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"Estado de emergência tem servido para muitos atropelos aos direitos laborais dos profissionais de saúde"

Célia Rodrigues é fisioterapeuta no Centro de Saúde de Mangualde. Em entrevista ao Interior do Avesso, fala do que mudou com a pandemia do Covid-19 e diz ter a esperança de que após a pandemia "os nossos governantes parem de atiçar a opinião pública contra os profissionais de saúde".
Célia Rodrigues é fisioterapeuta no Centro de Saúde de Mangualde
Célia Rodrigues é fisioterapeuta no Centro de Saúde de Mangualde

Célia Rodrigues é fisioterapeuta e trabalha no Centro de Saúde de Mangualde.

É dirigente nacional do sindicato dos técnicos superiores de saúde (STSS), que representa os técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica (TSDT).

Há quanto tempo está a trabalhar na região?

Eu trabalho na região de Viseu desde 1990, há 30 anos, portanto.

No Interior, em especial na região de Mangualde e Viseu, como estão as pessoas a reagir a toda esta situação?

As pessoas estão com medo, apreensivas, ansiosas, mas penso que são sentimentos normais perante esta situação. No entanto, julgo que a maioria está a cumprir as recomendações de distanciamento físico e a permanecer em casa.

E como achas que vão ser as próximas semanas?

Penso que as próximas semanas serão muito difíceis, para todos, mas principalmente para os profissionais de saúde. Se as medidas de contenção que foram tomadas derem resultado, e conseguirmos aplanar a curva de crescimento do número de casos, será um pouquinho melhor, mas serão sempre semanas muito difíceis.

As pessoas estão a cumprir as normas emanadas da Direção Geral de Saúde?

Tendo em conta a velocidade com que o vírus se impôs, parece que sim. Tal não significa que possamos abrandar as medidas de contenção. Ou seja, não podemos relaxar e temos de estar atentos às mais recentes evidências científicas.

Qual o maior entrave à contenção da propagação do Sars-Cov-2?

A falta de conhecimento sobre o próprio vírus e a iliteracia em saúde generalizada na população. O investimento nesta área tem vindo a ser reduzido ao mínimo, há já muitos anos. Apenas interessavam os números (de consultas, de tratamentos, de utentes atendidos, etc.). Se quisermos ser sinceros, temos o SNS que deixámos que os sucessivos governos destruíssem, de há 20 anos para cá.

Com os dados que existem, e sabendo da imprevisibilidade associada a toda esta situação, achas que Portugal vai passar pelo mesmo que está Itália a passar? De incapacidade de resposta ao aumento de casos?

Bem, todos sabemos que o SNS já estava muito depauperado, e que faltava tudo, desde material e equipamentos a profissionais de saúde. Apesar de se ter diminuído drasticamente a atividade do SNS, continuam a faltar EPI (equipamento de proteção individual), equipamento e profissionais.

Cada serviço organizou-se à sua maneira, não havendo grande sensibilidade na gestão dos recursos humanos. Em vez de se contratarem mais profissionais, foram impostos horários pesados (turnos de 12 horas por dia, ou mais), em muitos locais não está a ser respeitada a criação de equipas fixas, em rotatividade, e os profissionais estão exaustos (já antes estavam!).

Assim sendo, pode acontecer que sim. Se a pressão sobre o sistema aumentar muito, pode acontecer o colapso. Mas também depende de cada um de nós cumprir as regras de higiene, manter o confinamento e a distância física.

A saúde e segurança dos profissionais da saúde estão a ser protegidas?

Os profissionais estão com dificuldade em ter material de proteção, como já é conhecido de todos. Existe de facto escassez o que obriga a lutas diárias muito desgastantes. Além disso, a laboração contínua por períodos de tempo superiores a 8 horas aumenta de forma considerável o risco de erro ou acidente, tanto para o próprio como para a equipa e o utente. Esta carga horária semanal diminui a capacidade de gestão emocional e de concentração, muito mais em contextos de grande pressão, como é o caso desta pandemia. Não adianta nada exigir EPI, se os profissionais não tiverem as condições necessárias para usar os mesmos com segurança. Todos estes factores influenciam significativamente a imunidade, ficando estes profissionais muito mais expostos.

