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Eleições na Macedónia do Norte: partidos albaneses sobem, esquerda entra no parlamento

A coligação Modjemo, formada em torno da SDSM (evolução da ex-Liga dos Comunistas), foi a mais votada, obtendo 35,9% dos votos e 46 lugares parlamentares. A coligação integrou, pela primeira vez, uma formação albanesa, o movimento BESA, conservador, mas pró-UE. Artigo de Jorge Martins.
Zoran Zaev líder da SDSM celebra a vitória nas eleições da Macedónia do Norte, 16 de julho de 2020 – Foto de Georgi Licovski/Epa/Lusa
Zoran Zaev líder da SDSM celebra a vitória nas eleições da Macedónia do Norte, 16 de julho de 2020 – Foto de Georgi Licovski/Epa/Lusa

O contexto eleitoral

As legislativas estavam previstas para novembro deste ano, mas foram antecipadas pelo primeiro-ministro, Zoran Zaev, líder da SDSM [União Social-Democrata da Macedónia], após o Conselho Europeu de outubro não ter marcado uma data para o início das negociações de adesão do país e da Albânia à UE, devido a um bloqueio do presidente francês, Emmanuel Macron.

Depois de se ter “atravessado” com os acordos de Prespa, que levaram à mudança do nome do país, em nome de uma mais rápida adesão à NATO e à UE, Zaev, cuja coligação governamental com o DUI-BDI e a AA-ASh dispunha de uma curta maioria parlamentar, optou por convocar eleições antecipadas para 12 de abril, uma data posterior à confirmação da adesão à NATO, em março, procurando capitalizar esse acontecimento.

Para obter a adesão do maior partido da oposição, o primeiro-ministro demitiu-se no início do ano e foi substituído pelo seu ministro da administração interna, Oliver Spasovski, que passou a liderar um governo de gestão.

Porém, a crise pandémica levou ao adiamento do ato eleitoral para 15 de julho.

Análise dos resultados eleitorais

O sistema partidário da Macedónia do Norte reflete a divisão étnica do país entre macedónios e albaneses.

No seio dos primeiros, há uma clara bipolarização entre a SDSM e o VMRO-DPMNE. Teoricamente, teríamos uma oposição entre o centro-esquerda e o centro-direita. Contudo, atualmente, a questão coloca-se entre o europeísmo e atlantismo do primeiro e o nacionalismo e russofilia do segundo, o que originou duas coligações aparentemente bastante heteróclitas do ponto de vista ideológico, mas que se revelam coerentes se entendermos esta última linha de fratura como essencial.

No campo dos segundos, as clivagens ideológicas são poucas, pois estamos em presença de partidos conservadores ou liberal-conservadores, mais ou menos pró-UE, sendo as diferenças alicerçadas em diferentes interesses de grupo no seio da comunidade. A maior formação desta, o DUI/BDI, tem funcionado como “king maker”, coligando-se com o vencedor das eleições.

Coligação Podemos! (SDSM+)

A coligação Podemos! (Modjemo!), formada em torno da SDSM e liderada por Zoran Zaev, foi a mais votada, obtendo 35,9% dos votos e 46 lugares parlamentares. Integrando, pela primeira vez, uma formação albanesa, o movimento BESA, conservador, mas pró-UE, até aí na oposição, perdeu votos face a 2016, quando a aliança liderada pelos social-democratas conseguiu 37,9% e 49 mandatos e aquela força política albanesa 5,0% e cinco lugares.

A SDSM foi fundada em 1991, por Branko Crvenkovski, resultando da transformação da Liga dos Comunistas da Macedónia num partido social-democrata, tendo sido a força política que pilotou o processo de independência do país. Governou entre 1991 e 1998 e entre 2002 e 2006, tendo como primeiro-ministro o seu fundador. Após várias derrotas eleitorais, regressou ao poder em 2016, sob a liderança de Zaev, através de uma “geringonça” com o DUI-BDI e a AA-Ash.

É abertamente pró-ocidental, sendo favorável à integração na NATO (já consumada) e na UE

É abertamente pró-ocidental, sendo favorável à integração na NATO (já consumada) e na UE.

