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“Estratégia UE/África vive de um pressuposto inaceitável”

Marisa Matias criticou a posição aprovada na semana passada no Parlamento Europeu. “Não acredito numa estratégia de cooperação em que uma parte queira ser líder no território da outra parte”, diz a eurodeputada bloquista.
Marisa Matias. Foto de Alexis Haulot/Parlamento Europeu

No webinar promovido pelo Parlamento Europeu na sexta-feira, Marisa Matias criticou a adoção por parte do Parlamento Europeu do documento que estabelece a nova parceria entre a União Europeia e os países africanos.

A propósito da “situação trágica que se está a viver em Moçambique”, a eurodeputada do Bloco ressalvou alguns aspetos positivos do documento, como a referência à ajuda no combate aos extremismos. “Mas depois diz-se que a ausência de uma resposta por parte da UE pode conduzir a que outros intervenientes internacionais assumam um papel de liderança que a UE pretende ter no continente”, acrescentou.

Para Marisa Matias, “não estamos em tempos de sequer achar que é normal que se aprovem textos em que se afirma que uma estratégia UE/África depende da capacidade da UE de ter um papel de liderança no continente africano”.  

"Cooperação a sério é pensar numa cooperação entre iguais"

“Não acredito numa estratégia de cooperação em que uma parte queira ser líder no território da outra parte”, resumiu a deputada, antes de alertar também para projetos “muito duvidosos” que o documento refere, como o das utilizações da tecnologia 5G na região do Sahel, “que segundo várias denúncias serve também para os fins de externalização das fronteiras” que a União Europeia tem seguido nos últimos anos, com os resultados trágicos que são bem conhecidos.

“Por essas razões, devíamos estar numa fase em que discutir uma cooperação a sério é pensar numa cooperação entre iguais e tocando a sério as questões que importam”, prosseguiu Marisa, dando como exemplos o combate às desigualdades e à pobreza, “mas também as questões da dívida e do seu cancelamento". Questões "que não são faladas” no documento, aponta.

Na parceria aprovada pela larga maioria dos eurodeputados - 460 votos a favor, 64 contra e 163 abstenções - também “não há uma estratégia real e concreta no sentido de cooperar no combate à evasão e fuga fiscal, que por ano custa aos países africanos 50 mil milhões, mais do dobro daquilo que a UE dá em ajuda para o desenvolvimento”. A ausência de referências ao cancelamento da dívida é ainda mais gritante em tempo de pandemia, quando os países africanos “gastam mais em juros da dívida do que o que podem investir nos seus sistemas de saúde”, referiu ainda a eurodeputada do Bloco.

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