Por outro lado, os profissionais de saúde imunodeprimidos e/ou portadores de doença crónica, bem como algumas grávidas, que de acordo com as orientações das autoridades de saúde devem ser considerados de risco, e que deveriam ser obrigatoriamente afastados do plano de contingência para salvaguarda da sua saúde, estão a ser obrigados a trabalhar.

E os direitos laborais dos profissionais de saúde, estão a ser respeitados?

Não. Temos muitos atropelos aos direitos laborais destes profissionais, utilizando como fundamento o estado de emergência. Tem sido afetada a manutenção dos direitos e obrigações, inerentes à parentalidade, nomeadamente os retributivos, recorrendo a bancos de horas ilegais, alteração dos regimes de horários de trabalho semanais de cada trabalhador, com jornadas diárias que ultrapassam os limites legais e humanos e que colocam em risco o trabalhador e a prestação de cuidados aos doentes. O governo criou mecanismos que permitem às instituições recorrer à contratação de trabalhadores a termo, a suspensão dos limites para a realização de trabalho extraordinário, ou a restrição temporária das férias, permitindo ter o maior número de profissionais disponíveis. Por isso não se entende que recorram a medidas não previstas na Lei, penalizando estes profissionais. Batem-nos palmas, agradecem-nos, elogiam-nos, mas no terreno somos tratados como “carne para canhão”.

O trabalho dos TSDT está a ser reconhecido?

O trabalho dos TSDT nunca foi reconhecido! Porque seria agora? Os TSDT trabalham nos bastidores, por isso são menos visíveis, mas sem eles, nenhum médico teria a confirmação do diagnóstico. Temos na linha da frente os Técnicos de Análises Clínicas e Saúde Pública, os Técnicos de Radiologia, os Técnicos de Saúde Ambiental, os Técnicos de Cardiopneumologia, os Fisioterapeutas especializados em cuidados intensivos, só para falar em alguns.

A ministra da saúde não recebe os representantes destes profissionais há vários meses, nem responde aos seus ofícios, ignorando-nos completamente. Essa atitude reflete-se também nos serviços. Valham-nos alguns utentes, que sabem do nosso empenho e da nossa dedicação, e que nos transmitem o seu reconhecimento, de viva voz, a cada dia. Muitas vezes é isso que nos dá alento para continuarmos a dedicar-nos a esta missão, de ajudar os outros e salvar vidas. A minha esperança é que, no fim disto tudo, os nossos governantes parem de atiçar a opinião pública contra os profissionais de saúde, e que, não só os TSDT, mas TODOS os profissionais da saúde, sejam devidamente reconhecidos e tenham carreiras e salários dignos, compatíveis com o grau de responsabilidade e risco que lhes é exigido, não só nesta pandemia, mas sempre.

Antes da crise era debatido por alguns setores da sociedade a privatização ou concessão dos hospitais e a implementação de cheques saúde como substituto do Serviço Nacional de Saúde. É preciso um Serviço Nacional de Saúde?

A lógica das empresas de saúde privadas é sempre o lucro. Temos relatos de doentes noutros países, que morrem sem assistência médica, à porta de hospitais privados. Não é isso que quero para Portugal. Eu entendo que a saúde não deve ser um negócio. Por isso precisamos de um Serviço Nacional de Saúde universal, geral e gratuito, que responda às necessidades de saúde das populações, de forma racional, e sem discriminar ninguém. Já percebemos que deveríamos ter um SNS melhor apetrechado, com mais meios e com mais profissionais. Já percebemos que deveríamos ter apostado mais na prevenção e na promoção da saúde. Desejo que saibamos todos recolocar as nossas prioridades naquilo que é realmente importante, pois as pessoas são a maior riqueza de um país. É para as pessoas, e pelas pessoas, que se deve governar.

Obrigado pelo tempo disponibilizado para esta entrevista e um obrigado pelo trabalho no SNS, em prol de todos nós!

Artigo publicado em Interior do Avesso

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