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EUA, França e Turquia desviam material de saúde destinado a outros países

Estados Unidos desviam máscaras compradas pela polícia alemã, retêm ventiladores destinados ao Brasil e impedem exportação de máscaras para o Canadá. França apreendeu máscaras de Espanha e Itália. Turquia retém avião com ventiladores para Espanha.
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Soldados da Guarda Nacional do Kentucky (USA) empacotam material médico que vai ser distribuído durante a pandemia de Covid-19/Flickr

À medida que a crise pandémica se agudiza em várias partes do mundo, foram surgindo várias notícias semelhantes ao longo dos últimos dias: sequestro de material médico destinado a outros países, com o pretexto do reforço do sistema nacional de saúde do respetivo país na luta contra o Covid-19.

Dois dos países mais afetados pelo vírus, Itália e Espanha, estão entre os que sofreram golpes destes. No caso espanhol, a Turquia reteve em Ancara um avião com material médico, que Espanha tinha adquirido à China. Dias antes, a 1 de abril, um avião militar de carga turco partiu de Ancara com cinco toneladas de equipamento de proteção com destino a Espanha e Itália, após pedido de apoio à NATO. Contudo, com a evolução da pandemia naquele país (tem no presente quase 24.000 testes positivos ao vírus), a Turquia alterou a decisão e reteve centenas de ventiladores que tinham como destino Espanha (e já tinham sido pagos à China), com a pretensa justificação de necessitarem reforçar o seu próprio sistema de saúde.

Mas como já foi referido, este não é o único caso de sequestro de material médico no âmbito desta crise global. De acordo com o L'Express, o presidente francês, Emmanuel Macron, assinou um decreto que autorizava o Governo a requisitar qualquer produto necessário na luta contra a pandemia de Covid-19. No dia 5 de março, o Secretariado Geral da Defesa e Segurança Nacional francês (SGDSN) apreendeu 4 milhões de máscaras que a empresa sueca Molnycke estava a transportar da China para Espanha e Itália, ficando retidas no centro logístico de Lyon. Esta retenção originou um incidente diplomático entre França e Suécia, que, por fim, levou à libertação de apenas metade do número de máscaras apreendidas, ficando os outros 2 milhões de máscaras sequestrados em solo francês.

Os Estados Unidos, após desvalorizarem a Covid-19 durante meses, procuram material médico com urgência e retêm mesmo, nas pistas dos seus aeroportos, material médico destinados a outros países.

A administração Trump é acusada de comprar em pistas de aeroportos máscaras de proteção descartáveis, que tinham sido previamente adquiridas pelo governo francês e ventiladores comprados pelo Brasil. Em declarações à estação televisiva RT, Renaud Muselier, presidente da região Provence-Alpes-Côte d'Azur, acusou os Estados Unidos de pagarem três ou quatro vezes o preço pago por França diretamente em pistas de aeroportos chineses, antes de iniciarem a sua viagem. A encomenda, que continha cerca de 60 milhões de unidades deste equipamento de proteção e tinha como destino França, "partiu, ao invés, para os Estados Unidos", lamentou Renaud Muselier.

O Brasil relata casos semelhantes, com uma encomenda de 600 ventiladores a um fornecedor chinês que não saiu do aeroporto de Miami, onde fazia escala para o Brasil. Ainda de acordo com a BBC,  em nota de imprensa, a Casa Civil da Bahia informou que "a operação de compra dos respiradores foi cancelada unilateralmente pelo vendedor", suspeitando que os EUA tenham oferecido um valor mais alto pelos ventiladores, que ainda não tinha sido pagos pelo governo brasileiro. Para além destes casos, a Alemanha também acusou os USA de redirecionarem para si mesmos 200.000 máscaras, encomendadas pela polícia de Berlim. Este acto foi descrito pela Alemanhã como "pirataria moderna", de acordo com a BBC.

Outro percalço diplomático surgiu nos Estados Unidos, com o governo de Trump a impedir a empresa norte-americana 3M de exportar os seus produtos médicos para o Canadá, recorrendo à Defence Production Act, uma lei do tempo da Guerra com a Coreia, para justificar a sua decisão. A empresa, que fabrica cerca de 100 milhões de respiradores N95 por mês, alertou que esta decisão tem "consequências humanitárias significativas", e que pode desencadear reacções semelhantes noutros países, indica a BBC.

Por sua vez, o primeiro ministro canadiano Trudeau lembrou que “o Canadá também envia equipamento para os Estados Unidos” e sublinhou que todos os dias milhares de enfermeiras viajam do Canadá para trabalhar em Detroit (Estados Unidos). “São coisas em que os americanos confiam e seria um erro criar bloqueios ou reduzir a quantidade de comércio de bens e serviços essenciais, incluindo produtos médicos, através da nossa fronteira”, disse Trudeau em declarações citadas pela BBC.

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