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Esta Europa que se consome…

Vejam bem a premonição deste Alfredo Storni, um caricaturista… como de resto parece ter acontecido na fase inicial ao agora Herói-Presidente ucraniano… Um século não foi suficiente para lhe roubar a razão (a Storni). Ele só não terá percebido que o seu presente estava para durar. Por Luís Farinha.
"Mapa caricatural da Europa conflagrada", por Alfredo Storni na revista "O Malho", setembro de 1914..

No princípio da “Guerra da Ucrânia” – que melhor deveria ser designada Guerra da Rússia -, uma criança ucraniana deslocada, na sua infinita bondade (e sabedoria!) mostrava-se surpreendida com o que estava a acontecer à sua cidade dizendo que para ela tudo aquilo era incompreensível. Ela julgava viver “num mundo moderno” onde já nada disto deveria ser possível.

Mais experientes, os velhos (e pobres) ucranianos do Donbass – alguns acordados das memórias vivas da ocupação nazi de há 80 anos – olham para os seus refúgios meio destruídos pelos oito anos de guerra já ocorridos e lamentam. Poderia sempre ter havido “outra solução”, dizem. Eles e elas não ignoram que existe um problema…ou vários problemas.

A suave penetração do Ocidente

O eterno Presidente e chefe do governo da Federação Russa (três vezes Presidente da Federação e duas vezes chefe da governação) Vladimir Putin tinha há pouco chegado ao poder quando as repúblicas bálticas – Estónia, Letónia e Lituânia -, aderiram à União Europeia e foram admitidas no seio da NATO. Em 2004, a velha Rússia acabava de acordar de um sonho mau. O que há poucos anos parecia uma impossibilidade, desaguara num mar de derrotas – a económica, a política, a militar, a ideológica, a moral...

A seguir à Queda do Muro, a 23 de agosto de 1989, forma-se um cordão humano em torno das repúblicas bálticas, exigindo a separação da União Soviética e afirmando a viabilidade da “Via Báltica”, numa reedição da independência que estas repúblicas haviam conseguido, a golpes de sangue, em 1918, contra o imperialismo alemão. E que em 1939-45 foram impedidas de manter, depois das sucessivas “ocupações-libertações” de soviéticos e de nazis. Nos anos 1990, inspiradas pelo velho nacionalismo do início do século, conseguem a separação da União Soviética. Por essa altura, Moscovo sonhava ainda com a constituição de uma “Confederação Báltica” que não fugisse ao seu controlo.

Porém, nada disso aconteceu e, em 2004, o Ocidente (da Europa Unida e da NATO) iniciava a suave penetração das margens do mundo eslavo, numa contradança de expansão para Leste que prometia à Alemanha (a mãe da Europa Unida) a retoma da influência sobre os territórios bálticos que os “Barões Alemães” dominaram desde o séc. XVIII.

Putin chegara, pela mão de Ieltsin, em 1999, fora eleito em 2000 e reeleito em 2004 Presidente da Federação Russa. O “intolerável” avanço do Ocidente sobre os territórios sempre tidos como eslavos (ou quando muito partilháveis entre eslavos e teutões) acontecera. A União Europeia (a Alemanha especialmente) estendera a sua influência sobre a vizinha Polónia, a Roménia, a Bulgária, com aparente normalidade. Fora muito cuidadosa com a grande Turquia, por esta constituir um corredor aberto para o conflituoso Oriente Médio. Mantém, aliás uma estranha e grande dúvida sobre o pedido de adesão da Croácia, que aceitou em 18 de junho de 2004. Mas não perdeu nunca a esperança de avançar mais uns passos sobre outras margens do mundo russófilo.

Poucos anos passaram sobre essa chegada de Vladimir Putin ao Kremlin. Entre 2004 e 2014 (quando se acende o conflito do Donbass) e 2016, com a anexação da Crimeia, medeia pouco mais de uma década – a década que deu tempo a Putin para tornar-se o poderoso gigante energético de que a Alemanha e a Europa de Leste são hoje reféns. As armas para a defesa de um “espaço vital” – onde os povos têm o direito de se governarem de forma diferente, como defende Lavrov, o ministro russo dos negócios estrangeiros – já existiam. Foi só preciso esperar pela ocasião certa. Disso mesmo parecem estar convictos milhares de russos a quem a “Guerra da Ucrânia” passa como despercebida. Isso já acontecera com a ocupação da Crimeia. Diremos que lhes falta liberdade para se manifestarem contra. Só isso, ou vontade de o fazerem?

Entre teutões e eslavos – uma guerra secular

Vale a pena regressar a uma inspirada caricatura de Alfredo Storni, publicada n`O Malho, nas vésperas da primeira conflagração mundial. Que diz ele na altura que não pudesse ser dito hoje com uma caricatura semelhante?

