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Estudantes da Universidade do Minho manifestam-se contra assédio sexual

Depois de denunciados mais de uma centena de casos nos últimos dias, o protesto criticou a “inação” dos serviços da Reitoria e exigem medidas para que o assédio sexual não continue a ser uma realidade.
Estudantes da Universidade do Minho manifestam-se contra o assédio sexual. Foto de Miguel Martins/Twitter.
Estudantes da Universidade do Minho manifestam-se contra o assédio sexual. Foto de Miguel Martins/Twitter.

Há alguns dias que várias queixas sobre assédio sexual na Universidade do Minho se foram tornando públicas. Depois de duas queixas, uma no campus de Gualtar, outra contra um porteiro da residência universitária Professor Carlos Lloyd, foi criada uma página de Instagram onde se começaram a multiplicar denúncias. São já mais de uma centena, relatam casos que envolvem professores, funcionários e estudantes e algumas remontam há mais de uma década.

Esta quinta-feira, centenas de estudantes concentraram-se junto à estátua de Prometeu, no campus de Gualtar, contra o assédio sexual e tomando posição crítica contra o que classificam como a “inação dos serviços da Reitoria”. Depois disso, percorreram os três quilómetros entre este local e o Largo do Paço, onde está sediada a Reitoria da instituição, de forma a entregar o manifesto que redigiram. Nele exigem formações sobre prevenção e combate ao assédio para professores e funcionários da Universidade, a criação de campanhas de sensibilização sobre a matéria e que as denúncias recebidas sejam encaminhadas para um gabinete independente que “deve ter a capacidade de dar opções de acompanhamento e apoio psicológico, gratuito, às vítimas”.

Nos cartazes, estavam escritas frases como “contra o assédio na academia”, “o corpo é meu, a rua é nossa” ou “estamos com medo”. Entre as palavras de ordem que se puderam escutar estavam frases como “Senhor Reitor, responsabilize-se, por favor”, “mais segurança, menos incompetência”, “a nossa luta é todo o dia, contra o assédio na academia”, “o corpo é meu, a rua é nossa” e “não nos calarão”.

Entre as organizadoras do protesto está uma das pessoas que denunciou um dos primeiros casos que se tornaram conhecidos. Cátia Almeida diz que foi vítima de “importunação sexual” no campus de Gualtar por parte de homem que terá feito o mesmo a “várias estudantes nos últimos dez anos”. Depois do caso se tornar mediático, a Universidade informou que procedeu ao “reforço da segurança” no local, o que significa o corte de vegetação e a melhoria da iluminação.

O outro caso foi alvo de uma queixa aos Serviços de Ação Social da Universidade há cinco meses mas só recentemente foram tomadas medidas. Um porteiro da residência universitária Prof. Carlos Lloyd foi acusado por uma aluna de “comportamentos e comentários impróprios”. Rui Vieira de Castro, reitor desta Universidade reconheceu o atraso que “não deveria ter acontecido” e que as medidas, no caso a mudança do trabalhador para funções sem contacto com estudantes ou com o público enquanto decorre o processo de averiguação, deviam ter sido imediatas.

As estudantes dizem que é muito pouco e que assim não se dissuadem este tipo de comportamentos. Ao jornal O Minho, Cátia Almeida critica: “há vítimas que se queixaram e a universidade ficou do lado dos professores”. E outra das organizadoras da manifestação, Raquel Brandão, salienta que muitas vítimas ficaram caladas e só “tiveram coragem” de expor os seus casos à medida que se iam conhecendo cada vez mais situações.

Ana Magalhães, 21 anos, trabalhadora licenciada em química, também envolvida no protesto, critica a instituição dizendo que “abafar casos de assédio não deveria ser um comportamento da “Melhor academia do país”” como esta Universidade se apresenta. Para ela, a manifestação serviu para mostrar que há centenas de alunos dispostos a usar as suas vozes “para fazer o trabalho que deveria estar a ser feito pela Reitoria” e para mostrar às vítimas/sobreviventes que não estão sozinhas.

Por sua vez, Teresa Carvalho, 23 anos, criminóloga e estudante de Mestrado em Crime, Diferença e Desigualdade, considera “essencial que a comunidade académica se una e denuncie toda e qualquer situação de assédio, abuso, importunação ou ato de teor sexual que vitimize qualquer alune da Universidade do Minho”. Também ela considera “incompreensível a inação por parte dos órgãos administrativos da Universidade do Minho face a este flagelo tão enraizado na nossa sociedade, nomeadamente no contexto universitário”, exigindo “uma ação ativa, contínua e precisa, que não se dissolva no tempo, nem silencie estes casos e demonstre um certo nível de conivência”.

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