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Esta greve também é das/os estudantes?

Um debate muito comum em período de greve geral é o da pertinência ou não da participação dos estudantes na greve. O debate não é simples e leva sempre a um cerrar de posições, quer de um lado, quer do outro. No entanto, vamos tentar perceber quais as razões que fazem desta greve geral um acontecimento em que as/os estudantes devem participar. Contributo de João Santos

A greve é tida por todos como um conflito entre trabalhadores e patrões, onde os primeiros param por um certo período de tempo a sua atividade produtiva. Contudo, a conjuntura atual leva-nos à necessidade de uma análise muito mais complexa do que é a greve e de quem deve participar na greve.

Após a apresentação do Orçamento de Estado para 2013, é notório que toda a sociedade vai sofrer com o aumento de impostos e com a redução da despesa apresentada pelo governo. Sendo que, neste role de cortes, o ensino vai ser um dos principais alvos.

Para termos uma visão concreta da realidade estudantil, é de notar que em 2011/2012, uma família com apenas um filho gastou em média no ensino superior 5.841 euros e que, neste ano letivo, esses gastos sofrerão um aumento significativo, agravado pelo corte nas bolsas, corte do desconto do passe em 50% para todas/os as/os estudantes com menos de 23 anos e também com o aumento das propinas.

No que toca ao ensino básico e secundário, as dificuldades não serão menores. Para além do já referido corte no passe, a escola secundária tem sido vista pelo ministro Nuno Crato como um laboratório, onde se pretende incutir o fetiche da disciplina e dos exames. A política deste governo para o ensino secundário tem por base a sobrecarga horária dos estudantes, um maior esvaziamento do currículo, um aumento exponencial das turmas e a implementação da examocracia para medir os conhecimentos adquiridos.

Ao olhar-se para estas medidas, percebemos claramente as intenções do governo. Não se tratam de reformas ou de cortes devido à crise. Neste momento o que assistimos é a um aprofundar das lógicas do neoliberalismo no ensino. Um acesso ao ensino superior cada vez menos democrático, um estrangulamento financeiro das/os estudantes, um esvaziamento de pensamento crítico e de conteúdo curricular, tendo como principal objetivo não a formação da/o estudante mas a canalização para o mercado de trabalho. No ensino básico e secundário é também a batuta do mercado que regula o ensino. Não é a aprendizagem, nem o pensamento crítico que interessam a este ministro, o que lhe interessa é que as escolas se tornem em espaços onde se possa formar mão-de-obra barata e pronta para entrar no mercado de trabalho.

Este governo está a colocar em risco o acesso democrático ao ensino superior, a sobrecarregar as/os estudantes e as suas famílias com um aumento exponencial de despesas, a usar as escolas básicas e secundárias como laboratório para as experiências neoconservadoras incutidas de uma lógica de mercado. O governo do PSD/CDS está a transformar a escola numa “fábrica de precárias/os”, onde o que conta não é o saber, mas os desejos do mercado.

É por isto que a greve geral de 14 de Novembro também é das/os estudantes!

Contributo de João Santos, estudante e membro da coordenadora distrital de Setúbal do Bloco de Esquerda

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