Está aqui

As eleições europeias de 2019: uma nova previsão tendencial

Dez meses depois da primeira previsão tendencial e a pouco mais de três meses do ato eleitoral, abalanço-me a uma atualização. Desde então, há tendências que se acentuam ou se mantém. Por Jorge Martins
Eleições europeias de 2019
Eleições europeias de 2019

Introdução

Dez meses depois da primeira previsão tendencial, que pode ser vista aqui, e a pouco mais de três meses do ato eleitoral, abalanço-me a uma atualização. Desde então, há tendências que se acentuam, como a derrocada do grupo socialista, ou se mantém, como a quebra do democrata-cristão/conservador PPE, a par com o crescimento de forças da direita reacionária e populista ou, mesmo, da extrema-direita. A esquerda cresce um pouco, mas a sua subida afigura-se, agora, menor que então. Em contrapartida, os verdes, na altura em situação difícil, recuperaram e poderão aumentar, igualmente, a sua representação. Ao centro, os liberais são a única força a crescer, em especial devido à sua aliança com a formação de Macron, mas o aumento será menor que o que então se previa. O presidente francês, agora em “maré baixa”, desistiu, para já, da ideia de criar um novo agrupamento político no Parlamento Europeu, pelo que se aliou ao grupo liberal, embora mantenha a ambição de o alargar a outras forças políticas pró-UE, tanto de centro-direita como de centro-esquerda.

Como referi então, volto a afirmar que estamos em presença de um exercício que, por razões várias, tem relativamente pouca fiabilidade. Apesar de a distância temporal que nos separa da eleição do próximo Parlamento Europeu (PE) ser muito menor, há ainda muito por decidir em vários estados, em especial no que respeita a eventuais coligações ou, até, ao aparecimento, até lá, de novas forças políticas.

Depois, porque, à exceção de França, as sondagens que existem para as “europeias” são poucas e, em geral, datadas, pelo que, mais uma vez, optei por me socorrer das sondagens para eleições legislativas, que têm caraterísticas muito diferentes. Por exemplo, quem previu o fenómeno Marinho Pinto em Portugal, há cinco anos? É certo que voltei a introduzir alguns fatores de correção, mas estes são bastante subjetivos.

Por outro lado, embora conheça os principais aspetos da situação política de cada país, haverá, em todos eles, algumas nuances que, naturalmente, desconhecerei.

Outra variável que é impossível controlar nesta altura é saber se os partidos que já se encontram representados no PE se vão manter nos respetivos grupos políticos ou mudar e em que grupos se integrarão os que nele obtenham mandatos pela primeira vez ou regressem a Bruxelas e Estrasburgo, após uma ou várias legislaturas de ausência. Assumi a opção que me parece mais lógica, atendendo ao respetivo ideário e práticas, mas algumas escolhas poderão ser diferentes.

Por fim, assumo que não haverá deputados britânicos e que a proposta de redistribuição dos lugares pelos estados membros, na sequência do Brexit, que implica a redução do número de membros do PE (MEP), será para valer, o que não é líquido caso o Reino Unido proponha a extensão da aplicação do art.º 50 do Tratado de Lisboa para lá da data prevista para o ato eleitoral.

Por isso, e mais uma vez alerto, não estamos em presença de uma previsão com números fiáveis ou aproximados aos resultados, mas apenas das tendências que marcarão as próximas eleições europeias.

Metodologia

Como referi acima, apenas em França existem sondagens atualizadas para o referido sufrágio.

Apenas em França existem sondagens atualizadas para as eleições europeias de 2019

Por isso, na maioria dos países membros da UE, utilizei os inquéritos de opinião referentes às próximas legislativas em cada um deles, realizadas no mês de janeiro. Em alguns, tal não foi possível. Assim, no Chipre, a única pesquisa data de outubro, enquanto que em Malta, na Letónia e na Bulgária também havia apenas uma e realizada em dezembro. Já no Luxemburgo, tive de utilizar os resultados das legislativas de outubro, pois não se efetuou qualquer inquérito desde então.

Em todos os casos em que existiam sondagens, nunca utilizei, mais do que uma vez, as da mesma empresa. Assim, considerei apenas a última realizada por cada uma das entidades autoras dos inquéritos. Quando apenas havia dados provenientes de dois institutos, calculava a média das últimas pesquisas realizadas por ambos. Foi o que fiz em Portugal, onde apenas a Aximage e a Eurosondagem as realizam regularmente. Apliquei o mesmo critério para Holanda, Irlanda, Dinamarca, Rep. Checa e Roménia. Quando tinha três ou mais, calculava, igualmente, a mediana, que tem a vantagem de não ser influenciada pelos valores mais altos ou mais baixos.

A partir dos números assim calculados, realizei uma estimativa de resultados por partido, obviamente eivada de grande subjetividade. Os critérios que utilizei são os mesmos do último estudo e partiram dos princípios que então formulei e que passo a repetir:

1) As eleições europeias não se destinam a escolher um governo e, na maioria dos países, existe um único círculo nacional, pelo que a maioria dos eleitores tende muito menos para o chamado “voto útil”;

2) Nas eleições europeias, a abstenção é bastante elevada, o que tende a prejudicar os partidos “mainstream”;

3) Os partidos mais afastados do centro do espectro partidário e/ou que se apresentam como antissistema, bem como os de cariz regionalista/independentista/étnico, tendem a ter melhores resultados nas eleições europeias, o que decorre dos dois fatores anteriores;

4) A motivação da maioria dos eleitores relaciona-se com questões nacionais e não europeias, pelo que aqueles tendem, em geral, a penalizar os governos e os partidos que os integram, exceto se o executivo estiver em “estado de graça”.

Então, a partir da média e/ou da mediana, estimei uma percentagem de aumento dos votos das formações que são mais beneficiadas neste tipo de eleições e de decréscimo das pertencentes ao chamado “centrão”. Ponderei essas percentagens em função da (im)popularidade do respetivo governo, algo que as próprias sondagens também expressam.