Tem, em geral, uma postura mais tolerante face às minorias étnicas e aos estados vizinhos. Assim, foi responsável pela implementação dos acordos de Ohrid, que garantiu mais direitos para os albaneses, e também pela assinatura do tratado de amizade com a Bulgária e pelos acordos de Prespa, com a Grécia, que resultaram na mudança do nome do país.

Também tem uma posição menos fechada face ao acolhimento de refugiados e em relação às questões de costumes, embora, aí, também seja relativamente conservadora.

Durante a campanha eleitoral, Zaev defendeu esses acordos, que considera um passo importante para a integração europeia da Macedónia do Norte. Contudo, a integração do Movimento Besa (LB) na Podemos! gerou mal-estar entre os seus parceiros albaneses de governo, o DUI-BDI e a AA-ASh, que a consideraram ser uma forma oportunista de ganhar á custa da divisão do voto albanês.

Integraram a coligação 23 forças políticas, algumas delas representando as diferentes minorias étnicas do país

Integraram a coligação 23 forças políticas, algumas delas representando as diferentes minorias étnicas do país. Para além da SDSM (que elegeu 31 deputados) e do BESA (4), conseguiram representação parlamentar as seguintes formações: o Novo Partido Social-Democrata (NSDP) (2), o social-liberal Partido Liberal Democrático (LDP) (2), o conservador Partido Popular (VMRO-NP) (1), o verde-liberal Renovação Democrática da Macedónia (DOM) (1), a centrista União Democrática (DS) (1), o Partido Democrático Turco (TDP) (1), o Movimento dos Turcos na Macedónia (THP) (1) e o Partido Unido dos Pensionistas e Cidadãos da Macedónia (POPGM) (1). Entre os eleitos da coligação conta-se, ainda, um independente.

Nestas eleições, a Podemos! venceu em três das seis circunscrições (I, IV e V), tendo perdido tangencialmente na II. Obteve os seus melhores resultados nas que são constituídas, essencialmente, por eleitores de etnia eslava macedónia: a IV (46,8%), no Sueste, e a III (42,8%), no Nordeste. Teve um desempenho razoável naqueles onde a maioria do eleitorado é eslava macedónia, mas onde já existe uma percentagem significativa de albaneses: a V (36,7%), no Sudoeste, a I (34,2%), correspondente às zonas central e meridional de Skopje, mais uma área a sul da capital, e na II (31,2%), que engloba a zona setentrional da capital e uma área a norte daquela, onde habitam muitos albaneses e a maioria dos sérvios. Os piores registaram-se na VI (19,7%), no Noroeste, onde a maioria do eleitorado é de etnia albanesa.

O seu apoio foi, como habitualmente, maior nas áreas urbanas e entre a população eslava macedónia mais jovem, mais educada e mais próspera.

Coligação Renovar a Macedónia (VRMO-DPMNE+)

A coligação Renovar a Macedónia, formada em torno da VMRO-DPMNE e liderada por Hristijan Mickoski, ficou em segundo lugar, com 34,6% dos votos, que lhe valeram a eleição de 44 deputados, um recuo face a 2016, quando conseguira 38,1% dos sufrágios e 51 lugares.

A VMRO-DPMNE foi fundada em 1990, por Ljubčo Georgievski, a partir de um grupo de ativistas anticomunistas, que juntaram o nome e a sigla da antiga organização guerrilheira nacionalista aos do partido. Venceu as primeiras eleições multipartidárias realizadas na república, mas não conseguiu formar governo por recusar coligar-se com partidos albaneses.

Adotou uma linha mais moderada, democrata-cristã, pró-UE e pró-NATO e, após o seu triunfo nas legislativas de 1998, Georgievski tornou-se primeiro-ministro. Governando, surpreendentemente, em coligação com os nacionalistas albaneses do DPA-PDSh, desenvolveu uma política de aproximação à Bulgária.

Contudo, a insurreição albanesa de 2001 fê-lo perder as eleições do ano seguinte e Georgievski, acusado de ser pró-búlgaro (o que até é verdade), abandonou o partido, criando uma nova formação, a VMRO-NP, que se tornou numa habitual aliada do SDSM.

