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“É tempo de abalarmos para o convento”

Abalamos para os conventos, sim, e que viagem surpreendente. A que me refiro? Ao livro de Arlindo M. Caldeira "Mulheres enclausuradas. As ordens religiosas femininas em Portugal nos séculos XVI a XVIII". Artigo de Maria Luísa Cabral.
CALDEIRA, Arlindo Manuel – Mulheres enclausuradas. As ordens religiosas femininas em Portugal nos séculos XVI a XVIII. Alfragide: Casa das Letras, 2021
CALDEIRA, Arlindo Manuel – Mulheres enclausuradas. As ordens religiosas femininas em Portugal nos séculos XVI a XVIII. Alfragide: Casa das Letras, 2021

Reproduzi a frase de Augusto Gil utilizada pelo autor para nos introduzir ao texto porque é premonitória sobre o que se vai desenrolar e porque traduz o humor discreto do autor. Abalamos para os conventos, sim, e que viagem surpreendente. A que me refiro? Ao livro de Arlindo M. Caldeira que sob o título Mulheres enclausuradas. As ordens religiosas femininas em Portugal nos séculos XVI a XVIII* nos arrasta para um mundo até agora pouquíssimo conhecido mas sobre o qual sempre fomos lançando um olhar desconfiado. Dizia-se, com fraca sustentação, que o ambiente nos conventos femininos portugueses levantava muitas dúvidas sobre o comportamento das suas freiras. Comentava-se mas passava, tudo sem profundidade. As Cartas Portuguesas de Soror Mariana serviam para ilustrar a suspeita. E daí? Que mais se sabia realmente sobre as condições de vida dentro dos conventos e mosteiros femininos, onde estavam os factos que nos permitissem provar e não apenas inferir?

Em resultado de uma demorada investigação, o autor recolheu dados, agrupou-os, analisou-os tendo chegado a um texto, e a um livro, notáveis por três razões que devem ser destacadas e que justificam a sua leitura. Primeiro, a recolha de dados, método indispensável para poder emitir uma opinião fundamentada, indiscutível. De hoje em diante, não viveremos mais de assumpções, de suspeitas. Os factos estão lá e não sendo generalizáveis, proporcionam matéria mais que suficiente que permite ter um entendimento global sobre a situação das mulheres que foram feitas freiras à força. Os factos, peça central de qualquer investigação histórica, coligidos exaustivamente, relatados os mais caricatos, nem de mais nem de menos mas sempre o suficiente para escorar as conclusões que, capítulo a capítulo, se vão somando. Em segundo lugar, a própria organização da obra. Com uma grande simplicidade descritiva, o autor vai-nos introduzindo na vida da comunidade religiosa, desde o espaço conventual e os seus ritos, até à forma como as mulheres eram empurradas para a clausura para satisfazer vontades familiares sem que a sua própria fosse atendida, a relação entre o mundo conventual e o mundo exterior, as relações socio-políticas, o antes e o depois do Concílio de Trento. O relato é tão fidedigno que, sem estranheza, vamos identificando comentários em defesa dos princípios feministas e a obra, de carácter histórico e erudito, acaba por fornecer bons argumentos em prol da luta pelos direitos das mulheres. Sem ser um manifesto, o texto com todo o aparato crítico exigível a um trabalho de investigação, acaba também por tomar a posição justa. Em último lugar, o estilo. Ah, como este factor é importante! Quantos livros de história se tornam difíceis de ler, e desfrutar, pelo simples facto de serem escritos de forma pesada, martelada, a exigir uma decifração linha após linha. Quando isto acontece, só os muito informados, naquele assunto específico, têm a capacidade de seguir o fio condutor e chegar ao fim. Esses autores não fazem o mínimo esforço para abrir o grande livro da história a um público mais vasto, e esses textos acabam por se dirigir a públicos mais restritos. Ora com as Mulheres enclausuradas acontece exactamente o contrário, desde a introdução que o autor abre a temática sem rodriguinhos: a verdade vem com os factos, a história vai-se construindo com base numa escrita muito directa, com alguns comentários bem a propósito, num tom coloquial que prende o leitor sem o enfadar. Este é um grande livro de história, ao longo do qual sentimos o método posto na pesquisa (e evidente nas fontes e na larguíssima bibliografia) e na sua subsequente transformação em texto, enquanto se nos vai revelando um universo até agora muito mal conhecido com óbvias implicações com o mundo exterior, transformando a nossa visão sobre boa parte da sociedade portuguesa já que a maior parte dessas mulheres eram nobres ou membros de famílias abastadas. Ao visitarmos algum convento, daqui em diante, será impossível não imaginar a vida a pulsar em todas as suas dimensões para lá da arquitectura ou das deslumbrantes talhas douradas ou dos painéis narrativos de azulejos. Cada espaço dentro do mosteiro guarda vivências próprias a reflectir comportamentos, expectativas, resiliência ou revolta de uma boa parte da sociedade portuguesa. Surpreendente, sem tabus.

* CALDEIRA, Arlindo Manuel – Mulheres enclausuradas. As ordens religiosas femininas em Portugal nos séculos XVI a XVIII. Alfragide: Casa das Letras, 2021 (1ª ed. Novembro 2021)

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária aposentada. Activista do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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