A partir daí, calculei a distribuição dos lugares. Sendo o sistema de representação proporcional obrigatório em todos os estados membros, as fórmulas eleitorais aplicáveis podem variar, embora o método de Hondt seja o mais frequente nas europeias. Na Letónia, é aplicado o método de Saint-Laguë e na Suécia uma versão modificada do mesmo. Na Alemanha, Bulgária e Chipre é utilizado o quociente eleitoral simples (quota de Hare-Niemeyer) com o maior resto para os lugares remanescentes. Em França e na Holanda, também é usada aquela quota, mas os mandatos que restam são atribuídos através da média mais alta. Na Grécia, utiliza-se a quota Droop (igual à divisão dos votos válidos pelo número de lugares mais um, acrescida de uma unidade) e na Eslováquia, o método de Hagenbach-Bischoff, que é muito semelhante. Por fim, Malta e a Irlanda utilizam o voto único transferível, tal como sucede nas respetivas legislativas. Há, ainda, a considerar a eventual existência de cláusulas-barreiras: 5% em França, Letónia, Lituânia, Polónia, República Checa, Eslováquia, Hungria, Croácia, Roménia e Bélgica (nesta última, a nível das comunidades), 4% na Itália, Áustria e Suécia, 3,45% na Holanda (100/29) e 3% na Grécia.

Um problema adicional foi o facto de a Bélgica e a Irlanda não utilizarem um único círculo nacional, acrescido, no caso da última, pelo sistema do VUT, que possui especificidades que tornam muito difícil prever os seus resultados. Em Itália, existem, igualmente, círculos regionais, mas a alocação dos mandatos é efetuada a nível nacional.

No caso belga, não existem sondagens nacionais, mas apenas ao nível das três regiões (Flandres, Valónia e Bruxelas), pois, nas legislativas federais, é essa a escala territorial de referência. Porém, nas europeias, o voto é repartido segundo as três comunidades (flamenga, francófona e alemã). Logo, admiti que a esmagadora maioria da população da Flandres vota em partidos flamengos (exceto os valões que vivem na periferia bruxelense) e a da Valónia em partidos francófonos (excetuando a pequena comunidade alemã), o que, não sendo totalmente certo, é quase. Restou-me calcular a proporção das duas principais comunidades em Bruxelas e as intenções de voto nas respetivas sondagens (cerca de 5/6 de francófonos e 1/6 de flamengos), determinar os valores percentuais de cada um dos partidos na capital e juntá-los aos de cada uma das outras regiões, de acordo com os respetivos pesos percentuais. Em Bruxelas, ainda tive de calcular, de forma algo aleatória, o peso do partido de esquerda PTB-PVDA, o único que é nacional, entre valões e flamengos. Para a comunidade alemã, não há sondagens disponíveis, pelo que utilizei os resultados das últimas regionais.

No caso irlandês, o problema é ainda mais complicado, dada a utilização do VUT, em que, em cada circunscrição, os votos não são dados diretamente aos partidos, mas aos candidatos que estes apresentam ou a independentes. Os eleitores votam em todos eles, ordenando-os por preferência. Na contagem, divide-se o número de votos válidos pelo número de deputados a eleger no círculo (entre 3 e 5) mais uma unidade, sendo o resultado dessa divisão o valor da quota eleitoral. Aqueles que a ultrapassam são eleitos e os respetivos excedentes distribuídos pelos restantes, de acordo com as 2.as preferências. Se nenhum for eleito, o último (ou, na contagem inicial, os últimos que não atingirem um dado valor) é (ou são) eliminado(s) e os seus votos distribuídos pelos outros concorrentes. E assim sucessivamente, até se atingir o número de eleitos previsto para o círculo. Logo, apenas é possível, nos inquéritos de opinião, estimar a 1ª preferência dos eleitores e, a partir daí, fazer uma ideia aproximada das transferências de voto nas contagens seguintes. Ao contrário do que pensava e postulei no estudo anterior, os três círculos eleitorais de 2014 mantém-se, com uma pequena alteração territorial, apesar do aumento previsto do número de lugares atribuídos à Irlanda (de 11 para 13). Dispondo, apenas, de sondagens nacionais, fiz as previsões regionais com base nos resultados das duas europeias anteriores. Tudo fica, pois, muito aleatório, até porque, aqui, o peso dos candidatos independentes é maior que noutros países, o que torna os resultados ainda mais contingentes. Admiti que os atuais independentes iriam concorrer nos mesmos círculos e estimei as transferências de voto, mas a fiabilidade dos cálculos é reduzida.

Apesar de também utilizar o VUT, em Malta as contas são bem mais simples, pois o sistema é acentuadamente bipartidário entre conservadores (PN) e trabalhistas (PL), que atraem mais de 90% dos votos, sendo os restantes partidos muito marginais.

Na Alemanha, onde são eleitos 96 eurodeputados e a cláusula-barreira foi abolida por determinação do Tribunal Constitucional, 0,6% bastam para uma força política obter um lugar no PE. Não havendo sondagens sobre os pequenos partidos, estimei os seus eventuais resultados, a partir do seu desempenho nas últimas legislativas, com as correções subjetivas aplicadas à generalidade das forças políticas nos diferentes países, de acordo com os princípios acima formulados.

Em alguns estados, em especial no Leste, as sondagens apresentam os valores percentuais dos indecisos e, até, dos que não manifestam intenção de votar em conjunto com as dos partidos. Nesses casos, distribuí a percentagem de indecisos e/ou de abstencionistas declarados pelas diferentes formações políticas, proporcionalmente às respetivas intenções de voto.

Em vários países, onde, em 2014, houve coligações entre várias forças políticas, estimei os resultados presumindo que a maioria delas seria renovada. Em certos casos que conheço, como Espanha, já se sabe que o PNV renovará a coligação com o PDeCat, a que se soma uma pequena formação da direita nacionalista galega, ao contrário da CC, que integrará uma coligação entre autonomistas e ecologistas. Como esta ainda não tem nome, dei-lhe a sigla AE (Autonomista Ecologista). À esquerda, manter-se-á a aliança entre as forças da esquerda independentista (ERC, EH Bildu e BNG, entre outras).

Na repartição dos partidos pelos grupos políticos do PE considerei a hipótese mais lógica, embora, às vezes, se verifiquem algumas surpresas. No caso português, integrei a Aliança (A), de Santana Lopes, no PPE, mas também é possível a sua adesão ao grupo liberal (ALDE).

Em Espanha, o partido da extrema-direita VOX, deverá aderir ao ENF, mas poderá, eventualmente, ficar no nacional-conservador ECR.

Ao contrário da possibilidade que coloquei o ano passado, a AfD alemã não deverá integrar o ENF, juntamente com o RN francês, de Marine Le Pen, mantendo-se, antes, no EFDD. No primeiro, o representante alemão será o pequeno Blau Partei, formado por dissidentes da AfD. Também a eslovena LMS irá aderir à ALDE e não ao grupo socialista (S&D), como pensava então.

