommel, tivesse nascido como um inglês comum, não teria sido promovido a sargento. Bevan também se referiu aos voluntários britânicos nas Brigadas Internacionais, que lutaram em Espanha. Um exemplo dado foi de alguém que derrotou um exército fascista para que os republicanos pudessem cruzar um rio importante. Onde, perguntou Bevan, estava ele agora? Um sargento humilde na obscuridade.

Portanto, a posição de Churchill durante a guerra não foi como as pessoas imaginam. A máquina de propaganda tinha que trabalhar a tempo inteiro. Os seus famosos discursos foram feitos em direto nos estúdios de gravação da BBC. Eles não registavam o parlamento naquela época e, portanto, as críticas que lhe eram feitas na Câmara dos Comuns só podiam ser encontradas em Hansard.

Então o que acontece em 1944-45? Há uma pressão real dentro do exército britânico, não das classes altas, mas de oficiais mais jovens de classe média e de soldados da classe trabalhadora. Eles perguntaram que diabo está a acontecer. Porque razão não foi aberta uma segunda frente para socorrer o Exército Vermelho Soviético, que estava a conduzir a maior parte da luta? Quando, relutantemente, os comandantes do exército autorizaram um parlamento simulado no Cairo, em 1944, o Partido Trabalhista venceu em toda a linha – ainda que apenas simbolicamente. O Partido da Commonwealth, um partido de intelectuais liberais radicais de esquerda, ficou em segundo lugar, e os conservadores ficaram em último. Isto era uma indicação do lado para onde o vento estava a soprar.

No entanto, os conservadores ainda não estavam preparados para a grande derrota eleitoral de 1945. Se Churchill era tão popular, como é que isso não se traduziu num triunfo para o Partido Conservador? Muitos anos depois, estava eu com Lawrence Daly, líder dos mineiros escoceses, e ele explicou-me porquê. O país estava na merda até ao pescoço; a organização responsável por isso era o Partido Conservador e as pessoas pensavam: "Se elegermos este monstro para o poder novamente, Churchill vai dizer-nos: 'Façam flexões!'" Foi uma resposta de classe a um político da classe dominante que os levou de um desastre para outro.

Durante a vida de Churchill, muitas pessoas cuspiam quando o seu nome era mencionado. Richard Burton, que interpretou Churchill na biografia cinematográfica de Hollywood, foi questionado pelo New York Times. Eles perguntaram: “Sr. Burton, o seu desempenho foi realmente ótimo. O que você acha do homem? Burton disse que ele era um assassino e um vingativo soldado de brincar. Burton cresceu na zona dos vales e a reputação de Churchill no País de Gales nunca recuperou de Tonypandy. Assim, o culto a Churchill foi projetado para apagar toda esta história e apresentá-lo como o único grande herói, o maior inglês. Essa é a visão que está a ser propagada hoje.

Gostaria de terminar com uma pergunta sobre a crise política e social na Grã-Bretanha, atualmente. No final do livro, dizes: “É preciso um esforço conjunto para encontrar uma alternativa ao sistema neoliberal”. O que queres dizer com isto?

Uma coisa que aconteceu nos últimos 25 a 30 anos foi a emergência do que descrevo como “centro extremo”, que domina a Europa Ocidental e a América do Norte. Aqui, praticamente não há diferença em questões-chave entre os principais partidos políticos. Isto significa um verdadeiro esvaziamento da democracia a todos os níveis, política e ideologicamente. Os meios de comunicação social desempenham um papel indiferente e não há uma oposição séria. Todos ficámos entusiasmados com Jeremy Corbyn na Grã-Bretanha e Bernie Sanders nos Estados Unidos. Mas Bernie, na verdade, não conseguiu capturar o Partido Democrata porque o sistema está muito ligado às grandes empresas. É bom que existam as jovens mulheres, “o esquadrão”, a lutar no Congresso, mas não estão completamente imunes às mesmas pressões que Barack Obama experimentou.

Na Grã-Bretanha, todos ficaram surpreendidos com o facto de Corbyn ter conquistado a liderança trabalhista ao garantir uma espécie de semi-revolta política dos jovens. Estes juntaram-se ao Partido Trabalhista porque gostaram do que Corbyn estava a dizer. Toda a organização da Grã-Bretanha foi abalada. O chefe do estado-maior do exército britânico foi levado ao programa da manhã na televisão, no auge da campanha contra Corbyn, acompanhado de Maria Eagle, a secretária de Estado da defesa do Partido Trabalhista. Na verdade, ele disse que havia muita agitação nas forças armadas e que, se Corbyn fosse eleito primeiro-ministro, haveria motins. Reação dos liberais? Nada. Quando Corbyn escreveu a David Cameron, então primeiro-ministro, para reclamar deste tipo de comportamento, Cameron respondeu: “Bem, uma das suas colegas estava sentada ao lado do general durante esta discussão e ela concordou com ele. Então, você está a reclamar de quê?”

A experiência dos jovens que se politizaram e radicalizaram através do Partido Trabalhista acabou e o partido está realmente a desaparecer, mais cedo ou mais tarde. Provavelmente estarei morto quando isso acontecer mas não há esperança ali.

Então, o grande ponto é este – o Estado britânico está realmente em péssimo estado. Está mal economicamente. Está mal politicamente. O que pode fazer a diferença agora?

Lembro-me de discussões que tive com os trabalhistas que estavam à esquerda e que depois se mudaram para a direita. Isto foi muito depois de eu ser membro de qualquer grupo. O principal argumento deles foi-me apresentado pelo líder da direita trabalhista, Neil Kinnock. Disse: “Não é aos marxistas que nos opomos – é às pessoas que não aceitam a primazia do parlamento”. Isto resume tudo, realmente. Uma pessoa precisa argumentar em resposta, perguntando: onde estava a primazia do parlamento quando pessoas como os Cartistas lutavam pelo direito ao voto e quando as mulheres faziam campanha pelos seus direitos? Nenhuma exigência é conquistada apenas via parlamento. O Parlamento só lhes coloca um carimbo. Na verdade, nunca iniciou uma grande luta em benefício da esquerda ou das causas progressistas.


Tariq Ali é um histórico ativista socialista, escritor, jornalista e historiador. É membro do comité editorial da New Left Review e contribui para o The Guardian e para a London Review of Books. O seu último livro é Winston Churchill: His Times, His Crimes (Verso, 2022).

 

Texto publicado originalmente no International Socialism. Traduzido por Marco Marques para o Esquerda.net.

 

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