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Documentário sobre o golpe no Brasil apontado aos Óscares

O novo filme da cineasta brasileira Petra Costa, "Democracia em vertigem", sobre os últimos anos de crise política no Brasil está a ser bem acolhido pela imprensa internacional. Artigo publicado em Opera Mundi.
Micchel Temer, Dilma Roussef e Lula da Silva na posse da presidente do Brasl. Foto da divulgação do filme.

Lançado na última quarta-feira (19/06) pela plataforma de streaming Netflix, o novo filme da documentarista brasileira Petra Costa, "Democracia em vertigem", ganhou destaque pelos festivais internacionais onde passou e críticas elogiosas na imprensa internacional, ao ponto de ser visto como um potencial candidato ao Óscar de melhor documentário no próximo ano.

Numa lista de documentários favoritos para levar um dos prémios mais importantes do cinema mundial, o site Indie Wire coloca "Democracia em vertigem" como um dos principais concorrentes na disputa pela estatueta.

Ao lado de produções como "Apollo 11", "American Factory", "Maradona" e "Maiden", "a visão da respeitada documentarista brasileira sobre o amedrontador estado do governo brasileiro" é uma das favoritas na categoria por ser um "conto político oportuno e arrepiante sobre a ascensão da extrema direita",  diz o site.

Democracia em Vertigem | Trailer oficial [HD] | Netflix

O fôlego narrativo de Costa para resgatar a cronologia de eventos que levaram o Brasil ao estado atual de crise política parece esperar que o espectador também aguente firme durante uma jornada de lembranças indesejáveis, porém "absolutamente vital", segundo o New York Times.

Apontando para problemas estruturais que podem ser refletidos em várias democracias pelo mundo, a cineasta, continua o NYT, "usa o seu filme para explicar a história complicada do Brasil e para alertar que mesmo uma democracia aparentemente estável e próspera pode cair no caos em um instante".

Traço marcante no estilo de Costa, a narrativa de "Democracia em vertigem" mistura a história pessoal da diretora, cujos pais foram perseguidos políticos pela ditadura militar brasileira (1964-1985), com a trajetória do país. A revista Variety, que classifica o filme como "um documentário vasto e petrificante", destaca o texto da narração da diretora, que afirma temer que “a nossa democracia tenha sido apenas um sonho efémero".

O espetador poderia arriscar dizer que o período conturbado narrado por Costa não passou de um "pesadelo efémero", se não fosse tão presente. "Trata-se de um cinema documental em que os factos se confundem com o sentimento, enquanto passagens de solene e imponente construção do ambiente separam a diferença", afirma a revista. 

Sobre a montagem, Variety ainda destaca os planos abertos em Brasília, filmados com o auxílio de drones, e diz: "é uma visão assombrosa. Uma obra-prima arquitetónica [...], criada com um futuro radical em mente, agora abriga um homem apostado em devolver o Brasil ao seu passado mais sombrio", referindo-se ao presidente Jair Bolsonaro.

"Como um dos países mais progressistas da América Latina se voltou tanto para a direita?", questiona a emissora norte-americana NBC. Como um filme de duas horas de duração pode condensar o caos político em que o Brasil foi jogado nos últimos anos? 

A crítica feita pela emissora afirma que Costa refaz os "passos do Brasil desde os seus primeiros dias fascistas [ditadura militar] até ao período de prosperidade visto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a subsequente queda de seu partido". "O Brasil não é o único país que mudou para políticas mais conservadoras e existe uma lição a ser aprendida de suas últimas reviravoltas políticas."

E para os que podem - e irão - acusar a nova obra de Costa de ser um objeto panfletário, o site The Hollywood Reporter adianta-se e avalia que "o impeachment de [Dilma] Rousseff e o processo criminal de Lula zombaram do Estado de direito". Longe de ser um panfleto, "o documentário [...] tem relevância óbvia para aqueles que estão tentando compreender a ascensão de 'populistas' antidemocratas por todo o mundo".

Além de um retrato político denso e vívido sobre o maior país da América Latina, "Democracia em vertigem" também pode ser assistido como "um thriller político, ao estilo de ‘Os Homens do Presidente', [...] com um toque de ‘O Padrinho'", publica o portal Screen Daily. Petra Costa "oferece uma visão emotiva do interior da alma conflitante do Brasil", conclui.

O estilo da narrativa particular de Costa também ganha destaque na crítica feita pelo portal Firstshowing.net, que afirma que a obra "não é uma história documental chata, mas um filme profundamente pessoal". "Esse tipo de inserção pessoal num documentário pode, às vezes, prejudicar o filme, mas aqui o eleva e enriquece a narrativa, fazendo parecer que um bom amigo está a contar-nos a história do seu país e a razão para ele se estar a desmoronar”.

"Um filme como nenhum outro" e "jornalisticamente ousado" foi a maneira como a revista POV caracterizou o documentário de Petra Costa. "Esse trabalho altamente pessoal e altamente político lança luz nos aspectos únicos da situação do Brasil, mas também nos cenários em constante mudança que permeiam os sistemas ocidentais enquanto forças de mudança empurram as populações cada vez mais adiante para o limite da democracia cercado pelo desconhecido", diz.

Após cativar as plateias dos festivais de Sundance, CPH:docs e True/False, "Democracia em vertigem" ainda levará o retrato vertiginoso do Brasil para sessões nos Estados Unidos no IFC Center, Lammla at Monica Film Center e Nantucket Film Festival, e na Nova Zelândia, participando do Doc Edge Festival.


Artigo publicado no portal Opera Mundi. Adaptado para português de Portugal por esquerda.net

 

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