Ao invés, a hipótese que coloquei de passagem dos SD, da extrema-direita sueca, do EFDD para o ECR, para junto dos seus congéneres dinamarquês e finlandês, já é realidade. O mesmo deverá acontecer com o lituano LCP, que, embora se afirme de centro, deverá integrar esse grupo eurocético, dada a sua ideologia antiglobalista. Será, igualmente, aqui que deverão ficar os estonianos do EKRE e o novo partido nacionalista grego EL. Entretanto, há a possibilidade de o húngaro Jobbik vir a integrar o ECR, após ter abandonado as suas visões da extrema-direita mais radical e antissemita. Para já, tem bons contactos com alguns partidos a ele pertencentes, em especial nos países bálticos.

Algumas dúvidas na colocação do letão LKV-LV e do K15 polaco, embora o seu caráter antissistema me leve a pensar que deverão ir para o EFDD, o mesmo sucedendo com o checo SPD e o eslovaco Sme Rodina, ambos anti-imigração, indo o SNS para o ENF. Contudo, neste último país, tal não é, ainda, um dado adquirido, podendo os dois fazer a opção contrária ou irem para o mesmo grupo.

Por sua vez, o Most croata aparece na ALDE e não no PPE, embora seja um partido liberal-conservador, dadas as suas más relações com o HDZ, mas não estranharíamos que aderisse aos “populares”. Ainda na Croácia, tudo indica que o ZZ ficará no EFDD, embora, por paradoxal que pareça, pudesse vir a integrar o grupo da esquerda (GUE/NGL), já que partilha muitas das posições desta, embora se afirme antissistema e “nem de direita nem de esquerda”.

Por outro lado, tudo indica que os animalistas holandeses do PvdD e alemães do Tierschutz se mantenham no GUE/NGL, embora haja a hipótese de se mudarem para o grupo ecologista (G/EFA), em especial o segundo.

Em contrapartida, é possível que o DLF francês deixe o EFDD e passe para o ECR, embora ainda não haja, por enquanto, nada de concreto nesse sentido. Há, ainda, alguma possibilidade de o SYRIZA se transferir para o S&D, tal como a saída do Fidesz de Orbán do PPE e a sua passagem para o ECR, embora tais hipóteses pareçam, agora, mais longínquas.

Embora Macron tenha optado, para já, por se juntar à ALDE, não desistiu de constituir um grupo alargado pró-UE, que, a partir daquela, integrasse, por exemplo, o PD italiano, o DK húngaro ou o DIKO cipriota, entre outras forças de centro-esquerda, e a PO polaca, o PLUS romeno o FG irlandês ou o também francês Agir, entre outras formações de centro-direita. Para já, o presidente gaulês conta com vários aliados no Leste: o Par! letão, o partido polaco de Biedroń, o MM húngaro, o Glas croata e a USR romena, todos prováveis estreantes no PE e que deverão integrar o grupo liberal. Também aí deverá ficar o italiano +E, de Emma Bonino, embora não seja de descartar a possibilidade de algum dos seus eleitos ir para os verdes.

Em Itália, ainda não é claro se haverá uma ou duas coligações à esquerda, partindo das antigas LeU (Liberi e Uguali) e PaP (Potere al Popolo). Admiti a hipótese de haver uma aliança alargada de ambas, embora tal não seja líquido. Se isso não suceder, pode acontecer que a esquerda italiana fique, desta vez, fora do PE. O atual “sindaco” de Nápoles, Luigi De Magistris, deverá encabeçar a lista, que ainda não tem designação. Para o seu partido, coloquei a sigla DEMA, que se refere ao seu nome e é aquela com que se apresentou nas eleições municipais onde foi eleito, que significa Democracia e Autonomia.

Nos casos em que uma lista de uma força política maior engloba outras mais pequenas, coloco estas nos quadros das possíveis composições do PE na próxima legislatura. (por exemplo, separo o Podemos e a IU, que concorrem como Unidos Podemos, bem como os partidos da esquerda dos territórios ultramarinos franceses (AOM) da FI ou os nacionalistas corsos da PaC da EELV.

Pode acontecer que formações que concorram na mesma lista acabem por integrar grupos políticos diferentes no PE. É o caso, por exemplo, da coligação das esquerdas independentistas espanholas, em que a ERC catalã e o BNG galego irão para o G/EFA e o basco EH Bildu para o GUE/NGL, ou, ainda em Espanha, onde o ecologista Equo irá para o G/EFA, apesar de se apresentar na lista de esquerda com o Unidos Podemos. Algo de semelhante ocorrerá com uma eventual coligação entre o PCF e o Gs, de Hamon, em que o primeiro irá para o GUE/NGL e o segundo para o S&D, ou em Itália, onde, mesmo que haja uma ampla lista conjunta da esquerda, é provável que o MDP se mantenha no grupo socialista. À direita, o Agir, apesar de concorrer junto com os “macronistas” deverá, para já, continuar no PPE.

Agora que o UKIP sai do PE, o EFDD terá como referência os italianos do M5S e os alemães da AfD e poderá tornar-se o abrigo de forças antissistema e eurocéticas, defensoras da democracia direta, algumas nacionalistas, mas não necessariamente. Já o ECR, que verá sair os “tories” britânicos, tenderá a virar à direita e a acolher mais formações da direita populista, próximas da extrema-direita, como acontece com os referidos partidos nórdicos e bálticos.

Por fim, nos NI (não inscritos), coloco, para já, apenas as formações da extrema-direita mais radical, de cariz nazi-fascista e antissemita (a XA grega, a ELAM cipriota, o L’SNS eslovaco e o NPD alemão), os comunistas gregos (KKE), o satírico Die Partei alemão e o partido holandês dos reformados (50+), embora não exclua a hipótese de este último poder vir a integrar um grupo político.

A composição provável do Parlamento Europeu na legislatura de 2019-2024

Vejamos, agora, de acordo com a metodologia que descrevi e com as naturais limitações deste tipo de exercício, qual a composição provável do próximo Parlamento Europeu. Para o efeito, tomarei como objeto de análise os diferentes grupos políticos atualmente existentes, o número de eurodeputados que os integravam no final de janeiro, as possíveis coligações, as opções mais lógicas das forças políticas e os valores a que cheguei.

PPE (171 MEP = 24,3%, contra 217 = 28,9% atualmente)

O grupo do centro-direita sofrerá um recuo significativo, em especial nos maiores países da UE, fruto do seu apoio às políticas austeritárias e à consequente prossecução destas por parte dos governos formados por partidos dele integrantes. Na nossa previsão, sofrerá perdas em 16 estados e apenas obterá ganhos em seis.

