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“Encontros sobre mobilidade em Benfica”: um dia para pensar nas cidades que queremos

No dia 17 de Setembro houve “Encontros sobre mobilidade em Benfica”. No Auditório Carlos Paredes, o dia foi dedicado ao debate sobre segurança pedonal, acessibilidades, transportes públicos e mobilidade suave. Texto de João David Almeida.
Fotos de Inês Rasquinho.

Quem luta contra a desigualdade sabe que dessa luta faz parte o combate à crise climática, a busca de alternativas à hegemonia do automóvel e a defesa intransigente do direito à cidade. Se em Lisboa demoram as mudanças necessárias, nesta freguesia está quase tudo por fazer. Por isso, o núcleo de Benfica do Bloco de Esquerda procurou juntar pessoas que se dedicam a estes temas, no activismo, na investigação ou na representação política.

Na primeira sessão, “Ruas acessíveis: mobilidade para toda a gente”, Sandra Nascimento (Associação para Promoção da Segurança Infantil), falou da necessidade de reduzir o trânsito nas imediações das escolas e dos benefícios das deslocações a pé no crescimento e na capacidade de aprendizagem das crianças. A associação que dirige reuniu pedidos das próprias crianças para transformação o espaço público. Uma coisa, todas elas queriam: mais espaço para brincar. Deolinda Martin (activista +60 e ex-vereadora na Câmara Municipal da Amadora), trouxe consigo a experiência da periferia da cidade, em particular os bairros mais isolados, onde a oferta limitada de transportes públicos cria constrangimentos em quem começa o seu trabalho muito cedo, ou termina tarde. Apanhar vários transportes para chegar ao centro da cidade ou ter algum tipo de vida cultural ou associativa e regressar a casa pode ser um desafio ainda maior para população mais idosa. Para Diogo Martins (Centro de Vida Independente, especialista em transportes acessiveis), é importante olhar para o problema das acessibilidades, não apenas quando alguém se queixa, e ouvir as pessoas a quem se pretende dar resposta, para evitar soluções desadequadas e mais dispendiosas a longo prazo. Beatriz Gomes Dias (vereadora CML) falou da necessidade de equilibrar os diferentes planos de acção e as necessidades de diferentes grupos de pessoas. Do trabalho desenvolvido na Câmara de Lisboa, partilhou as adversidades que tem encontrado, da parte do executivo de Carlos Moedas, a qualquer proposta que reforce as alternativas ao automóvel, e reclame mais espaço nas ruas para quem se desloca a pé e de bicicleta. A falta de sombras, espaços verdes, bebedouros, bancos públicos, é um problema que põe em causa a qualidade de vida na cidade e a saúde da população. “O bem viver também tem de ser um critério político”, afirmou.

No princípio da tarde, foi a vez de fazer a pergunta: “Carros outra vez? alternativas de mobilidade”. Rosa Félix (investigadora IST/U-Shift Lab) traçou um panorama da mobilidade em Lisboa, para assinalar o tipo de deslocações que podem e devem deixar de ser feitas de automóvel: começando pelas distâncias curtas, dentro da cidade. Para isso, os passes gratuitos só surtem efeito se forem articulados com outras medidas que desincentivem o uso do carro. Rui Zink (Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados) chamou a atenção para as questões de percepção que é preciso ultrapassar, para conseguir convencer mais pessoas de que combater o problema do excesso de automóveis na cidade é melhorar a vida de toda a gente. Ao contrário do que acontece com bicicletas e trotinetes, no caso do automóvel existe a tendência para tolerar um abuso do espaço por se considerar que ele é parte do património cultural da cidade. Isabel Pires (deputada municipal), denunciou as contradições entre o discurso e a prática do executivo Moedas nas questões da mobilidade. Defendeu a criação de medidas experimentais, que mostrem às pessoas as vantagens da sua aplicação a toda a cidade, e defendeu o desenho de uma rede de transportes que não seja pensada apenas a nível intra-concelhio.

No último encontro do dia, o tema foi “A mudança que queremos: alertar e agir”. Ricardo Ferreira (MUBi) disse ser necessário “activar a mobilidade”, revendo a prioridade dada a cada um dos meios de deslocação, e usando os transportes públicos como espinha dorsal de uma mobilidade urbana de acesso universal que diminua as desigualdades territoriais. Ricardo Moreira (Cidades Impossíveis) quis desenhar, em conjunto, uma cidade ideal. Da plateia surgiram ideias de espaço público de qualidade, equipamentos e serviços de proximidade e, acima de tudo, deslocação de pessoas. Não carros.

E no entanto, sentimos que o automóvel é ainda quem manda nas nossas ruas e bairros. Em Lisboa estamos muito longe dessa cidade ideal. Em Benfica estamos a anos-luz do bairro que queremos. Saímos do Auditório Carlos Paredes com vontade de repetir, com maior consciência do trabalho que falta fazer, com ainda maior pressa de transformar a nossa cidade, e mais vontade de combater a crise climática a partir das nossas ruas. E foi nas ruas que terminámos estes “Encontros sobre mobilidade em Benfica”, com uma bicicletada no bairro. Nela ficaram visíveis as dificuldades de uma grande parte da freguesia onde o tempo continua a passar mas as ciclovias ainda não.

 

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