França

Esquerda exige a Macron o fim do bloqueio das instituições

05 de setembro 2024 - 12:12

Em comunicado, os partidos da Nova Frente Popular defendem que a alternativa a um governo por si liderado seria um executivo do campo presidencial viabilizado pela extrema-direita. Ou seja, tudo o que os franceses rejeitaram nas eleições. Sábado há manifestações contra o “golpe de Macron”.

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Manifestação de 18 de julho em Paris
Manifestação de 18 de julho em Paris. Foto de Jean Paul Romani/Phototheque.org

Enquanto o governo demissionário de Gabriel Attal continua em funções e pode mesmo vir a bater o recorde de longevidade de executivos franceses nessa circunstância, o presidente Emmanuel Macron continua a receber diariamente personalidades da vida política e social e a “testar” nomes de potenciais primeiros-ministros com fugas de informação para a imprensa.

Numa reviravolta impressionante no que diz respeito à leitura dos resultados que afastaram a extrema-direita da chegada ao poder, nos últimos dias Macron tem ligado insistentemente a Marine Le Pen para ouvir a opinião da sua ex-adversária nas presidenciais sobre os nomes em cima da mesa. Ao ponto do vice-presidente da União Nacional, Sébastien Chenu, vir dizer às televisões que Marine Le Pen "não é a diretora de Recursos Humanos de Emmanuel Macron”. No seu recém-adquirido e inesperado papel de árbitra do futuro executivo francês, Le Pen já vetou os nomes do republicano Xavier Bertrand e do ex-primeiro-ministro socialista Bernard Cazeneuve, mas não fecha a porta à sugestão do ex-ministro republicano e antigo comissário europeu Michel Barnier.

Os franceses votaram no início de julho e a vitória da Nova Frente Popular (NFP) surpreendeu o Presidente, a extrema-direita e a generalidade dos analistas políticos. Em vez de, como é tradição à falta de uma maioria, indicar a personalidade escolhida pela formação mais votada para procurar viabilizar um governo minoritário no Parlamento, Macron começou por adiar a decisão por um mês. Depois confirmou que rejeitava dar posse a um governo da esquerda, alegando que este seria logo censurado pelo resto do Parlamento, nem sequer dando a hipótese a Lucie Castets de negociar com as restantes bancadas, excluindo a da extrema-direita, como a economista escolhida pela esquerda se comprometeu a fazer.

“Quase dois meses após as eleições legislativas, Emmanuel Macron está a mergulhar o país num impasse”, afirmam em comunicado os líderes dos partidos da NFP, concluindo que restam duas opções a Macron: um governo da Nova Frente Popular, que saiu vencedora nas urnas, ou “um governo do campo presidencial, que só poderia ser mantido graças a um acordo tácito com a extrema-direita”, o que seria “uma negação total das eleições legislativas” que colocou a NFP à frente e rejeitou massivamente a chegada ao poder da União Nacional de Le Pen e Jordan Bardella.

Assim, os partidos dizem ao Presidente que “já é mais do que tempo de convidar a Nova Frente Popular e a sua candidata a formarem governo”, reiterando a vontade de “construir acordos texto a texto no Parlamento com base nas nossas propostas” no Parlamento. E avisam que “manter em funções o governo demissionário, irresponsável perante o Parlamento, é um erro”, pois “cada dia de bloqueio das nossas instituições torna mais difícil a tarefa do próximo governo de reerguer o país”.

O apelo surge após serem conhecidos na segunda-feira os números das contas públicas do país, que apontam para um défice de 5,6% do PIB este ano (cinco décimas percentuais acima do previsto na primavera) e 6,2% em 2025, graças à redução das receitas fiscais e do aumento da despesa. A derrapagem nas contas por parte do executivo macronista demissionário veio acompanhada de sugestões de cortes do atual ministro Bruno Le Maire em setores como a Justiça, Segurança, Defesa ou Investigação, além dos apoios ao emprego, subsídios de doença, ou o fim de algumas taxas reduzidas do IVA como na restauração, serviços de televisão ou água engarrafada. Medidas rejeitadas tanto pela esquerda como pela maioria do eleitorado que votou há dois meses.

Manifestações este sábado contra o “golpe de Macron”

Convocadas pela França Insubmissa logo após Macron anunciar a sua rejeição de um governo de esquerda, as marchas de 7 de setembro ganharam o apoio dos outros partidos da NFP à exceção dos socialistas, além de associações juvenis e sindicatos.

Além da exigência do respeito pelo resultado eleitoral de julho e do fim da deriva autoritária do Presidente francês, estas marchas pretendem obrigar Macron a respeitar também a escolha dos franceses a favor do salário mínimo de 1.600 euros, o controlo de preços, a reforma aos 60 anos, a escola gratuita, a luta contra o racismo e o reconhecimento do Estado da Palestina.

Cristina Semblano
Cristina Semblano

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