O grupo do centro-direita sofrerá um recuo significativo, em especial nos maiores países da UE

Assim, o PPE experimentará grandes quebras na Alemanha (onde recua dos atuais 34 MEP para 25, pois a CDU e a CSU são afetadas pela perda da popularidade de Merkel e do seu governo, sem que a nova líder da primeira pareça capaz de inverter a tendência), em França (onde descerão de 20 para 12, pois os LR, enfraquecidos pelo fenómeno “macronista”, não têm beneficiado do fim do “estado de graça” do presidente), em Itália (de 13 para 7, refletindo a enorme sangria de votos da FI de Berlusconi para a Lega de Salvini, da extrema-direita), em Espanha (de 17 para 12, em resultado do desgaste da governação do PP, cuja passagem à oposição é recente) e na Polónia (onde passará de 22 para 17, apesar de a PO, na oposição ao governo do PiS, da direita reacionária, ter recuperado um pouco nos últimos meses).

Mas, tal como no exercício anterior, também são previsíveis perdas muito significativas na República Checa (onde desce de 7 para 3 MEP), na Eslováquia (onde baixa de 6 para 2) e na Letónia (onde cai de 4 para 1) ou, mesmo, na Holanda (de 5 para 3). É, ainda, muito possível que o PPE fique sem representação na Dinamarca e na Estónia. Na Hungria, Eslovénia, Croácia, Luxemburgo e Malta apenas deverá perder um lugar.

Estas perdas não são compensadas pelos ganhos que se perspetivam na Grécia (onde deverá subir de 5 para 9, na previsão de regresso ao poder da ND, face à desilusão com a governação do SYRIZA), na Suécia (onde poderá passar de 4 para 6, muito fruto da subida dos democrata-cristãos do KD) e na Áustria (de 5 para 7, com o ÖVP a capitalizar a popularidade do governo). Já na Roménia, ao contrário da última previsão, apenas deverá obter mais um mandato, tal como na Irlanda e no Chipre.

Por sua vez, em Portugal, na Bélgica (onde a democracia-cristã recuperou face ao ano anterior), Bulgária, Finlândia e Lituânia deverão manter a atual representação. No caso português, é muito provável que o atual 7-1 entre PSD e CDS não se repita e se transforme num 5-2-1, se a Aliança aderir ao grupo e eleger um eurodeputado ou, se isso não acontecer, num 6-2.

E, atenção, que o PPE quase não é afetado pelo Brexit. Durante muitos anos, o grupo teve representantes de todos os estados membros, apenas com uma exceção: o Reino Unido. Ironicamente, só agora, quando os britânicos estão prestes a sair, se lhe juntaram dois conservadores pró-UE.

S&D (124 MEP = 17,6%, contra 187 = 24,9% atualmente)

O grupo socialista sofrerá um recuo ainda mais acentuado que o do PPE e cuja amplitude é ainda maior desde o estudo anterior. Este é, igualmente, muito vincado na maioria dos grandes países da UE, sendo provável que perca terreno em 14 estados e que ganhe apenas em seis. É o resultado da conversão dos partidos dele integrantes aos dogmas do neoliberalismo, traduzida num conjunto de governações assentes na imposição de políticas austeritárias e antipopulares, que levam ao afastamento do seu eleitorado tradicional.

O grupo socialista sofrerá um recuo ainda mais acentuado que o do PPE e cuja amplitude é ainda maior desde o estudo anterior

Assim, o S&D terá enormes perdas em Itália (onde cai de 31 para 14 MEP, pois o PD, que, em 2014, beneficiara do “estado de graça” de Renzi, sofreu uma enorme derrocada, visível nas últimas legislativas), na Alemanha (onde baixa de 27 para 12, tendência que se agravou com a renovação da “grande coligação” do SPD com a democracia-cristã) e em França (onde desce de 12 para 7, fruto da implosão do PS após a desastrosa presidência de Hollande, sendo que o partido apenas deverá eleger 4, indo os outros 3 para as Gs, de Hamon).

Perdas ainda com algum significado na Roménia (onde recua de 13 para 11, em resultado da impopularidade do governo do PSD, abalado por sucessivos escândalos de corrupção, sendo que dois dos eleitos deverão pertencer ao PRO, novo partido do ex-primeiro ministro Victor Ponta), na República Checa e na Grécia (onde descem de 4 para 2, no primeiro caso após a grande derrota do CSSD nas últimas eleições, e, no segundo, após a implosão do PASOK, agora renascido na aliança KINAL), bem como na Polónia (de 5 para 3, já que a SLD não recuperou da perda de representação parlamentar ocorrida nas últimas legislativas).

Deverão, ainda, perder um mandato em Espanha, Holanda, Bélgica Eslováquia, Lituânia e Chipre, sendo que, nos casos espanhol e holandês, a perda só não é maior devido ao aumento do número de lugares atribuídos a esses países. Já na Estónia é grande a hipótese de o S&D perder o seu único representante.

Por outro lado, à exceção da Bulgária (onde poderá subir de 4 para 7, pois o BSP teve um péssimo resultado em 2014 e agora recupera, mesmo sem ultrapassar o centro-direita) e da Dinamarca (de 1 para 3, com os social-democratas a poder voltar ao poder ainda este ano), há poucos ganhos para compensar as perdas sofridas. Em Portugal, Finlândia, Letónia e Malta prevê-se que obtenham mais um lugar. Assim, no caso português, o PS passaria de 8 para 9 MEP, aproveitando a popularidade da “geringonça”.

Entretanto, na Suécia, Áustria, Hungria, Croácia, Eslovénia, Luxemburgo e Irlanda (nesta última, graças a uma independente) deverão manter a atual representação.

Ao contrário do PPE, o S&D é bastante afetado pelo Brexit, já que fica privado dos 20 MEP de que o Labour atualmente dispõe e que, face às sondagens conhecidas, aumentariam, muito provavelmente, na próxima eleição.

ALDE (99 MEP = 14,0%, contra 68 = 9,1% atualmente)

Ao contrário das duas grandes “famílias” europeias, o grupo liberal no PE deverá crescer, embora não tanto como previa no estudo anterior, devendo registar avanços em 14 estados e perdas apenas em sete. Após as últimas eleições europeias, em que o FDP alemão e os LD britânicos, até aí as duas grandes referências do grupo, foram quase totalmente dizimados, a ALDE viu a sua representação reduzida e tornou-se um agrupamento muito heterogéneo, em que, aos habituais liberais e centristas, se juntaram partidos de cariz populista, em especial do Leste, mas não só: veja-se o PDR de Marinho Pinto. A decisão do presidente francês em integrar a ALDE vem dar novo alento ao grupo, sendo que este até pode vir a ser alargado, como vimos acima. Contudo, essa ambição de Macron é alvo de algumas reservas no seio da ALDE, que temem a sua descaracterização. Para já, esta deverá ver a sua representação substancialmente aumentada (o seu número de MEP ficará relativamente próximo dos S&D) e também a sua influência política, não apenas por aquele facto, mas também pelo peso que os eurodeputados da maioria presidencial francesa lhe conferirão.

