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EUA aceleram expulsão de imigrantes face à revogação da deportação rápida

Desde o início de maio, Ciudad Juárez, no México, passou a receber três vezes mais pessoas estrangeiras retornadas de El Paso, Estados Unidos. As autoridades advertem que a tendência continuará face à próxima suspensão do Título 42, que permite a deportação rápida. Por Verónica Martínez
Os Estados Unidos aceleram a expulsão de imigrantes para o México, face à revogação de uma norma temporária que permitia a sua deportação rápida – Foto de Verónica Martínez / La Verdad de Juárez
Os Estados Unidos aceleram a expulsão de imigrantes para o México, face à revogação de uma norma temporária que permitia a sua deportação rápida – Foto de Verónica Martínez / La Verdad de Juárez

Ciudad Juárez - Ao meio-dia e a poucos metros da Ponte Internacional Reforma, cerca de 20 migrantes permaneciam indecisos na Avenida Rivas Guillen após serem expulsos pelos Estados Unidos. No total, 120 pessoas foram devolvidas, na passada segunda-feira, em dois grupos a esta cidade fronteiriça no norte do México, segundo dados oficiais.

Os homens usavam as camisas azuis e laranja e os sapatos sem atacadores que lhes tinham sido entregues no centro de detenção de imigrantes nos EUA. Em sacolas de plástico levavam os seus haveres como telemóveis, carteiras, dinheiro e documentação. Após atravessar a fronteira para o México, a maioria ligou para os seus familiares para os informar que tinham acabado de ser expulsos por uma porta de entrada desta cidade.

mais de 100 pessoas serão expulsas diariamente durante as próximas semanas, uma quantidade que contrasta com a média de 30 migrantes que tinham sido recebidos até há poucos dias

De acordo com fontes do Instituto Nacional de Migração (INM) consultadas sobre estes regressos, mais de 100 pessoas serão expulsas diariamente durante as próximas semanas, uma quantidade que contrasta com a média de 30 migrantes que eram recebidos até há poucos dias.

Este aumento regista-se devido a operações especiais das autoridades de imigração dos Estados Unidos, face à iminente revogação do Título 42 anunciada para 23 de maio.

Manuel, um homem de 28 anos proveniente de Cuba, narrou que esteve cinco dias no centro de detenção de imigrantes nos Estados Unidos, depois de ter atravessado irregularmente para pedir asilo humanitário. Funcionários da imigração no centro de detenção transferiram-no, assim como a outros homens, pela ponte internacional sem lhes dar qualquer explicação sobre o processo de asilo e sem lhes dizerem que seriam expulsos para a fronteira mexicana.

“Sem qualquer tipo de perguntas, interrogatórios ou qualquer coisa, eles chamaram-nos de uma lista. Pedimos respostas oficiais, mas não nos dizem nada”, disse Manuel. “Depois percebemos que já estávamos a vir para cá. Eles enganaram-nos e soltaram-nos aqui”, acrescentou.

Manuel referiu que ao chegar ao cimo da ponte ele e outros migrantes resistiram a atravessar a fronteira, questionando ainda o motivo do seu regresso.

Foi necessária a presença da Guarda Nacional para desobstruir a ponte e ao chegarem às instalações do Instituto Nacional de Migração (INM), os repatriados receberam atenção humanitária do Grupo Beta.

Sob o despacho do Título 42, a política de saúde pública estabelecida pela administração de Donald Trump (2017-2021) face à proliferação da covid-19 e ainda em vigor na administração de Joe Biden, as autoridades do Gabinete de Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP, em inglês) e a Patrulha de Fronteira puderam expulsar imediatamente milhares de pessoas estrangeiras sem passar pelo devido processo de solicitação de asilo.

O número de retornos sob o Título 42 foram crescendo no setor de El Paso desde janeiro deste ano, com um aumento de 42% em comparação com os números de março, passando de 18.039 para 25.614, segundo dados do CBP.

Os migrantes expulsos dos Estados Unidos desde segunda-feira, 2 de maio, são recebidos em tendas instaladas do lado de fora da estação de imigração do INM na ponte internacional Reforma-Stanton.

Este aumento das expulsões diárias realizadas pelo governo dos Estados Unidos alguns dias antes do prazo estabelecido para revogar o Título 42, ocorre num momento de saturação dos espaços de acolhimento em Ciudad Juárez, como alertaram organizações locais e internacionais no final de abril.

A quantidade de pessoas que são devolvidas sob o Protocolo de Proteção a Migrantes (MPP), um programa que exige que os requerentes de asilo aguardem os seus processos de asilo no México, continua a retornar uma média de 10 pessoas por dia para Ciudad Juárez.

Desde que o programa MPP foi retomado em Ciudad Juárez, em dezembro de 2021 e até abril deste ano, mais de 790 pessoas foram devolvidas, disse Santiago González Reyes, diretor do escritório da Direção Municipal de Direitos Humanos.

A ordem do Título 42 está a poucas semanas de ser revogada, o prazo estabelecido para parar de aplicá-lo expira em 23 de maio e as autoridades da Patrulha de Fronteira já juntaram esforços para se preparar para retomar o processo de asilo novamente.

Embora as autoridades dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) tenham ordenado a revogação da política de imigração no início de abril, ainda se discute no tribunal federal os planos para manter essa ordem.

A 29 de abril, o presidente Biden e o seu homólogo mexicano Andrés Manuel López Obrador mantiveram uma conversa telefónica, na qual discutiram principalmente questões de migração e estratégias para gerir os fluxos migratórios.

Na conferência de imprensa de quarta-feira, 4 de maio, López Obrador mencionou que ambos os presidentes concordam que é preciso tratar as causas dos deslocamentos forçados.

“Têm que haver programas de desenvolvimento na América Central. Já estão a avançar, mas ainda são necessários mais recursos para a América Central”, disse o presidente mexicano. "O mais conveniente, lógico e eficaz é ordenar o fluxo migratório e dar oportunidade a quem quer trabalhar nos Estados Unidos."

“Procura-se fortalecer as cadeias de produção para gerar oportunidades económicas e o desenvolvimento de infraestrutura nos mais de 3.200 quilómetros de fronteira”, detalhou a administração Biden num relatório da Casa Branca.

Artigo de Verónica Martínez, publicado originalmente em La Verdad de Juárez e Pie de Página. Publicado também em ipsnoticias.net, foi traduzido para português por Carlos Santos para esquerda.net

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