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A escola precisa de recursos para responder a quem tem menos possibilidades económicas

Segundo o relatório PISA 2018, divulgado esta terça-feira, o fosso entre alunos mais ricos e mais pobres está a crescer em Portugal. A deputada Joana Mortágua defende que a escola precisa de “mais professores, mais técnicos especializados para responder a todos os alunos, não apenas aos que têm bons resultados”.
Foto de Paulete Matos.

Ao reagir à publicação dos resultados do relatório PISA, esta terça-feira, Joana Mortágua começou por destacar que este estudo “vem confirmar o que vários estudos nacionais e internacionais têm dito ao longo dos anos, que em Portugal o contexto socioeconómico das famílias é determinante para o sucesso escolar dos alunos”.

Para a deputada bloquista, “os alunos pobres são os mais atingidos pela cultura de retenção, pelo abandono escolar precoce e pelo encaminhamento para percursos educativos guetizantes”. A Escola tem assim “poucas estratégias educativas para lidar com alunos que não têm, à partida, contextos favoráveis para a aprendizagem”.

Exemplo disto é o facto de 60% dos alunos terem de recorrer a explicações privadas de matemática. Se isso acontece “é porque alguma coisa está errada e quem fica para trás são os que não têm possibilidades económicas”, considera.

É preciso assim que a Escola tenha “mais recursos, mais professores, mais técnicos especializados para responder a todos os alunos e não apenas aos que têm bons resultados”.

Joana Mortágua acrescenta: “outra coisa que fica evidente nestes resultados é o impacto da baixa escolaridade das famílias no sucesso escolar dos alunos, o que nos deve levar a repensar a educação de adultos”.

Educação: a classe importa mais do que a aula

O relatório PISA, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, pretende medir o desempenho de alunos com 15 anos, comparando o seu desempenho ao longo do tempo e em diversos países. De três em três anos, avalia competências como a leitura, matemática e ciências.

Retrato baseado em testes que não deixam de ser contestados, os seus altos e baixos costumam ser utilizados politicamente para louvar ou criticar aspetos das políticas educativas nos países avaliados tomando a bitola do “sucesso”. Mas neste relatório podem-se encontrar dados que vão para além disto.

Um exemplo é a forma como a origem socioeconómica dos alunos influencia o seu desempenho. De acordo com o relatório PISA 2018, as dificuldades económicas condicionam os resultados escolares do alunos e as suas expetativas. 25% dos estudantes com menos condições económicas e com bom desempenho afirma não ter perspetiva de concluir um curso superior. Os mais favorecidos, pelo contrário, declaram quase todos ter este objetivo.

As competências de leitura, especialmente focadas nesta edição, são um exemplo da disparidade social. Se nestas o resultado global dos alunos portugueses está em linha com a média da OCDE, com um resultado de 492 pontos, a diferença de origem socioeconómica é vincada. Os alunos portugueses de origem mais favorecida ficam 95 pontos acima dos que têm mais dificuldades económicas. No resto dos países avaliados a média é de 89 pontos. E o fosso social tem vindo a crescer: em 2009, o diferencial social era de 87 pontos e ficava dentro da média da OCDE.

No topo das competências de leitura, há apenas 2% dos alunos de origem mais desfavorecida. Entre os 25% de resultados mais elevado, há apenas 10% de alunos em situação mais desfavorecida.

Há outras diferenças que são assinaladas no estudo como a relativa aos resultados dos imigrantes: apenas 17% dos alunos com origem na imigração obtiveram resultados nos 25% melhores.

Por outro lado, a escola continua a ser um ambiente hostil para parte daqueles que nela deveriam ser acolhidos com 14% dos alunos a admitir que foram vítimas de bullying “pelo menos, algumas vezes por mês” e 10% e dizer sentirem-se sozinhos na escola.

Já a diferença público/privado é bem menos significativa do que a origem social dos alunos. Os alunos do privado obtiveram em literacia matemática 497 pontos, os do público 492; em literacia científica a diferença é de 493 relativamente a 491; em leitura foram 491 para o privado e 492 para o público.

PISA 2018 aponta diferenças de género

O ângulo de género também está presente no relatório. Há diferenças nas preferências por áreae nas competências evidenciadas. Se as raparigas obtêm melhores resultados na leitura (504 para 480 pontos), apesar da distância ter diminuído, os rapazes superam-nas em matemática (obtêm 497 relativamente aos 488 delas). Em ciências não foram registadas diferenças significativas apesar da balança pender ligeiramente para o lado masculino tendo mais cinco pontos.

As áreas preferidas para prosseguimento de estudos são também diferenciadas: raparigas preferem a área da saúde, rapazes engenharias e ciências. Metade dos “melhores alunos” de ciências e matemática do género masculino esperam vir a trabalhar na área de ciências, especialmente nas engenharias. Uma discrepância assinalável face às raparigas: apenas uma em cada sete responde nesse sentido.

Na área da saúde é o inverso: perto de metade das “melhores” alunas querem seguir esta área profissional enquanto apenas um em cada sete rapazes responde o mesmo.

Comparando com 2015, resultados dos alunos portugueses pioram

Se comparados os resultados entre 2015 e 2018 nota-se uma pioria. Apesar dos resultados dos alunos portugueses terem aumentado consistentemente ao longo dos últimos anos e de permanecerem acima da média da OCDE, houve uma descida da média em ciências (de 501 para 492) e leitura (de 498 para 492) nos últimos três anos, tendo regredido para números semelhantes aos de há dez anos. A média de Matemática manteve-se em 492 pontos. E o número de estudantes com resultados de topo sobe. Os chamados “top performers”, em leitura, aumentaram de 4,8% para 7,3%. A média da OCDE é de 9%. Em matemática passaram de 5,4% para 11,6%, o que iguala a média da OCDE, tal como aconteceu na literacia científica.

No “ranking” escalonado que resulta da avaliação, Portugal ficou em 24º lugar em leitura, em 26º em ciências e em 28.º em matemática.

E estes resultados até podem ter tido algum enviesamento. A OCDE regista que pelo menos 80% dos alunos selecionados deveriam ter feito o teste para cumprir os parâmetros estabelecidos mas, em Portugal, foram apenas 76% alunos. A muitos dos faltosos era comum serem alunos maus resultados escolares e retenções. Para a estrutura “não se pode excluir um impacto residual nas médias obtidas (menos de 10 pontos)” mas os resultados acabaram por ser ratificados uma vez que “a tendência e comparação com outros países podem não ser particularmente afetadas”.

Escolas desprotegidas, mais clivagens

Para Catarina Martins, foi “a desproteção das escolas” que “criou mais clivagens”. Questionada sobre os resultados do PISA à saída de uma visita à Escola Secundária D. Inês de Castro, em Alcobaça, a coordenadora do Bloco defendeu que “quando temos menos professores, temos menos funcionários, equipas mais pequenas nas escolas, significa que deixamos muito mais alunos entregues a eles próprios”. Assim, “a escola tem muito menos mecanismos para intervir e criar condições para a igualdade” e “não é capaz de dar acompanhamento àqueles que menos têm”.

Para resolver este problema, a dirigente do Bloco diz que “as escolas precisavam de ter gestão democrática e de meios” e que “precisamos de turmas com menos alunos, de equipas multidisciplinares nas escolas, de mais assistentes nas escolas, para que os professores não tenham um trabalho tão pesado e tão burocratizado, possam dedicar-se mais à aprendizagem e para que haja o apoio necessário”.

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