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Dirigente sindical da polícia demitiu-se por ter alertado para racismo na instituição

Manuel Morais era vice-presidente da Região Sul da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia. Num programa televisivo falou sobre a existência de racismo na instituição. Acabou por ser vítima de uma onda de indignação que até incluiu ameaças de morte. Foi assim obrigado a demitir-se esta segunda-feira.
Foto de ASPP/facebook

Na passada quinta-feira, a SIC transmitiu a primeira de uma série de três grandes reportagens sobre violência policial e racismo. Nela, sobressaiu a imagem de um dirigente sindical da polícia que se atreveu a falar sobre a existência de racismo na instituição. Limitava-se a dizer que há necessidade de “desconstruir” o preconceito “na sociedade em geral” e a assumir que também existe racismo na polícia. Mas foi demasiado.

A partir daí as pressões para se demitir começaram a chegar ao sindicato e a manifestar-se nas redes sociais. Fez-se até uma petição pública com o objetivo de o afastar que o acusava de ter um “triste papel ativo” nas “acusações de racismo e xenofobia que têm fustigado injustamente as instituições policiais do nosso país, principalmente a PSP”.

Manuel Morais queixa-se ainda que, depois das suas declarações, foi alvo de vários tipos de ameaças por parte de elementos da extrema-direita. E que inclusivamente lhe chegaram ameaças de morte.

Finalmente, esta segunda-feira Manuel Morais acabou por apresentar a sua demissão. Era ativista sindical há cerca de 30 anos.

Manuel Morais é polícia, fazendo parte do Corpo de Intervenção, e também antropólogo. Tirou um mestrado na área abordando precisamente esta temática. Depois de ter apresentado a sua tese, “Relações das Polícias com os Jovens dos Bairros Periféricos”, em maio do ano passado, já a contestação tinha surgido. Mas então a ASPP parecia não estar disposta a ceder.

Bem antes da reunião onde se deu a demissão, um comunicado da ASPP desresponsabilizava-se pelas declarações do seu dirigente e declarava que iria retirar “as necessárias ilações e consequências desta situação.

Ao Diário de Notícias, o ex-dirigente sindical é claro sobre o que passou: “sou demitido porque penso, porque sou um cidadão livre”. E mantém-se firme nas suas convicções: “não recuo um milímetro no que expressei. Vou continuar a minha luta fora da ASPP. Nunca irei desistir daqueles que são as grandes linhas da minha vida: uma sociedade e uma polícia melhor! Serão os meus objetivos até ao último dia da minha vida”.

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