O novo líder, Nikola Gruevski, adotou uma linha de direita nacionalista e, com ele na chefia do governo, o partido regressou ao poder em 2006, de novo em coligação com o DPA-PDSh. A partir daí, iniciou uma política definida como “antiquização”, reivindicando a herança de Alexandre Magno, o que irritou de sobremaneira os gregos, mas também os búlgaros. Simultaneamente, desenvolveu uma aproximação à Sérvia. No plano interno, a sua governação caracterizou-se por um autoritarismo crescente e pelo aumento exponencial da corrupção, do nepotismo e do clientelismo a todos os níveis do Estado.

Com o apoio do DUI-BDI desde 2008, manteve-se no poder até 2015, quando foi afastado por uma revolta popular, liderada pela oposição social-democrata, que acusava Gruevski de fraude nas eleições do ano anterior e o responsabilizava pela corrupção endémica no governo e na sociedade.

Apesar de ter sido o mais votado nas eleições de 2016, não logrou formar governo, já que não conseguiu atrair nenhum partido albanês para seu parceiro. Em 2018, Gruevski foi condenado por corrupção, mas fugiu para a Hungria antes de ser preso, acabando por receber asilo político do seu amigo Orbán.

Na campanha eleitoral, desenvolveu uma campanha ferozmente nacionalista contra os acordos de Prespa e o tratado de amizade com a Bulgária, que considerou uma traição ao povo macedónio, afirmando denunciá-los caso chegasse ao poder. Afirma ser favorável à adesão à NATO e à UE, mas não a qualquer preço. Não espanta, assim, que o seu partido tenha recebido os apoios de Orbán e de Putin. Acusou, ainda, o SDSM e os partidos albaneses seus apoiantes de corrupção e compra de votos.

O VMRO-DPMNE é bastante conservador, apoiando, em geral, as posições da Igreja Ortodoxa. É também totalmente contrário à receção de refugiados e hostil à expansão dos direitos das minorias nacionais e étnicas, em especial da albanesa.

A coligação integrava 18 partidos, de várias tendências políticas, que iam da direita nacionalista à esquerda comunista, a par com partidos representantes de minorias. Para além da VMRO-DPMNE (que elegeu 36 deputados), acederam ao Parlamento as seguintes formações: o social-democrata de esquerda e nacionalista Partido Socialista da Macedónia (SPM) (2), a liberal Opção Cidadã para a Macedónia (GROM) (1), o social-democrata Partido Unido dos Democratas da Macedónia (PODEM) (1), o Partido Democrático dos Sérvios na Macedónia (DPSM) (1) e os Roma Unidos pela Macedónia (ROM) (1). Foram, ainda, eleitos dois independentes nas listas da coligação.

Neste ato eleitoral, a aliança Renovar a Macedónia venceu em duas das seis circunscrições: na II (tangencialmente, com apenas 38 votos de avanço sobre a Podemos!) e na III. Ainda mais que a coligação adversária, os seus melhores resultados surgem nas áreas habitadas, quase em exclusivo, por eleitores eslavos macedónios: a III (45,8%), no Nordeste, e a IV (45,1%), no Sueste. Nas V (35,7%), I (31,6%) e II (31,2%), onde aqueles ainda são claramente maioritários, teve um desempenho razoável, embora seja de realçar a derrota na I, que engloba a área central de Skopje face ao SDSM e aliados. Sem surpresa, o seu “calcanhar de Aquiles” é a circunscrição VI (12,7%), esmagadoramente habitada por eleitores de etnia albanesa.

Obteve maiores apoios nas zonas rurais e entre os eleitores mais idosos, menos escolarizados e menos prósperos de entre os eslavos macedónios.

União Democrática para a Integração (DUI-BDI)

O DUI-BDI é o maior partido representante da minoria albanesa e foi o grande vencedor deste ato eleitoral, onde obteve 11,5% dos votos, que lhe garantiram a eleição de 15 parlamentares, quando, em 2016, se quedara pelos 7,5% e 10 lugares, o seu pior resultado de sempre. Para além da subida percentual e da sua representação parlamentar, continua a ser o maior partido dos albaneses do país, apesar do desafio que representou a coligação AA-ASh/AAA, e ficou numa posição de “kingmaker”.

