Está aqui

Equipamentos culturais: elefantes brancos ou sonhos por cumprir?

Todas as candidaturas têm obrigação de dizerem ao que vão nestas eleições autárquicas, que projeto têm para os seus equipamentos culturais e se os consideram bênçãos ou maldições. Artigo de Amarílis Felizes.
Embankment por Rachel Whiteread, Tate Modern Londres Abril 2006 - Foto wikimedia
Embankment por Rachel Whiteread, Tate Modern Londres Abril 2006 - Foto wikimedia

No antigo reino de Sião era costume membros da nobreza enviarem elefantes albinos como presente aos seus inimigos. Estes animais, por serem raros, eram considerados sagrados. Receber um era simultaneamente uma bênção e uma maldição: sagrado, o elefante não podia ser nem sacrificado nem abandonado, exigia a melhor ração e cuidados e não podia trabalhar; por isso os gastos com o animal eram tão elevados que os seus donos ficavam arruinados. 

O termo "elefante branco” começou a ser utilizado como metáfora para designar empreendimentos ruinosos pelo exército britânico, na altura da colonização inglesa do subcontinente asiático. Hoje, é parte do nosso léxico e do nosso quotidiano. Por cá, podemos ir assinalando os elefantes brancos no mapa à medida que vemos a sua marca na paisagem de norte a sul do país: as autoestradas onde não passam carros ou os estádios sem equipas nem adeptos são dois exemplos.

As grandes infraestruturas, desde as pirâmides do Egito, passando por fortificações, aquedutos, pontes suspensas, estádios, salas de espetáculos e aceleradores de partículas, são vistas como o registo das concretizações coletivas e tornam-se, pela sua dimensão ou sofisticação, num ex-libris de desenvolvimento, ambição e poder. Mas, por outro lado, a infraestrutura acaba também por imortalizar os mais catastróficos falhanços das sociedades como as infames cidades-fantasma da China, os centros comerciais desocupados nos EUA, os milhares de aeroportos abandonados que foram construídos nos anos 70 e 80 por toda a antiga URSS e as cidades olímpicas desertas por tantas cidades fora.

Como exemplo desta dicotomia, podemos observar no vizinho Estado Espanhol, os casos paradigmáticos do Guggenheim, de Guehry, sucesso turístico em Bilbao e da incompleta e vazia Ciudad da Cultura, desenhada por Eisenmann para Santiago de Compostela.

Afinal o que separa o ex-libris da ruína? O que protege a sofisticação do abandono?

No caso das infraestruturas construídas para permitir o acesso á cultura, tema com que se prende esta reflexão, será que estamos perante uma questão de escala e de gestão da ambição? Mas nesta perspetiva o elefante branco mantém-se na sala, porque o próprio paradigma da infraestrutura define as questões que levantamos.

As políticas para a Cultura em Portugal são, de facto, determinantemente marcadas por esta estreita relação entre ex-libris e ruína; desde logo pelo seu caráter singular e excecional - a recuperação de um monumento ou a construção de uma biblioteca nunca faz parte das práticas continuadas ou planeadas, mas é sempre motivo de mobilização excecional de recursos, com a heroica intervenção de um ministro que leva arquitetos a visitar o espaço, que fala com empresários para ficarem com o espaço, que se bate com a burocracia ministerial para conseguir “obra”, etc.

Até à viragem do milénio, as infraestruturas públicas para acesso às atividades artísticas e culturais estava longe de abrangerem o território. Resumiam-se a um punhado de salas de espetáculos e museus em Lisboa e Porto, ainda que o direito “à fruição e criação cultural” estivesse preto no branco na Constituição desde 1976. Face a esta realidade, e com o acesso aos fundos europeus e a vontade política necessária, a obra foi sendo feita. Necessárias salas de espetáculos, bibliotecas e outros equipamentos foram sendo construídos ou reconstruídos, de forma intensa e extensa; não sem tropeços e desvios, nem sem a influência de presidentes de câmara ávidos por cortar fitas vermelhas.

Sabemos que há quem defenda que estas construções foram demasiado ambiciosas e que foram feitos investimentos sem que se acautelasse e garantisse a capacidade financeira para que os espaços tivessem atividade; uma linha de raciocínio que hoje se traduz numa atitude de desistência que mantém os equipamentos em serviços mínimos, poupando o máximo em manutenção e pessoal, qual elefante albino à fome e incapaz de abençoar, mantido apenas porque pareceria mal abatê-lo.

Na margem oposta, há as pessoas que sabem que sem uma revolução no acesso à cultura não há futuro desejável e que para isso temos de nos valer das infraestruturas existentes. Pessoas que conhecem as circunstâncias porque passámos, com anos e anos de desinvestimento do Estado Central na cultura que contribuiu decisivamente para deixar estes equipamentos culturais em rutura financeira e sem rumo.

Mantendo-se as políticas de restrição orçamental para o setor, estas infraestruturas continuarão a esvaziar-se de atividade e tornar-se-ão em elefantes brancos, imagens de uma política cultural que ficou por cumprir, velhas recordações de um otimismo longínquo ou, como lhes chamou o artista Joseph Grima, o “coitus interruptus infraestrutural do projeto de estimação de um político, interrompido por uma crise financeira”.

Façamos por fim um exercício e pensemos num destes exemplos, como a biblioteca municipal, o museu da cidade ou o cineteatro, e façamos algumas perguntas. A primeira é se achamos importante que toda a gente (repito: toda a gente) tenha acesso à cultura – que possa valer-se do que existe e que tenha condições para procurar, inventar e construir novas expressões. E se estamos disponíveis para gastar dinheiro com isso. Depois há que perguntar para que é que foi construída (ou reconstruída) a infraestrutura em causa, e se as pessoas sabiam para o que era. Por fim indaguemos quão abertas estão hoje as suas portas, quem lá entra, o que lá se passa e o que gostaríamos que se passasse.

Estamos a poucos dias das eleições autárquicas, dias para que estas questões sejam colocadas em cima da mesa. Todas as candidaturas têm obrigação de dizerem ao que vão, que projeto têm para os seus equipamentos culturais e se os consideram bênçãos ou maldições. Não sem esquecer que dar uma missão a estes espaços passa por dar voz a toda a comunidade que os tem de passar ocupar, abandonado de vez o velho dirigismo presidencialista e emancipando a cultura do executivo municipal. Os serviços públicos de cultura precisam de missão e planeamento. É este o ponto de partida para tornar os teatros, as bibliotecas, o espaço público e as práticas culturais verdadeiros focos de emancipação democrática. 

Termos relacionados Cultura
(...)