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Em plena crise pandémica, Câmara de Loures volta a demolir habitação no Bairro da Torre

Nicolaiva perdeu o trabalho como empregada de limpeza por ter sido infetada com o vírus. Agora, ela e o marido ficaram na rua. Deputada municipal Rita Sarrico lamenta que, numa das freguesias mais afetadas pela covid-19, a autarquia de Loures, da CDU, volte “a preferir os bulldozers e a força a políticas de habitação eficazes para o concelho”.
Esta quinta-feira, a Câmara Municipal de Loures, liderada por Bernardino Soares, avançou com a demolição da barraca onde viviam Nicolaiva da Graça dos Santos Ramos e o marido Ivane. Foto da Associação Habita.

Conforme avança o jornal Público, na manhã desta quinta-feira, cerca das 9h, a Câmara Municipal de Loures, liderada por Bernardino Soares, avançou com a demolição da barraca onde viviam Nicolaiva da Graça dos Santos Ramos e o marido Ivane, ambos com 39 anos, ele são-tomense e ela com dupla nacionalidade.

Nicolaiva perdeu o trabalho como empregada de limpeza por ter sido infetada com o vírus. O marido também adoeceu, mas, após a recuperação, regressou ao trabalho como mecânico numa oficina. Neste momento, sem emprego e sem casa, Nicolaiva teme pelo futuro: “Eu também sou portuguesa. Eu não estou aqui ilegal. Vou morar onde?”

Como a vizinha do casal foi realojada há um mês, a autarquia optou pela demolição da barraca, mesmo sabendo que Nicolaiva e o marido ficariam sem o quarto onde moravam. “Fez um quartinho e como a vizinha do lado foi realojada, a câmara veio demolir. Teve de pôr as coisinhas dela na rua e partiram a casa. Ela está na rua com as coisas”, explicou Ricardina Cuthbert, presidente da associação de moradores do bairro. 

Em resposta ao jornal diário, a Câmara de Loures afirmou que o casal “não está referenciado” pelo município, “nem consta de nenhuma das atualizações realizadas pela autarquia na sequência de visitas regulares ao Bairro da Torre”. “O referido casal ocupou uma barraca devoluta, na qual habitava até há pouco tempo um agregado familiar que foi entretanto realojado pela Câmara Municipal”, avançou a autarquia comunista. “Sempre que há realojamentos, a autarquia tem como procedimento, como aconteceu aqui, proceder à demolição das construções”, apontou a Câmara de Loures, que referiu também que o casal está a ser acompanhado pelos serviços sociais do município, em articulação com a Segurança Social.

Tanto o casal como a presidente da associação de moradores garantem que Nicolaiva e Ivane já viviam ali há mais de dois anos.

"Não podemos continuar a permitir que demolições e despejos sejam efetuados impunemente"

"Esta manhã, nas ruas de Camarate, entre Lisboa e Loures, soprou o vento gelado do neoliberalismo estatal, um vento ignorante e desumano que não tem misericórdia e não conhece a história. Esta manhã o Bairro da Torre acordou ao som do bulldozer a querer demolir um pedaço dele, uma casa habitada, o refúgio de uma família", denuncia a Habita.

"Nem mesmo a crise de saúde que estamos a viver consegue abrir os olhos das instituições e do capital que governa. Não pensam na importância que viver numa casa decente tem para a saúde das pessoas, para a saúde pública", continua a associação, defendendo que "não podemos continuar a permitir que demolições e despejos sejam efetuados impunemente, desafiando a lei, a saúde e o direito a uma casa digna".

A Habita considera que "despejar pessoas sem alternativa num período de pandemia é muito grave" e que "partir placas de AMIANTO sem qualquer protecção às crianças que estavam em redor, moradores/as e trabalhadores municipais é criminoso".

A associação acusa a Câmara Municipal de Loures "de demolir casas sem sequer salvaguardar as pessoas do perigo mortal de amianto". "Há amianto a voar e estilhaçado por todo o lado no bairro", assinala.

Bloco quer alternativas dignas de habitação para o Bairro da Torre

A deputada municipal do Bloco em Loures, Rita Sarrico, lamenta, na sua página de Facebook, que, “em plena pandemia, numa das freguesias mais afetadas pela Covid-19”, a Câmara Municipal de Loures volte “a preferir os bulldozers e a força a políticas de habitação eficazes para o concelho e a alternativas que façam sentido para as pessoas do Bairro da Torre”.

“O vereador responsável pela habitação disse na Assembleia Municipal que a situação no bairro da torre estava "praticamente" resolvida. É assim que pretendem "resolver"? Deixando as pessoas em situação de sem-abrigo, com os seus pertences misturados entre escombros?”, questiona Rita Sarrico.

De acordo com a dirigente bloquista, “o executivo CDU em Loures continua a mostrar a diferença entre uma CDU na oposição e uma CDU no poder autárquico”.

“O governo suspendeu os despejos, com o voto a favor também do PCP. A Lei de Bases da Habitação impede este tipo de situações, lei essa que o PCP também votou a favor”, lembra.

Rita Sarrico frisa que “as pessoas do Bairro da Torre precisam de uma resposta adequada há já demasiado tempo”.

“O Bloco de Esquerda Loures submeteu um requerimento à Câmara Municipal de Loures a pedir esclarecimentos sobre a decisão que levou a esta ação de destruição de habitações sem justificação”, escreve, garantindo que, como desde há muito, o Bloco continuará “a batalhar, em conjunto com as populações, por alternativas dignas de habitação para o Bairro da Torre”.

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