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“É preciso assegurar as condições para termos a Escola Pública de que este país precisa”

Em entrevista ao Esquerda.net, a professora e ativista LGBTI+ Fabíola Cardoso, candidata do Bloco por Santarém, assinala a ausência de um programa estruturado de combate a todas as discriminações e defende que é preciso fazer as pazes com os professores e criar condições de estabilidade nas escolas.
Fabíola Cardoso, candidata do Bloco por Santarém.
Fabíola Cardoso, candidata do Bloco por Santarém.

Porque aceitaste estar na lista do Bloco?

Aceitei entrar na lista porque o Bloco faz falta, é necessário. Se alguém tivesse dúvidas, os últimos quatro anos foram suficientemente esclarecedores. O Bloco é necessário para garantir mais quatro anos de uma política à esquerda, que ultrapasse todas as maleitas que foram deixadas pela troika, pelos governos anteriores. O Bloco é necessário para que se possa fazer uma transição de Portugal para aquilo que o futuro, seja em termos ambientais, seja em termos sociais, exige deste país.

Nas últimas décadas, houve grandes avanços na legislação, o que falta para que esses avanços sejam concretizados?

Falta muita coisa. Falta, por exemplo, Educação. Falta um programa estruturado de combate a todas as discriminações incluindo, especificamente, as questões de orientação sexual e de identidade de género nas escolas. Faltam mudanças a nível no Estado. Por exemplo, é inadmissível que uma criança não tenha, numa escola, um formulário onde não esteja escrito, obrigatoriamente, “pai/mãe”. Parece uma coisa insignificante. Mas é o próprio Estado que tem de se comprometer com mudanças na sua prática que depois contagiem a sociedade. Falta associativismo. Falta movimento gay e lésbico em Portugal, espalhado pelo país, que chegue a Trás-Os-Montes, ao interior alentejano e que promova a mudança social. Mas também falta, ainda falta, visibilidade. Falta que as pessoas saiam do armário. É claro que isso só vai acontecer quando a própria sociedade tiver mudado o suficiente para que as pessoas se sintam seguras. Falta uma outra visibilidade, não só institucional, mas mediática, para que construir uma identidade gay, lésbica, bi, trans, positiva seja um percurso normal para todos os jovens que estão agora a chegar à idade de construir a sua própria identidade. E essa identidade positiva tem de ser um percurso possível e normal para todos os jovens.

És mãe e professora, conheces o sistema de ensino por dentro e por fora. O que é preciso mudar na escola?

É preciso, primeiro que tudo, fazer as pazes com os professores. Os professores têm sido uma classe social, um grupo profissional muito mal tratado nos últimos anos. Não falo só de tempo de serviço e de roubo nesse tempo de serviço, falo também na centralidade do professor no processo de ensino e de aprendizagem. Falta criar condições de estabilidade para que as escolas possam funcionar. Temos, penso eu, um bom enquadramento legislativo neste momento. É preciso dar condições em termos de horários, tempo de serviço, materiais, técnicos especializados nas escolas, funcionários, para que se possa fazer cumprir os normativos legais e para que se possa, de facto, melhorar, e termos a Escola Pública com a gente de qualidade de que este país precisa.

 

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