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Do avesso e da abstração

Desde o Maio de 1968 aos movimentos Occupy, têm sido múltiplos os contextos e as reivindicações com um longo e multifacetado percurso teórico, crítico e empírico, e que são hoje uma fonte vital de experiência e conhecimento. Por Rui Matoso
Vestidos de Yves Saint Laurent inspirados em Mondrian (1965)

Eu era Hamlet. Estava à beira-mar e falava, com a ressaca, na língua do blablablá.
Atrás de mim, as ruínas da Europa.
Heiner Müller

O desejo revolucionário de abolição da sociedade mercantil e de criação de uma sociedade que exalte a vida, em vez da economia parasitária, irrompeu por diversas vezes e com grande intensidade no seio das sociedades burguesas contemporâneas. Desde o Maio de 1968 aos movimentos Occupy, têm sido múltiplos os contextos e as reivindicações com um longo e multifacetado percurso teórico, crítico e empírico, e que são hoje uma fonte vital de experiência e conhecimento.

O tempo presente encontra-se globalmente subjugado a um processo paradoxal de desencantamento do mundo. A contínua demanda “neopositivista” do santo graal da quantificação, matematização, digitalização e valorização monetária da vida, representa o avesso de uma vivência mais plena e é o legado da marcha triunfante do capitalismo em direção ao abismo da abstração antropofágica.

Os incrementos de velocidade do cálculo informático têm servido sobremaneira ao desígnio do controle e domínio da terra e da humanidade, e uma tentativa de erradicar o risco e o imprevisível associados aos investimentos das multinacionais controladas pelo 1% dos oligarcas mundiais. Sejam os cálculos de cariz económico-financeiro nas fórmulas dos algoritmos dos derivativos processados em supercomputadores e usados nas operações de alta-frequência em Wall Street (ciberfinança); sejam os dos algoritmos complexos da “Big Data” que permitem aos magnatas da economia digital criar perfis cada vez mais sofisticados dos utilizadores-mercadoria; sejam os códigos dos programas de espionagem e militarização do ciberespaço; ou ainda dos algoritmos genéticos criados para desvendar o genoma humano e as suas aplicações biotecnológicas. Todos eles convergem naquilo que Deleuze diz acerca linguagem numérica do controle, a qual é feita de “cifras, que marcam o acesso à informação, ou a rejeição. Não se está mais diante do par massa-indivíduo. Os indivíduos tornaram-se 'dividuais', divisíveis, e as massas tornaram-se amostras, dados, mercados ou 'bancos'.” (Post- scriptum sobre as Sociedade de controle).

Não há esfera da vida pública que escape hoje ao domínio do new management, da quantificação de metas e indicadores, de cenários e simulações sofisticadas, elaborados pelos mais eméritos e infalíveis gurus da gestão e da economia. No entanto isso pouco serviu para a ruína económica vigente, e de pouco servirá no futuro, até porque a origem da crise de 2007/08 como bem se sabe está na contínua desregulação do sistema financeiro e não na falta de conhecimentos ou de instrumentos técnicos de gestão. É contudo compreensível que em tempos de elevada falta de liquidez se apurem os mecanismos de cálculo do retorno do investimento, todavia mais importante ainda que a adaptação osmótica ao “aquário” neoliberal é o esforço empreendido na metamorfose crítica das instituições sociais.

Mas, se entendermos que a modernidade é dominada pela ideia da história do pensamento como 'iluminação' progressiva, o séc. 19, no seu “devir fantasmático”1, é o berço onde os positivistas se esforçavam por impor a visão de uma ciência experimental e de um conhecimento dos fenómenos mensuráveis (o mundo é reduzido à sua aparência mensurável e científica). Se nessa época vitoriana a ascensão do positivismo representou o desencantamento do mundo, por mais paradoxal que possa parecer equivaleu simultaneamente a um novo reencantamento, mobilizado pela forma como as tecnologias da imagem (na sua emergência histórica) foram usadas para produzir “fantasmagorias” - espetáculos mágicos e assombrações destinadas às populações enfeitiçadas com as maravilhas da técnica e da ciência. Com algumas nuances o mesmo se poderá dizer do séc 20, e da ascensão paralela do neoliberalismo e das novas tecnologias da informação e comunicação. Só posteriormente, com o desenvolvimento da análise crítica, sustentada na filosofia marxista, se elaborou uma visão mais completa da sociedade do espetáculo moderna, designadamente através das noções de fetichismo da mercadoria e da teoria do valor abstrato.

Se para Guy Debord o espetáculo é a principal produção da sociedade atual, isto significa que tudo o que dantes era diretamente vivido se afastou numa representação e que a nossa apreensão do mundo se faz pela mediação das imagens produzidas por outros poderes. Levado a um extremo pelas tecnologias da imagem e da simulação, o espetáculo é hoje em dia a forma que o capitalismo assumiu quando a economia financeira domina a totalidade social enquanto sociedade da abstração, e na qual a “mercadoria reduziu tudo a simples quantidades; a qualidade já não existe senão como imagem que se propõe à admiração dos espectadores” (Anselm Jappe, Uma conspiração permanente contra o mundo), incluindo, obviamente, a espetacularização da política e a sua redução ao spot publicitário.

Assim, é fácil de perceber que estamos exatamente no avesso daquilo que o prémio Nobel da economia (1998) Amartya Sen considerava ser o desenvolvimento como liberdade, orientado para a expansão das liberdades substantivas e para a participação ativa dos cidadãos na construção da democracia. Hoje, cada vez mais afastados do cerne da política e da democracia pelo dispositivo global de dominação (mediação, abstração e simulação), os cidadãos transformam-se eles mesmos em mercadorias abstratas no imenso labirinto dos mecanismos dos mercados financeiros. Nessa confrontação o que está em causa é a batalha pela formação das subjetividades e pela individuação psicológica e coletiva, e cujo principal oponente é a coligação entre capitalismo cognitivo e o dispositivo militar-económico da violência ubíqua.

Do avesso está também a nossa relação com a natureza, abstraídos numa intensa instrumentalização e exploração dos limites dos ecossistemas naturais, cujo motor é a insistente retórica do crescimento económico predador, disseminada pelas poderosas multinacionais da agroindústria transgénica e dos agrotóxicos.

Agora, acossados pela colonização totalitária da interioridade e pela destruição compulsiva do meio ambiente, imersos na mais eficaz e reificante forma de alienação, e a meio de um processo de desencantamento do mundo - mas ainda na ressaca do encantamento fetichista provocado pela panóplia de gadgets em que estamos imersos – temos a missão de imaginar e construir um outro mundo possível, mais concreto e favorável à vida plena. Nada de menos!

Artigo de Rui Matoso para esquerda.net

1 Sobre o movimento desencantamento/reencantamento do mundo e a influência do positivismo no Séc 19, vide: https://www.academia.edu/8145584/As_imagens_tecnicas_e_o_devir_fantasmatico_da_visao_moderna_-_da_genese_de_uma_modernidade_assombrada_a_obra_de_Harun_Farocki

Sobre o/a autor(a)

Investigador e docente universitário
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