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Ex-generais franceses apelam a “intervenção” no país

Numa coluna de opinião, vários militares dizem que a França se está a “desintegrar” e corre risco de “guerra civil” devido a perigos como “o islamismo”, “as hordas das periferias” e os movimentos anti-racistas. Os signatários que estão no ativo vão enfrentar sanções por violação do “dever de reserva”.
Christian Piquemal, ex-general, numa manifestação contra a "imigração massiva" em Versailles em 2016. Foto de Géji/Wikimedia Commons.
Christian Piquemal, ex-general, numa manifestação contra a "imigração massiva" em Versailles em 2016. Foto de Géji/Wikimedia Commons.

Na semana passada, um grupo de 1.200 militares franceses na reserva, entre os quais 24 ex-generais, publicou uma coluna na revista de extrema-direita Valeurs Actuelles. Defendiam que o país se está a “desintegrar”, vive um risco “de guerra civil” e que seria preciso uma “intervenção”. Destes “perigos” faziam parte o "islamismo", “as hordas das periferias” e os movimentos anti-racistas que estariam a promover uma “guerra racial” e a querer “apagar a história” francesa.

O tom era de apelo a Macron para mudar de políticas, mas sobretudo aos militares no ativo para tomarem o assunto nas suas mãos: “Se nada for feito, o laxismo continuará a espalhar-se inexoravelmente na sociedade, causando em última instância uma explosão e a intervenção dos nossos camaradas no ativo numa perigosa missão para proteger os nossos valores civilizacionais e salvaguardar os nossos compatriotas em território nacional”.

Se não se parar de "tergiversar", avisam, a guerra civil que "acabará com o caos crescente" causará "milhares de mortos" e a responsabilidade por estes recairia sobre o governo.

A data da publicação não terá sido escolhida ao acaso. 21 de abril foi o 60º aniversário de uma tentativa de golpe de Estado contra o presidente Charles de Gaulle quando este se preparava para conceder independência à Argélia

Como seria de esperar, a extrema-direita apressou-se a apoiar o conteúdo da publicação. Marine Le Pen, em entrevista à rádio France Info, disse partilhar a “aflição” dos militares e concordar com o seu diagnóstico: “a situação no nosso país é muito grave (...) vários políticos já falaram em situação de guerra civil em certos bairros da periferia”. Convidou-os mesmo a juntar-se à sua força política.

A Ministra da Defesa, Florence Parly, tratou de criticar a politização das Forças Armadas promovida por Le Pen e disse que a “imensa maioria” dos militares são fieis à Constituição. Considerando que se trata de “ações que são inaceitáveis”, anunciou que os militares no ativo que assinaram a carta seriam sancionados por violação do “dever de reserva”.

O anúncio de sanções acabou mesmo por ser feito esta quarta-feira pelo general Lecointre, Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas francesas.

Do lado da esquerda, a resposta ao caso foi de indignação. Ainda antes da reação do governo e dos chefes militares no ativo, os deputados da França Insubmissa tinham já pedido ao procurador de Paris, Rémy Heitz, para investigar tantos os autores quanto os difusores da “provocação à desobediência dos militares”.

Jean-Luc Mélenchon, dirigente do partido e candidato presidencial, considerou que o texto é um “atentado” à República e que “dá do exército uma imagem totalmente deformada”.

Depois da decisão de sancionar os signatários no ativo, Mélenchon manifestou o seu "respeito" por Lecointre por "defender a honra do exército da República" e insistiu com o procurador para que também ele tome medidas.

A ideia de que estes militares representam apenas uma franja de extrema-direita nas Forças Armadas e que os promotores não são militares de topo tem sido repetida por vários analistas. Dá-se como exemplo um dos mais conhecidos signatários, o general na reserva Christian Piquemal, antigo chefe da Legião Estrangeira, que foi expulso do serviço militar em 2016 depois participar numa manifestação proibida contra os refugiados de Calais sob o lema de acabar com a "islamização da Europa".

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