Ao contrário das duas grandes “famílias” europeias, o grupo liberal no PE deverá crescer

A ALDE experimentará, então, uma grande subida em França (onde crescerá de 7 para 16 MEP, um avanço, apesar de tudo, menor que o esperado há um ano, devido à quebra da popularidade de Macron), na Roménia (de 3 para 8, graças aos possíveis 4 eleitos da USR, um novo partido-movimento, de cariz populista, mas pró-UE), em Espanha (onde subirá de 8 para 13, graças ao avanço dos C’s, embora também com menor amplitude que a prevista no último ano) e na Alemanha (de 4 para 9, com o FDP a recuperar da derrocada de 2014, que se seguiu à perda de representação parlamentar nas legislativas imediatamente anteriores).

Os liberais deverão também passar a estar representados na Polónia (onde o novo partido de Biedroń poderá conquistar, pelo menos, seis lugares), em Itália (com o +Europa, de Emma Bonino, a poder eleger 3 MEP, caso ultrapasse a cláusula-barreira) e na Hungria (com o MM, um partido-movimento semelhante ao USR romeno, a obter um lugar).

Também são prováveis avanços na Irlanda (de 1 para 3, fruto do regresso do FF, que viu o seu único eleito de há cinco anos abandonar o partido, e que, agora, deverá obter dois lugares) e na República Checa (de 4 para 6, pela subida do liberal-populista ANO, atualmente no poder). Poderá, ainda, conseguir mais um lugar na Dinamarca, Estónia, Croácia, Letónia e Eslovénia.

Relativamente a descidas, as mais significativas deverão ocorrer na Bélgica (de 6 para 3, devido ao crescente desgaste da governação) e na Bulgária (onde deverão baixar de 4 para 2, já que uma cisão enfraqueceu o partido turcófono DPS). Na Holanda (com a quebra do D66), na Suécia e na Finlândia perderão, provavelmente, um lugar, enquanto que em Portugal deverão deixar de ter representação, pois não é crível que Marinho Pinto seja reeleito. A não ser que a Aliança eleja alguém e venha a aderir ao grupo.

Por sua vez, na Áustria e no Luxemburgo deverão manter o eleito de que dispõem atualmente, enquanto Malta, Chipre, Eslováquia, Hungria e Grécia (exceto se a EK ultrapassar a cláusula-barreira) continuarão sem representantes no grupo liberal.

A ALDE será muito pouco afetada pelo Brexit, pois, nas eleições de 2014, os LD britânicos perderam 11 lugares, ficando reduzidos a apenas um eurodeputado.

ENF (67 MEP = 9,5%, contra 37 = 4,9% atualmente)

Muito provavelmente, o grupo da extrema-direita quase duplicará a sua representação no PE. As políticas austeritárias são um terreno fértil para a demagogia e para o apelo ao medo, aqui traduzido na rejeição do outro, em especial o imigrante, o refugiado, o muçulmano ou, simplesmente, o diferente. Porém, e paradoxalmente, o grupo estará sempre “na corda bamba”, já que apenas deverá conseguir representação em sete ou oito países (sendo que sete é o mínimo exigível), embora não se ponha de parte que possa captar mais uma ou outra formação política do Leste ou algum trânsfuga de outro grupo.

Muito provavelmente, o grupo da extrema-direita quase duplicará a sua representação no PE

Apesar de não dever contar com a adesão da AfD alemã, que continuará, muito provavelmente, no EFDD, tudo indica que o seu enorme crescimento terá como base a Itália (de 6 para 26 MEP, devido à subida vertiginosa da Lega de Salvini, o “homem forte” do governo italiano, bem maior que a que prevíamos no exercício anterior) e, em menor grau, a França (passa de 15 para 21, com o RN, antiga FN, a recuperar os elementos que perdeu nas várias dissidências que sofreu ao longo da legislatura).

Por seu turno, é muito possível que passe a estar representado em Espanha (através do VOX, que poderá obter 7 lugares) e na Eslováquia (1 lugar, em princípio do SNS, eventualmente do Sme Rodina, quiçá de ambos).

Deverá, ainda, conseguir mais um mandato na Áustria (de 4 para 5, do FPÖ) e na Bélgica (com o VB a recuperar, passando de 1 para 2).

Tudo indica que manterá os atuais lugares na Holanda (com o PVV, de Wilders, a segurar os seus 4 MEP) e na Alemanha, com um elemento do Blau Partei, de Frauke Petry e do marido, Markus Pretzell, atual eurodeputado. Em contrapartida, deverá ficar sem representação na Polónia, já que o KNP dificilmente elegerá alguém.

Nos restantes países, não terá qualquer MEP, sendo a Bulgária, em princípio, a única hipótese de contrariar a previsão, embora a coligação OP, de que o ATAKA faz parte, esteja em quebra, pagando o preço da sua presença no atual governo. Daí que o único lugar que aquela poderá conquistar deverá ficar para a NFSB ou para o IMRO, que pertencem ao ECR.

A representação do ENF também será muito pouco afetada pelo Brexit, pois o grupo apenas dispunha de quatro dos lugares atribuídos ao Reino Unido, ocupados por dissidentes do UKIP.

GUE/NGL (63 MEP = 8,9%, contra 52 = 6,9% atualmente)

O grupo da esquerda terá, muito provavelmente, um crescimento nas próximas eleições europeias, embora menor que o prevista no último estudo. A sua oposição às políticas austeritárias e a desilusão de muitos eleitores com os sociais-democratas e, em menor grau, com os verdes possibilitam esse aumento da sua representação no PE. E, não fosse a sua tradicional debilidade no leste do continente, a subida seria ainda mais significativa.

