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Estudo mostra que país é “profundamente assimétrico”

O estudo “Territórios de bem-estar: assimetrias nos municípios portugueses” faz uma radiografia do sentimento de bem-estar em todo país mostrando o fosso de condições em termos de habitação, transportes, saúde e trabalho.
Trabalhadores. Foto de Paulete Matos.
Trabalhadores. Foto de Paulete Matos.

Um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, divulgado esta segunda-feira, conclui que Portugal é um “país profundamente assimétrico nas condições de vida e de bem‐estar das populações”.

A partir das estatísticas oficiais, a investigação, intitulada “Territórios de bem-estar: assimetrias nos municípios portugueses”, dividiu o território em cinco tipos de grupos: Territórios Industriais em Transição (municípios do noroeste em que coexistem novas indústrias e bastante trabalho pouco qualificado, correspondendo a 17% da população do continente), Territórios Intermédios (municípios do Alto Minho, Beiras ou Algarve que têm menos jovens, empregos menos qualificados e menos qualificações escolares, correspondendo a 21% da população), Territórios Urbanos em Rede (municípios das áreas Lisboa e Porto, entre outros, caracterizados por grande crescimento demográfico, muita precariedade no trabalho e difícil conciliação trabalho/família, correspondendo a 41% da população), Territórios Inovadores (municípios como Lisboa, Porto, Coimbra, Cascais e Alcochete que atraem muito investimento mas têm fortes desigualdade nos rendimentos, correspondendo a 13% da população) e Territórios de Baixa Densidade (os municípios mais envelhecidos e com menos capacidade de criação de emprego, correspondendo a 8% da população).

A tendência encontrada é que, na generalidade, é nos Territórios Inovadores que os inquiridos mais dizem sentir bem-estar em diversos parâmetros. Contudo, zonas menos atrativas em termos de emprego mas nas quais a compra de habitação seja mais fácil, haja menos movimentos pendulares e maior sentimento de comunidade podem ultrapassar aquele tipo de territórios. Por outro lado, se é nos territórios de baixa densidade populacional e intermédios que a pobreza está mais disseminada, em 28% dos municípios do continente mais de metade das famílias são pobres, é nas grandes cidades que é “mais duro” ser pobre devido às fracas redes de apoio social aí existentes. Os idosos têm de enfrentar também situações de isolamento com um em cada cinco a viver sozinhos em 60% dos concelhos.

A coordenadora do estudo, a socióloga Rosário Mauritti, diz ao Público que há “algumas dimensões do bem-estar que são prioridade” para o conjunto dos inquiridos “como viver num local aprazível, com bom ambiente e perto de zonas verdes, onde se possa passear”. Constata que a questão educativa é dada como “resolvida e bem resolvida” na generalidade dos territórios mas que há diferenças significativas ao nível da habitação, saúde, trabalho digno, transportes.

Este último aspeto “só está praticamente assegurado nos territórios mais densamente povoados, com as pessoas dos restantes a lidarem com quotidianos muito dificultados pela ausência frequente de transportes públicos regulares, o que no contexto atual, com os preços dos combustíveis, se torna ainda pior”.

Quanto há habitação, o fosso entre territórios manifesta-se na quantidade acessível e disponível mas também na qualidade. Há mais habitação e a preços mais acessíveis nos Territórios de Baixa Densidade mas a qualidade “para quem tem recursos” é maior nos territórios mais povoados. Quem não tem, tem de viver longe do trabalho, “o que obriga a muitas movimentações diárias, implicando também com o equilíbrio entre o trabalho e a família”, outras das dimensões estudadas pelos investigadores.

No que diz respeito ao trabalho digno, há “condições interessantes nos Territórios Inovadores, do ponto de vista da remuneração, das pessoas fazerem o que gostam e com trabalho adequado às suas qualificações, mas muitas vezes pautado pela precariedade”, segundo Mauritti. Sobre os restantes territórios, a socióloga destaca que apesar de terem empregos menos qualificados, onde haja maior estabilidade pode também haver uma maior perceção de bem-estar, defendendo que “quando temos menos recursos, as nossas expectativas também baixam e, se conseguimos um trabalho de que gostamos, com estabilidade e que nos permite projetar a vida, ao nível de ter filhos, por exemplo, isso acaba por mitigar o facto de ele não ser tão bem remunerado. Este trabalho confere um sentido de realização.”

Já ao nível da saúde, é a área que causa “um maior mal-estar nas pessoas”. Nos Territórios Intermédios e nos Territórios Urbanos em Rede “há uma enorme dificuldade em recrutar médicos e enfermeiros” e as pessoas “sentem-se abandonadas”.

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