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Europa regressa às aulas com aposta nas "bolhas" para evitar contágios

Em setembro, todos os olhos estão postos na reabertura das escolas e nas alterações devido à pandemia. Saiba o que se passa em França, Itália, Espanha, Alemanha e Reino Unido.
lápis, máscara, termómetro
Foto MarcoVerch/Flickr - CC 2.0

À medida em que a pandemia da covid-19 na Europa se aproxima da segunda vaga, fazem-se também os últimos preparativos para o regresso às aulas. Nalguns casos, elas arrancaram em agosto, a par do aumento de infeções notificadas. Uma orientação comum à organização escolar é a criação de “bolhas” - grupos estáveis de convivência entre alunos -, a par da separação física entre setores da mesma escola. É assim que as escolas pretendem responder às infeções, isolando estas "bolhas" para impedir o avanço da transmissão do vírus ao resto da comunidade escolar.

França: máscaras a partir dos 11 anos, menos restrições ao distanciamento

Em França, as aulas começam esta terça-feira com o uso obrigatório de máscara para professores e alunos a partir dos 11 anos. As instruções do governo emitidas no fim de agosto são menos restritivas do que as que vigoraram no final do ano letivo anterior. Por exemplo, a distância física deixa de ser obrigatória  tanto nos recreios como em espaços fechados onde não haja capacidade para acolher todos os presentes, como refeitórios, bibliotecas ou salas de aula.

Os pais dos alunos franceses comprometem-se a não deixar o educando ir à escola se tiver mais de 38º de febre ou caso existam sintomas da covid-19 na família. O mesmo se aplica naturalmente a professores e funcionários. Caso o aluno dê positivo no teste à covid-19, a direção da escola tem de ser notificada. Todos os espaços de utilização comum são desinfetados diariamente e os dos refeitórios após cada refeição.

O governo prevê ainda acionar medidas de emergência nos cenários de circulação do vírus e de circulação muito ativa que passe pela necessidade de encerramento dos estabelecimentos de ensino. No primeiro cenário está prevista a utilização de outros espaços para as aulas, quer dentro das escolas (como ginásios, pavilhões, anfiteatros, campos desportivos e outros espaços ao ar livre) ou fora das escolas (cinemas, museus, pavilhões gimnodesportivos, jardins públicos, estádios, parques, etc.). No segundo cenário está prevista a implementação do ensino a distância, com os professores a sinalizarem casos de alunos em situação de fragilidade, quer no que diz respeito à aprendizagem quer à falta de computador e ligação à internet. As instruções do governo indicam a necessidade de uma monitorização do absentismo escolar desde o primeiro dia de aulas.

Itália: menos alunos por turma e aulas ao sábado

Em Itália, ninguém vai à escola desde março e o novo ano letivo arranca a 14 de setembro na maior parte das regiões, com máscara obrigatória a partir dos 6 anos, à exceção das aulas de educação física. O distanciamento mínimo nas salas de aula é de um metro, o que reduz o espaço disponível e obriga à divisão dos alunos por mais turmas, com as escolas a estarem abertas também aos sábados.

Para além de prometer contratar mais 40 mil professores, sobretudo no ensino primário e pré-escolar, o governo italiano lançou um concurso para a aquisição de dois milhões de secretárias individuais, mas a encomenda não vai chegar a tempo do arranque do ano letivo. Os pais são aconselhados a deixar os filhos em casa caso tenham acima de 37.5º de temperatura ou sintomas de doença respiratória.

Caso surja um caso de infeção entre alunos e funcionários, toda a escola terá de ser testada e poderá mesmo encerrar se tal for determinado pelas autoridades locais. As escolas têm o poder de decidir continuar com o ensino à distância ou alternar aulas presenciais e à distância. E podem também levar as aulas para fora das salas, apesar de um comité de peritos se ter oposto a dar aulas em ginásios e recreios.

Alemanha: aulas regressaram… e o vírus também

“As crianças não devem ser as grandes perdedoras da pandemia”, avisava Angela Merkel na semana passada, já depois das aulas terem arrancado em muitas regiões ao longo do mês de agosto. E não demorou muito até os primeiros casos aparecerem: mais de quatro dezenas de escolas das 825 existentes em Berlim notificaram casos entre alunos e funcionários nas duas primeiras semanas do novo ano letivo.

As regras do funcionamento escolar são definidas a nível regional e no caso de Berlim o uso da máscara só é obrigatório nos espaços comuns fora da sala de aula. No estado alemão mais populoso, a Renânia do Norte-Vestfália, os alunos devem usar a máscara dentro as salas de aulas. Em ambos os casos muitas escolas tiveram de enviar alunos ou turmas inteiras para cumprir quarentena em casa, cumprindo a orientação federal de dar prioridade absoluta a manter as escolas abertas.