O partido foi fundado em 2002, por Ali Ahmeti, ainda hoje seu líder. Este foi um antigo dirigente do UÇK no Kosovo, onde estudou, e um dos responsáveis da insurreição de 2001. Envolvido no processo político, fundou o DUI-BDI como nova força política, tendente a unificar o voto da comunidade albanesa. A defesa dos interesses desta é o seu grande fito e, por isso, não se define ideologicamente, embora se assuma como abertamente pró-UE. A maioria dos analistas considera-o uma formação de centro-direita.

Colocado, frequentemente, tal como agora, na posição de “king maker”, Ahmeti fez, habilmente, valer essa posição e só esteve na oposição entre 2006 e 2008. Assim, de 2002 a 2006, integrou o executivo liderado por Branko Crevenkovski, da SDSM; de 2008 a 2016, os três de Nikola Gruevski, da VMRO-DPMNE e o de gestão, após a sua saída, e de 2016 a 2020, o de Zoran Zaev, da SDSM, sempre em troca de contrapartidas para a minoria albanesa.

Nestas eleições, venceu na circunscrição VI (30,4%), no Noroeste, de maioria albanesa, que foi, como seria de esperar, o seu melhor resultado no país. Seguiram-se a II (14,6%), a norte de Skopje; a V (14,1%), no Sudoeste, e a I (12,2%), no centro e na área a sul da capital, zonas onde existe, ainda, um número apreciável de eleitores albaneses. Nas outras duas, quase só habitadas por eslavos macedónios, as suas votações são residuais.

Tem os seus maiores apoios nas áreas rurais e entre os albaneses mais idosos e menos escolarizados.

Aliança para os Albaneses - Alternativa (AA-ASh/AAA)

A coligação entre os partidos de centro-direita Aliança para os Albaneses (AA-ASh) e Alternativa – Autêntica Autonomia Autóctone (AAA) conseguiu um excelente resultado, ao obter 9,0% dos votos e eleger 12 parlamentares. Em 2016, o primeiro ficara-se pelos 3,0% e apenas três deputados. Apesar dessa grande subida, não conseguiu destronar o DUI-BDI do lugar de maior partido albanês do país, tendo ficado atrás daquele em todas as circunscrições eleitorais. Além disso, não lhe será possível integrar um governo sem que nele esteja presente outra força política do seu grupo étnico. Porém, os resultados deste ato eleitoral abriram-lhe boas perspetivas para, no futuro, disputar a liderança da comunidade albanesa.

A AA-ASh foi fundada em 2015 por Ziadin Sela, antigo presidente do município de Struga e ex-líder do DPA-PDSh. Opôs-se, então, ao governo da VMRO-DPMNE, liderado por Nikola Gruevski, acusando-o de autoritarismo, corrupção, nepotismo e clientelismo. Em 2016, integrou o gabinete de Zoran Zaev, com a SDSM e o DUI-BDI, partidos que agora acusa dos mesmos vícios.

A AAA surgiu em 2019, de uma cisão no Movimento Besa, liderada por Afrim Gashi, a partir de um grupo de aderentes opositor à aliança com a SDSM.

A estrutura de voto desta coligação não é muito diferente da do DUI-BDI, ou seja, obtém os melhores resultados nas circunscrições onde existe uma maior percentagem de albaneses e os piores naquelas onde aqueles sejam quase inexistentes. Logo, o seu melhor desempenho registou-se, como seria de esperar, na VI (28,0%). Seguiram-se a II (13,6%), a I (9,0%) e a V (6,9%). Aqui, há uma diferença face ao DUI-DDI, com a sua votação na I, que engloba grande parte da zona urbana de Skopje, a superar a da V, no Sudoeste, mais rural, o que mostra que a coligação tem maior implantação nos meios urbanos e entre os mais jovens e escolarizados da comunidade. Nas outras duas, quase só habitadas por eslavos macedónios, teve muitíssimo poucos votos.

