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Esquerda.net: Como jornalista, não poderia estar mais orgulhoso

O ano de 2006, que viu nascer o Esquerda.net, foi também o ano da criação do Twitter e do alargamento a todos os cidadãos do Facebook. A decisão de criar um portal de informação alternativa foi uma aposta visionária que deu certo. Por Luis Leiria
Imagem do esquerda.net em 2006

Dez anos é muito tempo. Em 2006, Portugal era governado pelo primeiro-ministro José Sócrates e o presidente da República era Aníbal Cavaco Silva, eleito em janeiro desse ano para o primeiro mandato. A seleção nacional obteve a sua melhor participação num mundial de futebol desde 1966, sendo eliminada na meia-final pela França num jogo travado dois dias depois de o Esquerda.net ser lançado, a 3 de julho. Nas legislativas do ano anterior, o Bloco de Esquerda comemorara um excelente resultado de 6,4%, mais que duplicando a sua bancada parlamentar, que passou a contar com oito deputados.

Pode hoje parecer estranho dizer-se isto, mas a opção tomada pelo Bloco de Esquerda de optar pela Internet como meio privilegiado para fazer a sua comunicação foi, de certa forma, visionária. O paradigma do papel era absoluto entre todos os partidos. Havia sites partidários, é claro, mas eram meramente institucionais e só se animavam um pouco em períodos eleitorais, sendo depois votados ao esquecimento.

Hoje, quando vemos a decisão de um jornal como o El País de se tornar prioritariamente digital – e isto apesar de ser o líder de vendas em papel na Espanha – podemos avaliar como essa decisão, há dez anos, era arriscada.

Havia, no entanto, novidades no ciberespaço que apontavam para um futuro revigorado: o Twitter foi criado no dia 15 de julho de 2006; o Facebook já existia, mas era uma rede que abrangia apenas estudantes universitários dos EUA, Canada, Reino Unido e mais uns poucos países, e só em setembro de 2006 se abriu para todas as pessoas acima de 13 anos que tivessem um e-mail válido.

O primeiro grupo

Fiz parte do primeiro grupo que se reuniu para discutir o projeto de um portal de informação alternativa promovido pelo Bloco de Esquerda, com atualização diária. Estavam também Jorge Costa, Daniel Oliveira, Nuno Ramos de Almeida, Pedro Sales, Carlos Santos. Francisco Louçã garantia a ligação com a Comissão Política do Bloco, e desde logo se mostrou um grande entusiasta do projeto. A ele se deve a maior responsabilidade na hora da decisão final. O simples facto de o nome Esquerda.net estar nessa altura disponível comprova o nosso pioneirismo.

Definimos algumas linhas mestras: deveríamos separar informação de opinião. As notícias teriam um tratamento jornalístico, informativo. Isto não quer dizer que fossem “neutras”: a simples escolha de uma notícia em detrimento de outra envolve sempre uma escolha política. Mas as notícias do Esquerda.net não teriam – não têm – a preocupação de terminar com a “linha justa” ou com qualquer orientação, mas sim de informar.

Na hora em que foi preciso pôr de pé uma alternativa à imprensa patronal,dissemos “presente!”. Os dez anos do Esquerda.net são a demonstração de que é possível fazê-lo, e com qualidade. Como jornalista profissional, não poderia estar mais orgulhoso. Como militante de esquerda desde antes do 25 de Abril, também

As opções políticas seriam – e são – reservadas para a secção de opinião, que mesmo assim procura ser plural.

Sempre com a intenção de ampliar a informação à disposição dos leitores, definimos também que faríamos frequentemente dossiers temáticos – o primeiro foi “Israel depois da Guerra”. Nestes, procuraríamos, sempre que possível, apresentar mais do que um ponto de vista, com o objetivo de oferecer o mais completo leque informativo.

Outra decisão foi que o portal seria multimédia, e por isso teríamos vídeo, rádio e fotografia, sendo convocados para participar do grupo inicial Bruno Cabral e Nino Alves (vídeo), Heitor de Sousa, Pedro Ramajal e Carlos Cerqueira (rádio) e Paulete Matos (fotografia). A Paulete seria mais tarde a responsável por integrar o portal na explosão das redes sociais.

Foram meses de montagem da infraestrutura, desenho do site, definição das regras de funcionamento. E entrámos online no dia 3 de julho daquele ano de 2006.

24 horas por dia, sete dias por semana

Bem depressa verificámos que eram necessárias mudanças: a primeira página, por exemplo, só tinha cinco notícias – que rapidamente se demonstrou um número escasso – e a opinião só aparecia debaixo de todas as notícias – a sua colocação teve de ser corrigida. A ideia de que não haveria atualizações no fim-de-semana, quando apenas seria publicado o dossier, logo se demonstrou impraticável: as notícias teimavam em não respeitar o descanso semanal e a equipa descobriu por experiência própria que tinha de trabalhar 24 horas por dia, sete dias por semana.

Fizemo-lo com um enorme entusiasmo e alguma dose de voluntarismo. Outras pessoas entraram e saíram, e hoje apenas o Carlos Santos se mantém da equipa inicial. Eu, aproveito para esclarecer os que não sabem, reformei-me por invalidez devido à doença de Parkinson, e desde outubro do ano passado, encerrado um ciclo político do Bloco com as eleições, deixei de integrar a equipa permanente, onde já só estava a “meio gás”, passando a ser colaborador eventual.

Mas o entusiasmo que senti quando nos lançámos naquela louca empreitada está intacto até hoje. Ao longo da minha carreira profissional trabalhei no Brasil em dois jornais diários de primeira linha, participei de projetos empolgantes como a Vida Mundial e a História, em Portugal, e em documentários de televisão. Mas nada se assemelha ao que vivi em quase dez anos no Esquerda.net. Na hora em que foi preciso pôr de pé uma alternativa à imprensa patronal,dissemos “presente!”. Os dez anos do Esquerda.net são a demonstração de que é possível fazê-lo, e com qualidade. Como jornalista profissional, não poderia estar mais orgulhoso. Como militante de esquerda desde antes do 25 de Abril, também.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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