O grupo da esquerda terá, muito provavelmente, um crescimento nas próximas eleições europeias, embora menor que o prevista no último estudo

Apesar de o aumento da força do grupo ocorrer em vários países, é em França que se prevê o maior crescimento (de 5 para 11 MEP, graças à enorme subida da FI e dos seus aliados ultramarinos, embora esta seja menor que o esperado no ano anterior e, mesmo assim, pressupondo que o PCF terá uma lista conjunta com as Gs, de Hamon, o que não é líquido, e que ultrapassará a cláusula-barreira; caso isso não se verifique, a esquerda francesa terá menos dois representantes do que os estimados) e, em menor grau, na Alemanha (de 8 para 11, fruto do maior apoio ao Die Linke).

Também é quase certo que terá, pela primeira vez, representação na Bélgica, com a obtenção de, no mínimo, um lugar por parte do PTB-PVDA, apesar deste ter visto o seu apoio reduzir-se desde o anterior exercício, e na Eslovénia, onde a Levica deverá conquistar um mandato.

Por sua vez, ganhará um representante na Holanda (onde o SP recuperou algum apoio e os animalistas do PvdD continuam bem cotados), Suécia e Finlândia.

Por seu lado, apenas se preveem pequenas perdas de um lugar na Grécia (de 6 para 5, do SYRIZA) e na República Checa (de 3 para 2, com a descida do KSCM).

Entretanto, deverá manter inalterado o seu número de lugares em Espanha (se o Unidos Podemos não perder mais apoios, devido à sua crise interna, aberta por Errejón, em Madrid), Portugal, Irlanda (onde o aumento da magnitude dos círculos poderá permitir ao SF manter os seus 3 MEP, mesmo perdendo alguns votos), Itália (embora aqui com algumas reservas, já que não está assegurada uma lista única de esquerda que englobe o essencial da SI e do PaP e, se isso acontecer, que supere a cláusula-barreira de 4%), Chipre e Dinamarca. No caso português, é provável que o atual 3-1 entre PCP e BE se transforme num 2-2.

Dos 11 estados membros da Europa de leste, há nove onde tudo indica que a esquerda continuará a não estar representada: Estónia, Letónia, Lituânia, Polónia, Eslováquia, Hungria, Croácia, Roménia e Bulgária. A estes, há a juntar três na parte ocidental do continente: Áustria, Luxemburgo e Malta.

A representação do GUE/NGL será muito pouco afetada pelo Brexit, pois o grupo apenas dispunha de um dos lugares atribuídos ao Reino Unido: uma representante do SF, eleita pela Irlanda do Norte.

ECR (59 MEP = 8,4%, contra 75 = 10,0% atualmente)

Tendo sido formado em torno dos conservadores britânicos, o grupo que engloba a direita eurocética, nacionalista e religiosa reacionária será bastante afeado pelo Brexit, pois os “tories” dispunham, atualmente, de 19 lugares no PE. Porém, não fora essa circunstância e, também, a perda dos elementos eleitos pela AfD alemã original, que abandonaram o partido quando este encetou a sua deriva para a extrema-direita, mas se mantiveram no grupo, e, face aos resultados eleitorais, até teria uma subida da sua representação. Esse crescimento, em grande parte à custa do PPE, tem razões semelhantes às que referimos para o ENF, até porque o grupo passou a albergar, desde 2009, alguns partidos próximos da extrema-direita, como o DF dinamarquês, os PS finlandeses e, desde 2018, os SD suecos. A saída dos conservadores britânicos deverá puxar o ECR ainda mais para a direita, podendo o grupo vir a atrair mais alguns partidos nacionalistas. Caso o francês DLF acabasse por aderir ao grupo (como prevíamos no primeiro exercício, mas não neste), tal como o espanhol VOX, aquele pouco recuaria.

O grande aumento da sua representação ocorrerá na Polónia, embora em menor grau que o previsto há um ano (de 18 para 22 MEP), o que tornará o PiS, atual partido no poder em Varsóvia e protagonista de uma governação autoritária, na sua principal referência.

Também deverá crescer na Suécia (de 2 para 4, devido ao crescimento dos DS). Por sua vez, é previsível que ganhe mais um lugar na Eslováquia (de 3 para 4), na República Checa (de 2 para 3) e na Lituânia (de 1 para 2).

É, ainda, possível que aceda à representação na Hungria (se se confirmar a entrada do Jobbik, com os seus 4 elementos), Estónia (onde é muito possível o EKRE conseguir 2 mandatos) e Luxemburgo (onde a ADR poderá estrear-se no PE).

Relativamente a recuos, deverá perder um eurodeputado na Finlândia e na Bulgária (em ambos os países, de 2 para 1).

Por outro lado, e para além da Alemanha (onde deverá perder os seus 6 representantes), deixará, muito possivelmente, de estar representado na Roménia (onde também a independente Monica Macovei, eleita pelo PDL e que, entretanto, fundou o M10, não deverá renovar o mandato), Croácia (com o abandono do direitista HSP-AS da coligação que integra o HDZ e lhe permitiu a eleição de um eurodeputado em 2014), na Irlanda (onde sairá o atual independente, expulso do FF) e em Chipre (face à grande quebra do SYPOL).

Por sua vez, manterá o mesmo número de representantes na Itália, Bélgica, Dinamarca, Holanda, Grécia (com a eventual substituição do ANEL pela EL) e Letónia. Nos restantes países, continuará a não ter qualquer MEP.

G/EFA (57 MEP = 8,1%, contra 52 = 6,9% atualmente)

Ao contrário do que se previa há cerca de um ano, em que tudo apontava para um recuo significativo, o grupo ecologista/regionalista experimentará, tudo o indica, um crescimento nas próximas eleições europeias, em especial na Europa ocidental. A rendição dos partidos sociais-democratas ao neoliberalismo levou algum eleitorado mais à esquerda a encontrar refúgio nas formações ecologistas. Por outro lado, se o facto de certos partidos verdes se terem rendido ao neoliberalismo triunfante ter conduzido à fuga de alguns dos seus eleitores para formações mais à esquerda, permitiu-lhes, igualmente, conquistar outros mais ao centro, em especial numa altura em que aumentam as preocupações com as alterações climáticas e o estado do ambiente global. Aliás, algumas forças políticas integradas no grupo são centristas e/ou de cariz agrário, em especial no Leste.

O grupo ecologista/regionalista experimentará, tudo o indica, um crescimento nas próximas eleições europeias

A maior subida deverá ocorrer na Alemanha (de 13 para 21 MEP), graças ao enorme crescimento eleitoral dos Grüne. Estes, que aparecem, atualmente, como a segunda formação política do país, serão, cada vez mais, a grande referência do grupo.

