A Estrutura de Acompanhamento dos Memorandos (ESAME) funciona na dependência de Carlos Moedas, o secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro que apareceu sorridente na conferência de imprensa desta semana para deixar elogios ao relatório do FMI intitulado "Repensar o Estado - Opções selecionadas de reforma da despesa" (apenas disponível em inglês). A ESAME integra cinco especialistas, entre os 33 e os 42 anos de idade, com salários mensais que vão até aos 5.775 euros. Apenas um dos quatro recebe menos de 4.000 euros mensais. A equipa fica completa com outros dois elementos, de 26 e 34 anos, identificados como prestadores de serviços no portal do Governo e remunerados com 2.500 euros por mês.
Esta equipa é elogiada no relatório do FMI, a par dos ministros do Governo PSD-CDS, com os autores a fazerem questão "de expressar a sua gratidão ao pessoal do ESAME pela sua marcante coordenação e ajuda logística durante a sua estadia em Lisboa". Mas tudo indica que a função de "acompanhamento dos memorandos" que dá o nome à estrutura não inclui a tradução em tempo útil para língua portuguesa do resultado das revisões do programa da troika. Por exemplo, no início de janeiro, o resultado da quinta revisão concluída em outubro ainda se encontrava apenas em inglês no portal do Governo. Na quarta revisão, de junho, faltavam traduzir três dos quatro anexos que compõem o relatório e o mesmo se passa em relação à terceira revisão, datada de março do ano passado. Quanto à primeira revisão do memorando, feita em setembro de 2011, ficaram por traduzir as 42 páginas do memorando de entendimento sobre os condicionalismos das políticas económicas específicas para o país.
… Mas há quem faça o trabalho do Governo
Se a equipa de Carlos Moedas entende que não é prioritário mostrar as avaliações da troika a quem não consegue ler um documento recheado de terminologia económica em inglês, há quem traduza esses documentos. O texto da quinta avaliação está disponível em português no site Memorandos da Troika, apresentado como o trabalho de "duas pessoas, Nuno e João, portugueses inconformados como tantos outros, decidiram alocar uma parte do seu tempo-livre à defesa da causa pública". Com este trabalho pretendem "disponibilizar aos movimentos sociais, jornalistas, e população portuguesa em geral algo até agora inexistente: uma ferramenta que permita a pesquisa rápida e objectiva na última versão disponível".
Para os autores deste site, a demora do Governo em traduzir as atualizações do Memorando "representa um gravíssimo desrespeito democrático por toda uma população que sofre diariamente as consequências da aplicação cega deste documento, assistindo impotente ao debate político que em torno dele se desenrola". "Se a sua mera divulgação pela internet já seria altamente questionável como forma de informação da população, que dizer sobre a sua disponibilização numa língua que uma larga maioria dos Portugueses não domina?", perguntam os autores.
Relatório do FMI: tradutores precisam-se!
O blogue Aventar, que traduziu a versão original do Memorando assinado por Sócrates, Passos Coelho e Paulo Portas, acaba de lançar mãos à obra na tradução do relatório dos técnicos do FMI revelado esta semana. "Indepententemente de se concordar com o seu conteúdo, é inaceitável que a única versão disponível esteja em inglês", explicam os autores do blogue no apelo à "tradução colaborativa" do documento.
No blogue está o texto completo dividido por parágrafos para que toda a gente capaz de traduzir nem que seja uma pequena parte do documento possa ajudar na tarefa. Basta indicar na caixa de comentários quais os parágrafos que pretende traduzir e enviar por email o texto em português. O blogue publicará em seguida as partes traduzidas, também elas sujeitas a críticas e alterações. Como diz a apresentação da iniciativa, "se muitos traduzirem um pouco, será fácil" ter o documento acessível ao conjunto da população muito antes do Governo tomar essa iniciativa.