Observemos…

Empurrada pelo Czar russo, a poderosa Alemanha lança-se sobre o Ocidente, onde só o “caixeiro-viajante” anglo-saxão parece estar em condições de vedar os apetites expansionistas dos teutões. No noroeste europeu só mesmo a mansarrona Escandinávia parece escapar ao expansionismo czarista sobre a Finlândia e as orlas do Báltico.

E bastou este “encosta para lá” russo para que todas as periferias europeias acordassem para os seus apetites adormecidos: no Adriático, nos Balcãs, no Egeu… Todos não! Voltado para o Atlântico, o “nosso” Manuel de Arriaga mantinha viva e bem guardada pelo menos uma parte do país: “TUGAL”. Já os nossos irmãos ibéricos fanfarronavam com a ajuda da distância que parecia eximi-los da contenda.

O grande palco do mundo

Primeira Cena

Houve, como sabemos, a primeira cena, resolvida em 1918/19 com a contração territorial do Grande Império russo (sem a Finlândia, os Países Bálticos, alguns territórios polacos…) e a grande humilhação germânica. Ao seu redor, todos sentiram o abalo. Foi a primeira fase da Guerra Civil Europeia. Cai o pano, mas por pouco tempo.

Segunda Cena

O foco do conflito localizou-se no mesmo espaço. Alemanha e URSS concertaram entre si territórios e tratados de paz e demarcaram a linha do conflito sobre o território polaco, em 1939. O resto da cena já conhecemos – a Alemanha nazi concitou sobre si todos os ódios e recolheu-se, humilhada, a uma espécie de Pequena Alemanha, diminuída e ocupada – a “Grande Catástrofe”. Ao invés, o gigante (agora soviético) avançou até ao centro da Europa, muito ajudado pela ideologia socialista/internacionalista que colhia aderentes no Continente europeu e no mundo. Com a enorme vantagem de poder justificar o armamentismo nuclear, de tipo novo, perante a emergência de um inimigo até aí desconhecido: os Estados Unidos da América e a NATO. O novo interveniente tinha aparecido timidamente em 1917 e regressara, ufano e poderoso, em 1944.

Terceira Cena

O Mundo Livre acena com um braço por cima do Muro – mostrando-se atraente na sua prosperidade – e o Muro cai, como um baralho de cartas, tudo muito facilitado pela ingenuidade do Sr. Gorbi e pela bebedeira continuada do Sr. Ieltsin. Aureolada pela pujança do seu poderoso marco (que depois vendeu a todos com o nome de Euro), a Alemanha unificada e encostada à NATO, decidiu voltar a ameaçar o Gigante das Estepes, minando o seu poder económico e roubando-lhe as suas zonas de influência – com a abertura da União Europeia a Leste…cada vez mais a Leste. E com uma contrapartida para os novos aderentes – deveriam entrar na NATO. A última chanceler e um fogoso compatriota nosso – o agora entristecido eurocrata Sr. Durão Barroso pela sua reconhecida falta de perspicácia –, foram desta estratégia grandes e eficazes intérpretes.

Epílogo para um novo começo

E voltámos ao início, que é como quem diz, à cena irada do Gigante das Estepes, agora na posse de um poder colossal (energético e militar) que diz estar disposto a utilizar se não for respeitado o seu “espaço vital”. Talvez esta retoma do velho azedume (iniciado nos 90`s do século passado) entre teutões e eslavos não viesse a acontecer com o sr. Gorbi, seguramente não com o incapaz Sr. Ieltsin. Porém, iria, infalivelmente, acontecer com um qualquer Sr. Putin, este ou outro, mais cedo ou mais tarde. Tarde de mais para as elites russas que decidiram não aceitar a sua perda de influência nas margens dos mares Negro e de Azov e a considerar intolerável o armamentismo da NATO a poucos quilómetros de Moscovo.

O “Bem” contra o “Mal”? Ou antes a necessidade de aceitar a necessidade absoluta de contratos políticos que impeçam a irracionalidade da guerra e a monstruosidade das perdas e das destruições materiais apocalíticas?

Quem não gostaria de ter estado presente nas conversas privadas entre Putin e Biden que antecederam a muito anunciada ocupação da Ucrânia? Ou as que colocaram frente a frente Putin e Scholz, o chanceler alemão? Só mesmo o atribulado séc. XXI nos poderia presentear com a situação insólita de presenciarmos conversações entre os dois mais influentes líderes mundiais (a nível militar, pelo menos) a poucos dias do começo de uma guerra medonha. Será que a consideraram, no xadrez que disputam, um mal menor?

Para terminar, volto a Storni, o caricaturista brasileiro.

Vejam bem a premonição deste Alfredo Storni, um caricaturista… como de resto parece ter acontecido na fase inicial ao agora Herói-Presidente ucraniano… Um século não foi suficiente para lhe roubar a razão (a Storni). Ele só não terá percebido que o seu presente estava para durar.

 

Sobre o/a autor(a)

Ex-Diretor do Museu do Aljube Resistência e Liberdade. Investigador no Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa
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