Egipto: 2 revoluções numa só

27 de fevereiro 2011 - 0:00

A eurodeputada Marisa Matias está no Cairo dirigindo uma delegação da Esquerda Unitária no Parlamento Europeu (GUE/NGL) de solidariedade com a revolução egípcia. Depois de uma participação na “impressionante manifestação” de sexta-feira na histórica Praça Tharir, contactou com representantes de organizações políticas e sociais.

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Após estes encontros, Marisa Matias sublinhou que no terreno parecem estar “duas revoluções numa só”: a “transição conduzida pelos militares e que vai mais devagar do que seria desejável”; e “a revolução que não descansa, a revolução dos jovens que querem tudo de novo”.



As primeiras impressões da delegação do GUE testemunhadas através de Marisa Matias dão conta de um imenso fervor revolucionário de que a manifestação de sexta-feira foi exemplo e que aglutinou “pessoas de todas as idades, muitos homens, muitas mulheres e sobretudo muito jovens, famílias inteiras com crianças e também estrangeiros”. É “um ambiente fantástico”, embora também existam sinais de tensão, como demonstra o facto de os militares terem actuado com violência contra os jovens que decidiram ficar na praça pela madrugada fora desafiando o recolher obrigatório, que ainda se mantém em vigor.



O poder militar pediu desculpas pelo sucedido e convocou os representantes dos jovens para uma reunião mas estes decidiram manter-se em manifestação durante o dia de sábado e deixar para domingo o encontro com os dirigentes em funções. Perante a decisão dos jovens manifestantes as forças armadas colocaram tanques a controlar os acessos à Praça Tharir – um sinal de força apesar de, na generalidade, os contactos entre o povo e os militares seja distendido.



“Parece que há duas revoluções que fazem parte da mesma”, sublinha Marisa Matias.



Uma é “a transição conduzida pelos militares, que vai mais devagar do que seria desejável e ainda muito agarrada a questões do passado e do regime”, explicou a eurodeputada portuguesa eleita pelo Bloco de Esquerda. “As pessoas confiam nos militares mas receiam que se trate de uma transição para um regime mais suave e não de uma ruptura revolucionária”.



Entre as questões em aberto estão o papel da comissão indigitada para alterar a Constituição ainda quando Mubarak estava na presidência e a sua limitação ao objectivo de permitir eleições presidenciais livres e democráticas, ignorando-se o que surgirá a seguir: leis de partidos, lei eleitoral, estrutura governamental, leis sobre a comunicação social.



“Depois”, prosseguiu Marisa Matias, “há a revolução dos jovens que querem tudo de novo, novas organizações da sociedade civil, novos políticos, novo sistema, novos partidos ou, como alguém até disse hoje, ‘uma nova sociedade civil, se fosse possível’”.



Esta é “a revolução que não descansa”, definiu a eurodeputada, “que teve uma influência muito grande das redes sociais” na internet. Através dela “está a surgir uma realidade nova, muito politizada, muito contra o sistema que estava imposto, muito motivada pela democracia mas pouco ideológica, com falta de experiência e fundamentos”. Para Marisa Matias, “é um dizer basta, uma luta por uma sociedade nova – uma revolução de jovens que nasce da privação total e da precariedade total”.



Na sociedade em geral parece também haver uma necessidade de clarificação  não apenas no sistema político mas também na sociedade civil, explicou Marisa Matias. Por exemplo no domínio dos direitos humanos existem organizações que simplesmente nunca fizeram nada; outras que de alguma forma foram coniventes com o regime e as que defenderam de facto os cidadãos.



Acontece, sublinhou Marisa Matias, que o poder militar continua a só ouvir algumas. Aliás, acrescentou, uma das queixas dos jovens contra o processo de transição é o facto de as consultas feitas pelo poder não serem globais, serem feitas por escolha, não abrangerem todas as organizações políticas, sociais e da sociedade civil. Além disso, os contactos são isolados e não em conjunto, o que, no entender dos jovens revolucionários, limita o debate e a avaliação ampla de soluções possíveis para o presente e o futuro.


Artigo publicado no portal do Bloco no Parlamento Europeu.