Esquerda (Levica)

O partido da Esquerda (Levica) foi a grande sensação do ato eleitoral, ao obter 4,1% dos sufrágios, que lhe valeram a conquista de dois lugares no Parlamento

O partido da Esquerda (Levica) foi a grande sensação do ato eleitoral, ao obter 4,1% dos sufrágios, que lhe valeram a conquista de dois lugares no Parlamento. Em 2016, ficara-se por 1,1% e nenhum representante. Depois da Eslovénia e da Croácia, foi a vez de a Macedónia do Norte ter uma força de esquerda com representação parlamentar.

Fundada em 2015, a partir da fusão entre o novo Partido Comunista da Macedónia (1992) e os movimentos sociais Solidariedade e Lenka, a Levica é uma formação da esquerda nacionalista. O seu fundador e líder é o relativamente jovem Dimitar Apasiev, professor universitário e jurista, que esteve à frente do Lenka, até à formação do novo partido.

Este apresentou-se com um programa político de esquerda, oposto ao neoliberalismo, de onde se destacam a saúde e educação gratuitas, a defesa dos direitos dos trabalhadores e a promoção da justiça social.

Nos costumes, assume posições progressistas, em abono do Estaddo laico, rejeitando o conservadorismo, o clericalismo e o patriarcado. Afirma-se, assim, defensor dos direitos LGBTQI, um tema ainda tabu no país, e da igualdade de género.

A Levica revela, igualmente, preocupações ecológicas, classificando a situação ambiental do país como catastrófica.

Contudo, noutras questões, as suas posições são controversas, mesmo do ponto de vista da esquerda. O partido opõe-se (e bem) aos nacionalismos, defendendo a harmonia interétnica, através de uma sociedade assente na cidadania e não no etnicismo. E, em nome desse princípio, rejeita a extensão do uso da língua albanesa, que considera promover o nacionalismo étnico albanês. O problema é que, se os direitos culturais das minorias viessem a regredir, teríamos novamente a supremacia da etnia maioritária sobre as minoritárias e um novo conflito entre os dois principais grupos étnicos do país. Estamos, no fundo, em presença de um caso em que um bom princípio teórico esbarra com a realidade no terreno.

Outra questão é a sua rejeição dos acordos de Prespa, que considera uma imposição imperialista, com vista a forçar a adesão do país à NATO, que promete (e bem) reverter. Considera que a mudança de nome, sob os auspícios da ONU, violou a soberania do país e é, por isso, inconstitucional, pelo que não a aceita. Apesar de apoiar a adesão à UE, afirma que esta não pode ser feita à custa do nome e da identidade do Estado, posição onde coincide com a direita nacionalista. A verdade é que, embora Zaev e o seu governo tenham “vendido” os acordos como porta de entrada na NATO e na UE, o certo é que eles resolvem um diferendo com outro estado, que apenas prejudicava a inserção internacional do país. Além de que eles são compatíveis com uma eventual retirada da NATO e uma política externa baseada na neutralidade, desmilitarização e relações de boa vizinhança.

O crescimento eleitoral da Esquerda deve-se ao descontentamento crescente da população com as políticas da VMRO-DPMNE, da SDSM e dos seus parceiros albaneses (em especial o DUI-BDI), que, não só não resolvem os graves problemas económicos, sociais e ecológicos do país, como se enredam em esquemas de corrupção, nepotismo, redes clientelares e variados tráficos, em benefício das elites eslavas macedónias e albanesas. Acresce, ainda, a ausência de perspetiva social do governo de Zaev, que levou alguns eleitores da SDSM a abandoná-la e a votar numa alternativa mais radical.

Neste ato eleitoral, o melhor resultado do partido foi obtido na circunscrição I (7,5%), a mais urbana, que contém grande parte de Skopje, e onde obteve o seu primeiro eleito. Seguiram-se aquelas onde é maior o número de eslavos macedónios: a III (4,4%), onde elegeu o seu segundo deputado, e a IV (4,1%). Na II (3,8%), que ainda abrange a zona norte da capital, mas já existe um grande número de eleitores albaneses, tal como na V (3,1%), os resultados foram um pouco mais fracos. Porém, o seu pior desempenho ocorreu na VI (0,8%), onde aqueles constituem a esmagadora maioria do eleitorado.

