Na semana passada, um grupo de 1.200 militares franceses na reserva, entre os quais 24 ex-generais, publicou uma coluna na revista de extrema-direita Valeurs Actuelles. Defendiam que o país se está a “desintegrar”, vive um risco “de guerra civil” e que seria preciso uma “intervenção”. Destes “perigos” faziam parte o "islamismo", “as hordas das periferias” e os movimentos anti-racistas que estariam a promover uma “guerra racial” e a querer “apagar a história” francesa.
O tom era de apelo a Macron para mudar de políticas, mas sobretudo aos militares no ativo para tomarem o assunto nas suas mãos: “Se nada for feito, o laxismo continuará a espalhar-se inexoravelmente na sociedade, causando em última instância uma explosão e a intervenção dos nossos camaradas no ativo numa perigosa missão para proteger os nossos valores civilizacionais e salvaguardar os nossos compatriotas em território nacional”.
Se não se parar de "tergiversar", avisam, a guerra civil que "acabará com o caos crescente" causará "milhares de mortos" e a responsabilidade por estes recairia sobre o governo.
A data da publicação não terá sido escolhida ao acaso. 21 de abril foi o 60º aniversário de uma tentativa de golpe de Estado contra o presidente Charles de Gaulle quando este se preparava para conceder independência à Argélia
Como seria de esperar, a extrema-direita apressou-se a apoiar o conteúdo da publicação. Marine Le Pen, em entrevista à rádio France Info, disse partilhar a “aflição” dos militares e concordar com o seu diagnóstico: “a situação no nosso país é muito grave (...) vários políticos já falaram em situação de guerra civil em certos bairros da periferia”. Convidou-os mesmo a juntar-se à sua força política.
A Ministra da Defesa, Florence Parly, tratou de criticar a politização das Forças Armadas promovida por Le Pen e disse que a “imensa maioria” dos militares são fieis à Constituição. Considerando que se trata de “ações que são inaceitáveis”, anunciou que os militares no ativo que assinaram a carta seriam sancionados por violação do “dever de reserva”.
O anúncio de sanções acabou mesmo por ser feito esta quarta-feira pelo general Lecointre, Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas francesas.
Do lado da esquerda, a resposta ao caso foi de indignação. Ainda antes da reação do governo e dos chefes militares no ativo, os deputados da França Insubmissa tinham já pedido ao procurador de Paris, Rémy Heitz, para investigar tantos os autores quanto os difusores da “provocação à desobediência dos militares”.
Jean-Luc Mélenchon, dirigente do partido e candidato presidencial, considerou que o texto é um “atentado” à República e que “dá do exército uma imagem totalmente deformada”.
Depois da decisão de sancionar os signatários no ativo, Mélenchon manifestou o seu "respeito" por Lecointre por "defender a honra do exército da República" e insistiu com o procurador para que também ele tome medidas.
Cette tribune dans VA donne de l’armée une image totalement déformée et cela crée à l’intérieur des armées des relations tout à fait inacceptables entre une petite poignée d’exaltés et le très grand nombre qui est fermement attaché à la République. #militaires pic.twitter.com/8ztgJiMDMJ
— Jean-Luc Mélenchon (@JLMelenchon) April 27, 2021
A ideia de que estes militares representam apenas uma franja de extrema-direita nas Forças Armadas e que os promotores não são militares de topo tem sido repetida por vários analistas. Dá-se como exemplo um dos mais conhecidos signatários, o general na reserva Christian Piquemal, antigo chefe da Legião Estrangeira, que foi expulso do serviço militar em 2016 depois participar numa manifestação proibida contra os refugiados de Calais sob o lema de acabar com a "islamização da Europa".