É “no campo da esquerda” que se tomarão as decisões sobre “o emprego e a saúde”

30 de outubro 2021 - 11:00

Em entrevista ao Expresso, Catarina Martins diz que as próximas eleições vão “determinar as condições” de um entendimento à esquerda que é necessário. Se PS tiver maioria absoluta “não quererá negociar nada”, se não tiver terá de se “reposicionar para fazer um acordo à esquerda que permita avanços pelo emprego e pela saúde”.

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Catarina Martins num comício em Setúbal. Foto de Paula Nunes.
Catarina Martins num comício em Setúbal. Foto de Paula Nunes.

“O Bloco votou em coerência com o seu mandato. Só podia fazer isso.” Em entrevista ao Expresso este sábado, Catarina Martins justifica o sentido de voto do partido na votação do Orçamento do Estado para 2022 com o mandato que lhe foi atribuído nas urnas, admite que o resultado do processo negocial não foi o esperado mas assegura que o partido tentou sempre um acordo. Reitera a este propósito que foi o que se propôs em 2019 “porque era fundamental termos uma legislatura com um horizonte e não andar caso a caso, que cria uma situação pouco saudável”. Só que “António Costa não quis”. Agora, o que está em causa nas próximas eleições, face a uma direita sem projeto e fechada nas suas disputas de liderança, são as condições de um novo entendimento que é necessário à esquerda porque “existe uma maioria que está obrigada a entender-se para dar soluções de futuro ao país”.

A coerência a que a dirigente bloquista se refere deve-se ao facto de que OE “como estava, não ia impedir a degradação das condições de vida e de serviços como o SNS” e o mandato popular atribuído ao partido em 2019 não era para “validar os orçamentos do PS tenham eles o que tiverem”. Para além disso, “é legítimo que o Bloco tenha considerado, depois de uma legislatura em que se recuperaram rendimentos, que este era o momento de mudar as regras do trabalho”. Isto uma vez que “reequilibrar a relação do trabalho foi sempre e continuará a ser” a condição de um projeto à esquerda. “Quando a esquerda desistir disso, desiste de ser esquerda”, diz Catarina que acrescenta que “em Portugal, os salários representam 40% do PIB” e isso “é muito pouco. Quer dizer que a maior parte da riqueza foge a quem a cria, a quem trabalha. Trabalhar não chega para sair da pobreza, esse é o principal problema do nosso atraso”.

Nesta entrevista, a coordenadora bloquista faz também um balanço do processo negocial com o governo. Para ela, “as chamadas contrapropostas” apresentadas pelo governo “foram uma forma de o PS dizer que recusa, tendo um mecanismo retórico para dizer que não estava a recusar”. E, por seu lado, “o Bloco abdicou de muitas propostas para conseguir fazer passos de convergência”.

Assim, nas propostas bloquistas “há claramente caminho para a aproximação” e “a única razão por que inviabilizaram o OE foi porque o PS decidiu criar uma crise política”. Ou seja, António Costa “aproveitou a oportunidade que o PR lhe ofereceu de eleições antecipada” porque “o governo está muito cansado” e o primeiro-ministro “decidiu resolver o cansaço criando uma crise política e lançando-se para eleições” em vez de “lançar plataformas de entendimento mais exigentes” o que é “um erro”.

Catarina Martins avalia também como um “erro” a intervenção do Presidente da República que colocou a decisão de eleições antecipadas sobre a aprovação do OE. “Constitucionalmente não é preciso, há várias soluções que não essa”, defende. Ao fazê-lo, Marcelo Rebelo de Sousa “criou uma situação de crise política que não tinha de criar, eventualmente achando que uma pressão adicional levaria a uma solução” porém isto “acabou por ter o efeito contrário”.

A dirigente bloquista acredita que a solução para esta crise continua a estar no campo da esquerda porque é aí que as decisões se tomam, já que “existe uma maioria que está obrigada a entender-se para dar soluções de futuro ao país”, nomeadamente “para as questões fundamentais do emprego e da saúde.” E “não há margem para não se construírem entendimentos capazes de dar uma perspetiva ao país”. Isso “seria uma irresponsabilidade”.

Nesse sentido, o resultado das eleições vai “determinar as condições para encontrar esses entendimentos” e “se o PS tiver maioria absoluta, não quererá negociar nada. Se não tiver, terá seguramente de se repensar e reposicionar para fazer um acordo à esquerda que permita avanços pelo emprego e pela saúde”. A modalidade de entendimento avançada pelo Bloco é a de “um acordo escrito, um horizonte claro, não só sobre a direção das medidas, mas até sobre o faseamento dos vários passos”.

Quanto à direita, esta “não conta nada para a política nacional neste momento”, “está embrenhada nas disputas sobre lideranças”, “a pensar qual é a barbariedade qb com que pode fazer uma maioria de governo”.