Partido Democrático Albanês (DPA-PDSh)

O Partido Democrático Albanês foi a única das forças políticas representativas daquele grupo étnico a descer os resultados da última eleição, que também já não tinham sido famosos. Com 1,5% dos votos, apenas logrou eleger um deputado, quando, em 2016, com 2,6%, obtivera dois mandatos.

O DPA-PDSk surgiu em 1997, em resultado da fusão entre o moderado Partido da Prosperidade Democrática dos Albaneses, então o principal partido albanês do país, e o mais radical Partido Popular Democrático. Liderado por Mendhu Thaçi, é um partido nacional-conservador, sendo, atualmente, a mais nacionalista das formações albanesas da Macedónia do Norte. Entre 1998 e 2002 e de 2006 a 2008, participou nos governos da VMRO-DPMNE, liderados, respetivamente, por Ljubčo Georgievski e Nikola Gruevski.

Como seria de esperar, o seu melhor resultado, que lhe valeu o seu único eleito, ocorreu na circunscrição VI (7,4%). Na I e na II ainda conseguiu 1,2%, mas, nas III e V, as suas votações foram, sem qualquer surpresa, residuais, não se tendo apresentado na IV.

A participação eleitoral

Tal como sucedera em recentes eleições recentemente realizadas noutros países da região, a afluência às urnas foi fraca, quedando-se nos 51,3%, quando, em 2016, atingira os 66,8%.

Se é certo que a pandemia explica a ausência de muitos eleitores, a verdade é que a desilusão com os sucessivos governos, incapazes de melhorar a situação económica e social do país, a par com a perceção de que não existem verdadeiras alternativas, mas apenas uma alternância rotativista, leva segmentos significativos do eleitorado a optar pela abstenção.

Esta fraca participação eleitoral terá atingido mais os eleitores macedónios eslavos que os albaneses, o que ajudará a explicar, em parte, as quebras eleitorais das coligações lideradas pelos dois maiores partidos e o crescimento eleitoral das forças políticas que representam a comunidade albanesa.

O que nos disse o ato eleitoral?

Estas eleições, não apenas traduziram a já habitual divisão étnica entre eslavos macedónios e albaneses, mas também se saldaram pelo aprofundar das divisões no seio de cada uma dessas comunidades.

No que se refere às divisões entre elas, a vantagem foi para os albaneses, que viram a sua representação no Parlamento aumentar de forma significativa: de 20 para 32 deputados (onde se incluem os 4 do Movimento Besa eleitos nas listas da coligação Podemos!). Ou seja, pela primeira vez, a representação parlamentar dos albaneses é percentualmente semelhante à da sua percentagem no conjunto dos cidadãos do país. Para além do aumento da abstenção, que desfavoreceu os eslavos macedónios, e de estes cresceram menos que os albaneses, houve transferências de voto de muitos destes para formações de natureza étnica, em especial a AA-ASh/AAA, mas também para o DUI-BDI. A própria competição pela hegemonia no seio dos albaneses terá contribuído, eventualmente, para isso.

No que se refere às divisões intraétnicas, a divisão no seio dos eslavos macedónios, entre SDSM e VMRO-DPMNE, é, mais do que entre direita e esquerda, entre europeísmo/atlantismo e nacionalismo/russofilia e tem, igualmente, raízes no passado: os primeiros tendem a ser mais pró-búlgaros, os segundos serão mais pró-sérvios. Daí a presença de formações de direita pró-UE na coligação formada pelos social-democratas e de formações da esquerda nacionalista e comunista na criada em torno da direita nacionalista. Geograficamente, e sem surpresa, os primeiros predominam nos meios urbanos, os segundos nas zonas rurais.

A Levica, que obteve um excelente resultado, tenta romper com as várias lógicas bipolares existentes, mas isso não é tarefa fácil neste contexto e não o consegue inteiramente, acabando por aparecer próxima do campo nacionalista. Apesar de tudo, se prosseguir com o seu crescimento eleitoral e calibrar algumas das suas posições, pode constituir, no futuro, uma verdadeira alternativa às duas forças atualmente dominantes.

