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Elementos Marxistas para possíveis análises do capitalismo e suas crises

Neste resumo da sua intervenção na Conferência dos 200 anos de Marx, Mariana Mortágua destaca a perspetiva de classe e o carácter monetário do processo produtivo como elementos do pensamento marxista indispensáveis para analisar as crises do capitalismo.
Mariana Mortágua. Foto Paulete Matos

É impossível pensar o capitalismo e as suas crises sem passar por Marx e, obviamente, pelos três volumes do Capital. Há quem o faça procurando a verdadeira e inequívoca interpretação da letra de Marx e da sua teoria das crises -  não me parece um exercício muito útil. Há também quem procure elementos em Marx que contribuam para uma grelha de análise do capitalismo contemporâneo, que é necessariamente diferente do de há 200 anos. Hoje esses elementos estão transversalmente presentes na heterodoxia económica: nas correntes pós-Keynesianas, Minskianas, institucionalistas, neo-marxistas, e marxistas. Estas diferentes leituras do Capital dão-lhe atualidade, e completam-no, nomeadamente em aspetos que estavam inicialmente pouco desenvolvidos na obra de Marx, como o funcionamento do sistema financeiro ou a natureza endógena da moeda.

Há dois destes elementos que merecem destaque, nomeadamente no contexto da análise das crises económicas.

O primeiro é a perspetiva de classe que deriva da visão do processo de produção capitalista como um conjunto de relações sociais que formam a estrutura económica. Diferentes classes sociais desempenhas diferentes papeis nessa estrutura, têm diferentes interesses e objetivos consoante a posição que ocupam no processo produtivo. A visão neoclássica concebe um sistema económico constituído por agentes atómicos e indistintos entre si. Todos os agentes agem em liberdade e, logo, não pode haver lugar a relações de poder desiguais. Em Marx, a relação de forças entre classes influencia diretamente o funcionamento do sistema o seu resultado macroeconómico. A exploração e as desigualdades importam, como nos lembrou recentemente Piketti.

O segundo elemento da grelha Marxista é o carácter monetário do processo produtivo, e todas as suas implicações (nem sempre suficientemente desenvolvidas pelo marxismo mais ortodoxo). A maioria das abordagens clássicas, como de David Ricardo ou Say, concebem o processo de produção capitalista como um sistema de troca: trocam-se matérias primas por dinheiro com objetivo de produzir mercadorias finais. Uma teoria monetária da produção, como proposta por Marx, mas também por Keynes, distingue-se porque entende que o processo produtivo começa e acaba com a moeda. Antes de haver produção tem de haver dinheiro acumulado nas mãos da classe capitalista. É esse capital que dá lugar ao início do processo produtivo, cujo objetivo não é a produção de mercadorias mas sim a sua transformação em dinheiro de novo, ou seja, o objetivo é o lucro.

Esta diferença teórica não é um pequeno pormenor. Como já tinha sido avançado por Veblen, ainda que de forma menos sistematizada, a partir do momento em que o capitalista é movido por interesses pecuniários, a sua ação deixa de ter correspondência com o interesse geral e do próprio processo produtivo.

De uma forma ou de outra, as teorias marxistas (ou inspiradas em Marx) da crise procuram explicar de que forma o processo de acumulação capitalista, que passa pela obtenção do lucro, cria contradições que põem em causa o funcionamento do sistema económico. Interpretações mais recentes, como as da Monthly Review, procuram integrar o desenvolvimento do sistema financeiro na segunda metade do século XX nesta grelha geral de análise.

Sobre o/a autor(a)

Deputada. Dirigente do Bloco de Esquerda. Economista.
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