Também em França é previsível um avanço dos ecologistas (de 6 para 8, com a EELV eventualmente aliada aos nacionalistas corsos, bretões e alguns ultramarinos), na Bélgica e na Holanda (de 2 para 4 em ambos os países) e Lituânia (de 1 para 3), enquanto na Finlândia prevê-se que obtenham mais um lugar (de 1 para 2). Por sua vez, na República Checa, ganhará representação, com a estreia dos Piráti, que poderão obter 4 lugares.

Quanto a perdas, realce para a Suécia (de 4 para 1, e mesmo esse ainda em dúvida, em consequência da decisão, impopular para grande número de eleitores do MP, de integrar a “grande coligação” entre os social-democratas e alguns partidos do centro-direita) e na Áustria (de 3 para 1, após a cisão nos Grüne, protagonizada pelo deputado Peter Pilz, que criou uma nova formação e afastou o seu antigo partido do Parlamento). Deverá, ainda, perder um representante em Espanha e na Hungria e ficar sem representação em Itália, Eslovénia e Croácia.

Por seu turno, deverá manter os seus representantes na Dinamarca, na Letónia, no Luxemburgo e, provavelmente, na Estónia, caso o independente Tarand seja reeleito. Nos restantes estados, continuará sem representação.

O G/EFA será afetado pelo Brexit, já que sairão os seus 6 MEP britânicos: 3 do GP, 2 dos nacionalistas escoceses do SNP e 1 dos nacionalistas galeses do Plaid Cymru.

EFDD (55 MEP = 7,8%, contra 41 = 5,5% atualmente)

Tal como o ECR, também este grupo, constituído por partidos da direita nacionalista eurocética, próximos da extrema-direita, e forças políticas que designarei por populistas antissistema, será bastante afeado pelo Brexit, pois foi criado em torno do UKIP britânico, que dispunha, atualmente, de 17 lugares, já que alguns abandonaram o partido e foram para o ENF e para os NI. Apesar disso, o EFDD deverá experimentar algum reforço, não só pelas mesmas razões referidas para o ENF e o ECR, mas também devido à crescente insatisfação dos eleitores com o sistema político. Com a saída do UKIP, um partido formado com o objetivo de forçar o Brexit, as suas grandes referência passarão a ser o M5S italiano e à AfD alemã, que representam as duas facetas do grupo: o primeiro, mais antissistema, assente em formações defensoras da chamada “democracia direta”; a segunda, mais nacionalista e com posições políticas hostis à imigração e aos refugiados. Ao segurar a AfD alemã, a sua importância no hemiciclo aumentará bastante, não só em número, mas também em influência política.

Como deixámos antever acima, a grande subida da representação do grupo ocorrerá na Alemanha (de 1 para 15 MEP, dado o grande crescimento da AfD, a que acresce o facto de só um dos 6 eleitos do partido em 2014 se lhe ter mantido fiel) e em Itália (dos atuais 14 para 19 MEP, fruto da subida do M5S, embora este se afigure menor que no ano passado, pois algum do seu eleitorado tem sido “comido” pela Lega). Outro país onde se prevê um forte aumento da sua representação é a Polónia (de 1 para 4, todos do partido Kukiz 15).

Por seu turno, voltará a ter representação na Holanda (com a conquista de 3 lugares por parte do FvD, uma nova formação da direita, defensor da “democracia direta”), na Croácia (com 3 elementos do ZZ, um partido muito similar ao M5S, embora a sua plataforma tenha muitos pontos de contacto com a esquerda), na Eslováquia (com a eventual adesão dos populistas antissistema do Sme Rodina, com 2 mandatos) e na Letónia (onde o KPV-LV, uma formação antissistema, que se tornou na segunda força política do país, deverá obter um lugar).

Por outro lado, pode manter a representação em França (onde a subida do DLF permitirá segurar os 6 MEP, substituindo os atuais trânsfugas da FN, que se passaram para os novos partidos Les Patriotes e Les Français Libres, que não deverão eleger ninguém). Na Lituânia, manterá, com grande probabilidade, o seu único representante, tal como na República Checa (com a provável adesão do SPD, um partido reacionário, anti-imigração, mas cujo nome se traduz por “Liberdade e Democracia Direta”, em lugar do Svobodní).

Um aspeto curioso é que o EFDD não sofre perdas em nenhum país, embora só ficasse representado em 10 estados membros, mesmo assim mais três que atualmente. O que, a confirmar-se, o coloca a salvo da dissolução por insuficiência de estados envolvidos na sua constituição.

NI (10 MEP = 1,4%, contra 22 = 2,9% atualmente)

O número de MEP não inscritos em grupos políticos é muito variável, mas tende a diminuir. Na verdade, é muito mais difícil a ação de um eurodeputado não inscrito que de outro pertencente a um qualquer grupo político. Geralmente, são partidos sem ideologia definida ou que não encontram o número de companheiros ideológicos para criar um grupo que acabam por ficar nesta amálgama. Também, por vezes, para aí vão alguns dissidentes de diferentes forças partidárias, por vezes em transição para outra família política, ou um ou outro elemento “amuado” ou temporariamente suspenso pelo seu grupo.

Na previsão que levámos a efeito, deverão aqui continuar os partidos da extrema-direita pura e dura, com claras referências nazi-fascistas, que o próprio ENF não aceita integrar. São os casos da XA grega (que poderá perder um mandato, pelo efeito matemático da subida da ND, reduzindo a sua representação de 3 para 2 membros), do L’SNS eslovaco (que, tudo indica, se poderá estrear com dois representantes), do NPD alemão (que deverá manter o seu mandato) e da ELAM cipriota (que poderá estrear-se com um lugar).

À esquerda, apenas vislumbramos o KKE grego, que deverá manter os seus 2 eurodeputados. Este só não integra o GUE/NGL por não querer pertencer ao mesmo grupo do SYRIZA, de quem é rival na política interna da Grécia. Uma opção que foi tomada ainda em 2014, muito antes da capitulação de Tsipras face à chantagem da UE.

Quem aqui deverá continuar será o satírico Die Partei alemão, enquanto o 50+ holandês (defensor dos reformados e dos idosos) também fica aqui colocado, embora possa vir a integrar o ALDE, onde, atualmente, se senta uma formação similar: o DeSUS esloveno, que, no entanto, poderá ficar de fora na próxima sessão legislativa.