Entre os albaneses, a habitual supremacia do DUI-BDI foi, claramente, posta em causa pela coligação AA-ASh/AAA. Se é certo que o primeiro subiu, a verdade é que a segunda cresceu bastante mais, em especial entre o eleitorado urbano, e aspira a tornar-se o maior partido albanês no futuro próximo, o que tenderá a aumentar as tensões no seio da comunidade. O DPA-PDSh continua a sua decadência, que parece inexorável, enquanto o LB não parece ter ganho muito com a sua integração na coligação da SDSM, embora, com isso, tenha mostrado que é possível quebrar a lógica puramente étnica que domina a vida política macedónia desde a independência.

Que governo?

Uma lei não escrita da política macedónia desde a independência é que é obrigatória a presença, na maioria governamental, de uma força política que represente a minoria albanesa. Daí que fique de fora a hipótese de uma grande coligação entre os dois maiores partidos do país, cujo efeito seria, certamente, uma revolta generalizada dos albaneses.

Assim, face aos resultados eleitorais, o DUI-BDI tem na mão as “chaves” do poder, ficando, mais ainda, na habitual posição de “king maker”. Talvez devido à concorrência no seio do seu grupo étnico, “subiu a parada” durante a campanha eleitoral, exigindo que o próximo PM seja de etnia albanesa, algo que tanto a SDSM e a VMRO-DPMNE rejeitaram de imediato. Aliás, se a eleição de um presidente do Parlamento dessa origem étnica originou motins por parte da direita nacionalista há três anos atrás, a nomeação de um albanês para a chefia do governo, provavelmente, “incendiaria” o país.

A hipótese mais lógica é a renovação da coligação entre a SDSM e o DUI-BDI, que garante, desde logo, os 61 votos necessários para a investidura parlamentar de Zaev. Ambos apoiam o acordo de Prespa, o tratado de amizade com a Bulgária e a integração na UE, além de que o primeiro é mais sensível à questão dos direitos da minoria albanesa. Contudo, os desentendimentos ocorridos devido à integração do movimento Besa na coligação Podemos! poderão constituir um obstáculo.

Se não houver acordo, restaria a Zaev e à SDSM constituir uma maioria com as restantes forças políticas albanesas e com a Esquerda. Porém, se, com as primeiras, um acordo seria possível, mesmo que não fosse fácil, dados os ataques que a AA-ASh, que também integrava a anterior coligação governamental, desferiu aqueles durante a campanha, será praticamente impossível pactuar com a Levica, cujo líder já afirmou que não apoiará um governo que não denuncie os acordos de Prespa. A não ser que esta deixe cair, para já, essa reivindicação, e vote favoravelmente esse executivo em troca de um conjunto de medidas de cariz social.

Caso o DUI-BDI se entendesse com a VMRO-DPMNE, Mickoski poderia formar governo se conseguisse atrair a Levica à coligação, de forma a obter os 61 votos necessários (seriam 62 se agregasse o DPA/PDSh, seu habitual aliado no campo albanês). A base para esse acordo seria a rejeição dos acordos de Prespa e do tratado de amizade com a Bulgária, mas, para além disso, pouco mais haveria em comum. Aliás, depois de acusar, sistematicamente, o DUI-BDI de ser um partido de criminosos, seria difícil à Levica sustentar uma aliança governativa com ele. E, sendo aquele claramente pró-UE, não parece que aquele aceitasse ir para um executivo que inviabilizaria, na prática, a integração do país na União Europeia.

Tudo indica, assim, que SDSM e DUI-BDI estão condenados a entender-se, não sendo de estranhar que haja pressões da UE nesse sentido, eventualmente com promessas vagas de acelerar o processo de adesão da Macedónia do Norte e da vizinha Albânia.

Caso não haja acordo, poderá haver novas eleições a curto prazo. Mas essa solução não deverá interessar ao DUI-BDI, que dificilmente obteria novos ganhos e poderia ver a sua hegemonia no seio dos albaneses ameaçada, o que poderá levá-lo a aceitar renovar a coligação com os social-democratas.

Mas sabemos que a política dá muitas voltas e, nestas paragens, a volatilidade é ainda maior, com o inesperado a espreitar a cada esquina.

Artigo de Jorge Martins

Sobre o/a autor(a)

Professor. Mestre em Geografia Humana e pós-graduado em Ciência Política. Membro da coordenadora concelhia de Coimbra do Bloco de Esquerda
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