Está aqui

Discurso sobre a cegueira

Se eu fosse português e, primeiro-ministro, e quisesse uma vez mais disfarçar a falta de um pensamento político próprio e de um ideia de democracia para o mundo, diria lastimosamente que o drama da Líbia foi “uma espécie de 25 de Abril”... Texto do nosso leitor António dos Santos Queirós

Se eu fosse líbio sentiria sobretudo o horror da guerra, mais de 50 mil mortos e a destruição das infra-estruturas de saúde, educação, energia, água e saneamento, comunicações, etc… guerra civil de irmãos contra irmãos, o trauma insuportável dos meus filhos e dos meus netos, rios de sangue, feridas incuráveis na minha nação, sofrimento e horror, horror sem limites da guerra.

Se eu fosse árabe veria a intervenção dos aviões da NATO, mas também dos comandos transportados nos barcos furtivos e nos helicópteros Apache bombardeando e metralhando militares e civis sem nenhuma piedade pelas convenções internacionais, resoluções da ONU ou controle mediático, veria esta força brutal como uma ingerência nos problemas internos da Líbia, o eterno retorno da intervenção militar estrangeira agora sob a bandeira da cruzada moderna pela democracia liberal.

Se eu fosse africano reconheceria na guerra a continuação da violenta disputa entre as potências ocidentes para o controle e o reparto do petróleo africano, companhias francesas e inglesas a reclamar a partilha da quota que os italianos dominavam, e seguiria o seu rasto sangrento desde as guerras mundiais até às primeiras invasões da expansão europeia.

Se eu fosse cidadão líbio choraria a perda do maior índice de Desenvolvimento Humano da África, 0,847, na escala 0-1: Fecundidade: 3,5 filhos por mulher. Expectativa de vida M/F: 72/76 anos. Mortalidade infantil: 18 por mil nascimentos. Analfabetismo: 15,8%; se eu fosse estudante líbio temeria pelo futuro do ensino gratuito até à Universidade e por já não saber se voltaria a ter a oportunidade de me tornar num dos 10% dos alunos universitários que estudam na Europa, EUA, etc...com tudo pago; se eu pertencesse a um dos jovens casais temeria pela perda do subsídio de casamento que recebia, até 50.000 US$ para adquirir os bens de família; se eu fosse empresário líbio perguntar-me-ia se a nova coligação no poder, apoiada pelos líderes políticos conservadores da Europa aceitará que o Banco estatal continue a emprestar dinheiro sem juros; se eu fosse um árabe líbio (97% da nação), africano, turco ou berbere, cidadão das modernas cidades (78% da população), olharia com o coração dividido a história do regime, a esperança inicial nos oficiais nacionalistas e revolucionários de 1969 liderados por Kadafy e a sua corrupção e prepotência, o estéril deserto e o maior sistema de irrigação do mundo (Aquífero da Núbia), o sistema médico gratuito e o nosso petróleo derramado e em chamas, que tem a melhor qualidade do planeta, em volume superior a 45 bilhões de barris em reservas; recearia pelo futuro do Banco Central Líbio, independente do sistema financeiro mundial e das suas reservas em toneladas de ouro, base da estabilidade do dinar, a moeda nacional…

Se eu fosse uma mulher líbia temeria pelos direitos que conquistara com a minha emancipação.

Se eu fosse um jornalista com poder sobre o preconceito e a censura da minha redacção relataria tudo isto e perguntaria, perguntaria mil vezes, quem são os homens que disparam as armas perante as Câmaras? Quem são os grupos armados até aos dentes, que o olho único das câmaras capta sempre com a mesma imagem? Porque não há uma única mulher empunhando a arma no seu seio? Quem são esses chefes engravatados que passeiam o seu modo ocidental pelas chancelarias ocidentais e porque não há de novo uma única mulher sentada nas novas cadeiras do poder? Sobretudo, perguntaria às portas cerradas, às janelas fechadas, o que pensa o povo líbio desarmado?

Se eu fosse venezuelano apoiaria o meu presidente desde a primeira hora da guerra civil, propondo uma solução negociada e pacífica que conduzisse à implantação da liberdade política e à realização a curto prazo de eleições democráticas, que destronariam Kadafi e a sua corte, toda a sua corte, incluindo os trânsfugas, arrependidos e convertidos à democracia das bombas DU (urânio empobrecido), as bombas, balas e mísseis “sujos” que continuarão a matar com a sua radiação durante 3 biliões de anos (sim, são mesmo 3 biliões), não apenas as vítimas mas também os militares profissionais usados como carne para canhão, aquelas armas ultramodernas que os media e os canais Discoveries, ou mesmo a National Geography, apresentam como maravilhas da técnica, mas a quem Terry Jemison, do Department of Veterans Affairs, em depoimento à American Free Press acusou de serem responsáveis pela tragédia que se abateu sobre os veteranos da era do Golfo, cujas incapacidades médicas desde 1991 chegam a 518.739, comparados com 7.035 feridos no Iraque no mesmo período de 14 anos (Leuren Moret) e estamos a falar de cancros devastadores, alterações e deformações genéticas.

Se eu fosse da AlQaeda, estaria agora a afiar os meus punhais sob a protecção dos petrodólares sauditas e o meu coração exultaria de ódio e vingança, pois à porta das escolas corânicas e das suas mesquitas, sentiria já a chegada de novos milhares e milhares de voluntários para o martírio, desenganados das proclamações ocidentais sobre o apoio aos direitos humanos e à liberdade e democracia das nações árabes, clamando também eles em defesa do povo do Bahrein, o pequeno estado com a maior base americana do médio oriente, invadido recentemente pelo exército dos cheques feudais sauditas, a revolta popular sufocada em sangue e em silêncio cúmplice ocidental.

Se eu fosse europeu ou ocidental e tivesse memória, recordar-me-ia de Timor, onde a resistência popular forçou a pressão política e o cerco internacional das democracias ao regime militar da Indonésia, impondo eleições democráticas e com elas o fim dos tiranos e dos governos de fantoches. E guardaria viva a mentira do Iraque, que justificou uma guerra sem fim nem democracia e o novo Vietname do Afeganistão, onde o sacrifício inútil dos jovens soldados das democracias americana e ocidentais são o maior libelo acusatório contra os juízes do Nobel de Estocolmo que tão cedo premiaram a vontade de paz do novo presidente americano, por quem o mundo teme, contra os conspiradores que abatem pelas costas os melhores dos líderes americanos, mas a quem o mundo receia por já não ter o controlo do seu Estado, nem do capital financeiro, nem da indústria da guerra e do petróleo, que agora é crise ambiental e nuclear.

Mas se eu fosse português e, primeiro-ministro, e quisesse uma vez mais disfarçar a falta de um pensamento político próprio e de um ideia de democracia para o mundo, diria lastimosamente que o drama da Líbia foi “uma espécie de 25 de Abril”, já que não passo de mais um pobre cego, um dos cegos do ensaio do nosso (grande) Saramago!

Coimbra, 4 de Setembro de 2011

António dos Santos Queirós

Termos relacionados Comunidade
(...)