Devido ao Brexit), desaparecem os 3 MEP britânicos que aí se sentam (entre os quais se conta a representante do DUP, formação radical protestante da Irlanda do Norte, que sustenta o executivo de May), 3 elementos franceses (Le Pen pai, Bruno Golnisch e outro ex-elemento da FN, agora no novo partido LFL), os 3 húngaros (se se confirmar a adesão do Jobbik ao ECR), os 3 polacos (onde se inclui um membro do Wolnosc, partido do inacreditável Korwin, conhecido pela sua misoginia, que dificilmente conseguirá continuar representado no PE) e o romeno (já que, em princípio, não deverá ser reeleito o deputado independente eleito pelo extinto Partidul Conservator). Também Itália e Dinamarca (onde, em ambos os casos, se senta, atualmente, um dissidente de outras forças políticas) deixarão de contar, à partida, com MEP não inscritos.

Conclusão

Como se pode verificar, é notória a tendência para o crescimento das forças da direita radical, populistas reacionárias e da extrema-direita, a que podemos juntar formações com práticas autoritárias e/ou populistas integradas nos grupos do chamado “centrão” ou “mainstream”.

Com efeito, se esta previsão se vier a tornar realidade, os grupos ENF, EFDD e ECR ocuparão, em conjunto, 181 lugares nos hemiciclos de Bruxelas e Estrasburgo, mais 20 do que previa no estudo do ano passado. A esses teríamos de somar os 6 nazi-fascistas sentados entre os NI, o que elevaria aquele valor para 187, ou seja, 26,5% do total, mais 16 MEP e 2,2% que o PPE, a maior bancada do PE. Deveríamos, ainda, somar os previsíveis 11 (se não forem mais) da “coligação” Fidesz-KDNP, partidos que, apesar de integrarem o PPE, são a base do governo conservador e autoritário húngaro de Viktor Orban, onde o segundo, dito democrata-cristão, tem o mesmo papel do PEV na CDU, aqui em Portugal. A estes há que acrescentar, ainda, os 3 do SDS esloveno, formação que tem seguido o mesmo caminho dos seus vizinhos húngaros. E também os 6 liberal-populistas do ANO, força que sustenta o governo minoritário do primeiro-ministro Andrej Babis, na República Checa, e o do DP lituano, da mesma natureza, já que ambos foram fundados por “empresários de sucesso” do pós- “comunismo” e fazem parte da ALDE. E não devemos esquecer os 3 do Smer-SD eslovaco, do ex-primeiro-ministro Robert Fico, que, apesar de estar integrado no grupo socialista, tem práticas populistas e se alia ao SNS, da extrema-direita. Assim, numa definição mais alargada e de acordo com esta previsão, é muito provável que a direita radical, a extrema-direita e formações de cariz populista ocupem 205 dos 705 lugares no próximo PE, ou seja, quase 30%. No exercício anterior, a estimativa ficava pouco acima dos 25%, o que mostra uma evolução extremamente preocupante.

Como concluí então, a subida dessas forças políticas extremistas e reacionárias é feita, em grande parte, à custa dos maiores grupos do “mainstream” europeu (o PPE e o S&D), que deverão perder, em conjunto, cerca de 12% dos lugares que, atualmente, detém no PE. Se, agora, juntos, dispõem de mais de metade dos parlamentares em Bruxelas e Estrasburgo (54,8%), tudo indica que, na próxima legislatura, não passarão dos 42%. Do desastre, salvam-se os liberais, muito graças ao elevado número de deputados que poderão vir a ser eleitos em França e ao acolhimento de algumas forças políticas que podemos considerar populistas de centro, muito afastadas dos principais liberais e pró-UE que norteiam a cúpula da ALDE. Assim, as três “famílias” do “centrão” europeu, que hoje ocupam quase 2/3 dos lugares no PE (63,5%), ficarão bem abaixo dos 60% (56%, de acordo com a nossa previsão).

As poucas boas notícias são a subida da representação do GUE/NGL e dos G/EFA, mesmo se o grupo dos ecologistas e regionalistas está cada vez mais próximo do “mainstream” e possui, no seu seio, algumas formações agrárias bálticas relativamente conservadoras. De acordo com este estudo, a esquerda europeia verá o seu peso aumentar significativamente, passando a ocupar cerca de 9% dos lugares no PE, contra os atuais 7%, embora o seu crescimento, feito, essencialmente, à custa dos social-democratas, não pareça tão promissor como o ano passado. Claro que, para que essa subida se verificar, é essencial que se aguentem as posições em Itália (o que está longe de ser um facto) e se confirmem as boas perspetivas em França e na Alemanha. A grande questão é que esses 9% (mesmo com a eventual adição dos verdes, com os seus 8%) serão sempre poucos, tanto face aos mais de 50% do “centrão” neoliberal como face aos quase 30% das forças reacionárias.

Para terminar, repito o que escrevi na conclusão do estudo anterior. Valendo este estudo o que vale, a verdade é que ele mostra, claramente, o atual estado da Europa e a falência do chamado “projeto europeu”, cada vez mais capturado por uma elite comandada pelo setor financeiro. A forma como as políticas austeritárias conduzidas pelas instituições europeias foram impostas aos povos europeus, sem respeito pelas respetivas instituições nacionais, democraticamente eleitas, e a sua cobardia face às questões da imigração e dos refugiados, onde tem ido quase sempre a reboque da extrema-direita, tem levado ao crescimento do voto do medo ou, simplesmente, de protesto, de que se aproveitam a extrema-direita e todo o tipo de populismos reacionários. Com os resultados que aqui apresentamos e que, a confirmarem-se, configuram um cenário político continental de pesadelo.

Para o evitar, a esquerda tem de procurar mobilizar os seus eleitores, pois a abstenção favorece bastante as forças populistas e/ou reacionárias e desconstruir a falsa dicotomia entre europeístas e eurocéticos ou entre cosmopolitas e nacionalistas, mostrando que existe uma terceira opção: a construção de uma Europa dos Povos!

Referências

- “Site” do Parlamento Europeu (MEP/ Quadro de referências cruzadas)

- Wikipedia (sondagens para as próximas eleições legislativas nos 27 países da UE onde haverá eleições para o PE em 2019) (en), (nac.)

- Wikipedia (resultados das últimas legislativas nesses 27 países) (en)

- Wikipedia (resultados das últimas europeias nos 27) (en), (fr), (de), (nac.)

- Wikipedia (resultados das eleições europeias de 2009 na Irlanda, por circunscrição eleitoral) (en)

- Wikipedia (resultados das eleições regionais na Comunidade Alemã (DG) da Bélgica (de)

Artigo de Jorge Martins para esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Professor. Mestre em Geografia Humana e pós-graduado em Ciência Política. Membro da coordenadora concelhia de Coimbra do Bloco de Esquerda
Termos relacionados Comunidade
(...)