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EUA: Receitas de indústria de armamento disparam com venda de armas utilizadas em tiroteios em massa

Cinco principais fabricantes de armas dos EUA contabilizaram cerca de mil milhões de euros em receitas nos últimos dez anos com venda de espingardas semiautomáticas a civis. Indústria de armamento incita jovens a adquirir armas como forma de “provar a sua masculinidade”.
Foto de Tac6 Media, Flickr.

O Comité de Supervisão e Reforma da Câmara dos Estados Unidos da América (EUA) apresentou esta semana, numa audiência do Capitólio, um relatório sobre a produção e comercialização das armas de fogo que ganharam notoriedade devido à sua utilização nos assassinatos em massa registados recentemente naquele país.

A investigação concentrou-se em cinco dos maiores fabricantes de armas, concluindo que os mesmos arrecadaram um total de mais de 1000 milhões de dólares (986 milhões de euros) em receitas nos últimos dez anos com a venda de armas de fogo do estilo AR-15.

De acordo com o Comité, duas das empresas aproximadamente triplicaram a sua receita com a venda deste tipo de armas nos últimos três anos. A Daniel Defense, com sede perto de Savannah, na Geórgia, aumentou a sua receita de 40 milhões de dólares em 2019 para mais de 120 milhões de dólares no ano passado. A empresa vende a crédito armas como a utilizada no massacre de Uvalde e anuncia que o financiamento pode ser aprovado "em segundos".

A National Public Radio (NPR) recorda que Salvador Ramos, responsável pelo tiroteio em Uvalde, começou a comprar armas de fogo e munição quando completou 18 anos, gastando mais de cinco mil dólares em duas espingardas AR, munições e outros equipamentos nos dias anteriores ao massacre.

Já a receita bruta da Sturm, Ruger & Co quase triplicou de 39 milhões de dólares para 103 milhões de dólares desde 2019, e a Smith & Wesson reportou que as suas receitas duplicaram de 2019 a 2021.

Comprar armas para provar a “masculinidade”

Alguns dos anúncios promovidos pelos fabricantes de armas são nitidamente destinados ao público jovem, imitando videojogos populares de tiro. Noutros, inclusive, a indústria de armamento refere que as armas colocarão os compradores "no topo da cadeia alimentar da testosterona".

A deputada democrata Carolyn Maloney, de Nova Iorque, considera que essas táticas de vendas são "profundamente perturbadoras, exploradoras e imprudentes" e denuncia que “a indústria de armas está a lucrar com o sangue de americanos inocentes".

“Está claro que os fabricantes de armas estão a alimentar uma epidemia de saúde pública e o Congresso tem a responsabilidade de tomar medidas ousadas para detê-los”, escreveu Carolyn Maloney na sua conta de Twitter.

Os fabricantes de armas, por outro lado, alegam que as armas do tipo AR-15 são responsáveis ​​por uma pequena parcela dos homicídios com armas de fogo e que a culpa é dos atiradores, e não da indústria do setor.

Marty Daniels, presidente executivo da empresa Daniel Defense, afirmou perante o Comité que os “assassinatos são problemas locais que precisam de ser resolvidos localmente".

Recorde de vendas de armas durante a pandemia e 15 tiroteios em massa só em 2022

Segundo a deputada republicana Jody Hice, da Geórgia, que defendeu o direito do povo americano a “possuir armas", cerca de 8,5 milhões de pessoas compraram armas pela primeira vez em 2020.

Um investigação conjunta da Associated Press/USA TODAY/Northeastern University Mass Killing Database revelou, por sua vez, que se registaram quinze assassinatos em massa este ano. Esses incidentes resultaram em 86 mortos e 63 feridos. Foram utilizadas armas de fogo em todos eles e, em pelo menos sete casos, tratavam-se de espingardas do estilo AR-15. Mas a AR-15 e armas semelhantes são também populares entre as pessoas que compram armas para autodefesa.

A Forbes assinala que, de acordo com a National Shooting Sports Foundation, foram fabricados ou importados para os EUA 24,4 milhões de espingardas do tipo AR-15 e AK de 1990 a 2020. E que os EUA fabricaram ou importaram um recorde de 2,8 milhões de espingardas em 2020.

Enquanto os fabricantes de armas lucram com a crescente popularidade das armas de fogo AR-15, as vítimas dos tiroteios e as suas famílias são confrontadas com o equivalente em contas hospitalares. Um relatório divulgado na semana passada pelo Comité Económico Conjunto do Congresso dos EUA, citado pela CBS News, aponta que as vítimas de violência armada e as suas famílias pagam mais de mil milhões de dólares por ano em despesas médicas.

Democratas pressionam pela votação de um projeto de lei para proibir armas de assalto

A investigação do Comité de Supervisão e Reforma da Câmara dos EUA foi lançada em maio, após os tiroteios em massa que mataram 10 pessoas numa mercearia em Buffalo e 21 numa escola primária em Uvalde, ambos realizados com AR-15, que o comité apelidou de “arma de escolha dos assassinos”.

A Forbes escreve que o comité disse que as espingardas AR-15 são “projetadas para matar muitas pessoas o mais rápido possível”.

Armas deste género foram utilizadas em vários tiroteios em massa recentes, incluindo o tiroteio de 4 de julho nos arredores de Chicago, o tiroteio na escola primária Sandy Hook de 2012, o tiroteio na discoteca Pulse de 2016 em Orlando, o massacre de 2017 num hotel em Las Vegas e o tiroteio de 2018 no liceu Marjory Stoneman Douglas, na Flórida.

A investigação sobre a receita dos fabricantes de armas ocorre num momento em que os democratas da Câmara pressionam pela votação de um projeto de lei para proibir armas de assalto antes que o Congresso inicie o período de férias. As armas de assalto foram anteriormente proibidas em todo o país de 1994 a 2004, e vários estados aprovaram as suas próprias proibições.

A votação na Câmara deverá ser renhida, mas mesmo com uma votação positiva, o projeto enfrenta grandes dificuldades num Senado dividido, onde os democratas precisam do voto de dez republicanos para superar a obstrução.

 

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