Espanha: Comunidades autónomas definem as suas regras

Também no estado espanhol as competências para a definição do funcionamento escolar cabem aos governos de cada região, à semelhança das datas de regresso às aulas ao longo do mês de setembro. A orientação comum passa pela criação de grupos estáveis de convivência (as chamadas “bolhas”), a nomeação de um delegado Covid que articula com as autoridades de saúde e a divisão do espaço escolar em setores distintos. A máscara obrigatória a partir dos 6 anos faz parte das regras na maioria das regiões, embora haja casos, como o País Basco ou Castela e Leão, onde apenas será obrigatória se não for possível respeitar o rácio de alunos por turma que permita 1.5 metros de distância entre alunos dentro da sala de aula.

A redefinição dos espaços obrigou à contratação de milhares de professores e muitos deles estão a ter formação no uso das plataformas digitais para o cenário de regresso ao ensino à distância ou ensino misto. Há regiões onde se fazem testes covid a todos os professores - como as Astúrias, que adiou o início do ano letivo para os poder fazer a tempo. Os planos de contingência preveem ensino presencial com prioridade aos primeiros anos de escolaridade e misto ou à distância para os últimos. Há regiões que o aplicarão desde o início, outras só em caso de necessidade.

Por exemplo, o governo catalão quer assegurar 300 mil dispositivos eletrónicos para os alunos a partir dos 14 anos e meio milhão de testes em todas as escolas até meados de novembro. Quando se detetar um caso positivo nas escolas catalãs, toda a “bolha” será isolada durante 14 dias; se forem dois ou mais casos em “bolhas” diferentes no mesmo edifício, todos os que ali têm aulas seguem para isolamento; e se esses dois ou mais casos se derem em diferentes bolhas e edifícios, aí é possível fechar a escola por inteiro. Na Galiza, a quarentena da turma e professor dá-se com um caso confirmado e o encerramento da escola será possível com mais de três casos nos últimos sete dias. Aqui o regresso às aulas será faseado semanalmente, com a presença de um terço da turma na primeira semana, dois terços na segunda e a turma completa na terceira semana. Já em Murcia, para reduzir a ocupação da escola a metade, os alunos a partir dos 14 anos terão aulas semipresenciais, indo à escola dois ou três dias por semana. Os mais novos irão quatro dias à escola quando o número de alunos por turma ultrapasse o limite de 20 ou 24, consoante o grau de ensino. Apenas o pré-escolar e o ensino especial terão aulas presenciais por inteiro.

Reino Unido: manter escolas abertas é a prioridade

Com o uso de máscara a depender da decisão de cada escola - à exceção da Escócia e Irlanda do Norte, onde é obrigatória -, a criação de “bolhas” é também a forma de organização do espaço escolar britânico neste regresso às aulas. Para o governo, “as máscaras faciais têm um impacto negativo no ensino e o seu uso na sala de aula deve ser evitado”, a menos que existam imposições nesse sentido por parte das autoridades locais. O governo emitiu as suas linhas orientadoras, onde garante que os trabalhadores da educação não correm maior risco de contrair o novo coronavírus do que outra profissão e que as crianças têm poucas hipóteses de ficarem gravemente doentes. A primeira prioridade é garantir que alunos doentes não vão para a escola.

Em caso de proximidade com quem tenha tido sintomas ou um teste positivo, o aluno ou funcionário deve entrar em isolamento. Caso desenvolva sintomas deve agendar um teste e caso o teste seja negativo pode regressar, se entretanto os sintomas desaparecerem. A escola não pode pedir prova de teste negativo ou qualquer atestado médico para receber de volta o aluno. No cenário de dois ou mais casos confirmados em 14 dias, ou de aumento do absentismo escolar que possa levantar suspeitas de infeções, cabe às autoridades de saúde fazerem recomendações à escola. Estas podem passar pelo isolamento de turmas inteiras, mas o encerramento de escolas “não será em geral necessário”, e só pode ser equacionado se for essa a recomendação das autoridades de saúde. Quanto às famílias relutantes em levar os filhos para o regresso à escola, o ministro da Educação já avisou em junho que lhes irá aplicar multas, o que levantou críticas não só das associações de pais, mas também dos próprios diretores das escolas, a quem caberá a tarefa de sensibilizar essas mesmas famílias.

O absentismo escolar nas primeiras semanas de aulas é já uma realidade na Escócia, com 3% dos alunos ausentes com a justificação da covid (ou seja, com teste positivo) e outros 12.3% por outras razões. Dos quase 40 mil alunos testados, 117 deram positivo, informou o governo escocês esta terça-feira. O responsável pela pasta da Educação afirmou que é normal que “as constipações e infeções virais semelhantes” comecem a circular após o regresso das férias prolongadas. Há quem sublinhe o distanciamento físico prolongado como causa para os vírus se espalharem tanto e também quem aponte o dedo às precauções acrescidas dos pais, que tendem agora a querer manter os filhos fora da escola ao mínimo sintoma de uma constipação.

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