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Entre o pensar e o agir

A concretização é a coragem de dar forma ao pensamento abstracto. A probabilidade da realização do sonho é determinada sempre pela capacidade de o querer moldar com as mãos em algo palpável. A revolução é a voz que não se detém no âmago do interior de cada um.

Numa altura em que o país mergulha num precipício cujo fundo ainda não se vislumbra, as palavras de revolta, de contestação, de consternação proliferam nas almas dos cidadãos. É unânime, é uníssono, algo não está bem, o desgoverno não larga as rédeas que nos conduzem, a tragédia é eminente.

As soluções na mente popular são diversas, multiplicam-se opiniões, com maior ou menor dependência da opinião televisiva. Uns apontam uma generalidade de classe política como culpados, outros apontam o dedo aos estrangeiros que vieram com a sua ajuda venenosa, outros ainda, enaltecem somente que a culpa é do desaparecimento do cancro salazarista. Opiniões, certas ou erradas, concordantes ou divergentes, mas com a mesma falha comum: são meras palavras, meros sentimentos que conduzem a uma preocupante inacção.

A crise que vivemos é de acção; a diferença entre a revolta sentido e as acções para mostrar esta revolta é de uma discrepância atroz. Reclama-se na voz popular que os políticos têm desbaratado a riqueza e dignidade nacionais, no entanto desde o 25 de Abril que os mesmos 3 partidos se revezam no poder. Votar em quem se maldiz é uma contradição que não merece explicação.

Critica-se violentamente o programa de recuperação financeira, quando este mesmo plano foi submetido a votação, inscrito nos planos de governo dos partidos concordantes com a troika (PS, PSD e CDS). Desdenhar aquilo que se comprou de forma informada (ou deveria ter sido) é um paradoxo difícil de entender.

Abominam-se as condições terceiro-mundistas que são impostas no mercado de trabalho, mas a greve é somente para que outras a façam, afinal “não vai fazer diferença nenhuma”, ou pior, a greve, grito de inconformismo, é aproveitado somente para mais uma folga corriqueira.

Partilhamos o princípio de oferecer a outra face, mas de Cristo vamos tendo somente as chagas que nos são infligidas por medidas injustas. De Cristo temos igualmente os impropérios que nos são dirigidos, toleramos que nos apelidem de piegas, que nos aconselhem a abandonar a nossa pátria, que ironizem com quem tem menos de 10.000€ para gerir a sua família mensalmente. A tudo isto respondemos com mais uma face, que trocamos por mais um pedaço da nossa dignidade, perdida, magoada, espezinhada.

Toleramos que nos roubem o direito à saúde, que a assistência em tempo útil aos problemas de cada um seja uma utopia. Toleramos que a justiça nos seja vedada, e que a razão esteja do lado que o capital determina. Toleramos que as crianças não tenham escola condigna, que lhes seja retirado o pão da manhã. Tudo em nome de uns tostões que devemos, de uma dívida que não é nossa.

Abraçamos a ideia estabelecida que ninguém nos deve ou dá nada. Servimos apenas para que nos sejam exigidos sacrifícios, servimos de potenciais cifrões, servimos de meros financiadores de fundos perdidos de um estado que esquece os seus cidadãos.

Dão-nos aqui e acolá algumas ideias de salvação, mas não passam de um empréstimo, passados períodos eleitoralistas, estas ideias, tantas vezes roubadas dos “pequenos” que as defendem diariamente, somem-se, como areia fina, por entre os nossos dedos.

O crivo à mudança continuamos a ser nós, cada mente que fecha em si os ideais de mudança, cada voz que se torna surda no momento de agir. O nosso silêncio é a nossa culpa, e o castigo é o declínio da nossa nação, da nossa dignidade enquanto cidadãos.

A indignação tem de ser escutada, caso contrário torna-se inútil, torna-se um tormento apenas para os descontentes. A distância é grande, mas urge ser ultrapassada em passadas largas, em passadas incansáveis que nos levem a gritar o que sentimos, a executar o que planeamos. Senão um dia a voz dos poucos que lutam será silenciada, deixando indefesa a pouca dignidade que nos vai restando.

 

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