As epidemias e pandemias não são novidade. Um olhar sobre a história da humanidade é suficiente para mostrar que a luta das pessoas contra as doenças infecciosas tem sido constante. A Peste Negra, a cólera, a tuberculose, a gripe, a febre tifóide e a varíola são apenas alguns exemplos de doenças que deixaram cicatrizes indeléveis.
Cada doença requer ações específicas e a implementação de diferentes mecanismos de prevenção, resposta e tratamento. Por este motivo, é essencial identificar as origens e os padrões de ocorrência de agentes patogénicos.
Neste sentido, cerca de 60% das doenças infecciosas emergentes comunicadas globalmente são zoonoses (transmitidas de animais para seres humanos). As estimativas sugerem que cerca de mil milhões de pessoas em todo o mundo adoecem e milhões morrem todos os anos em resultado de eventos zoonóticos. E dos mais de 30 novos elementos patogénicos humanos detetados nas últimas décadas, 75% tiveram origem em animais.
O recente aparecimento de várias doenças zoonóticas – gripe aviária H5N1, gripe aviária H7N9, VIH, Zika, vírus do Nilo Ocidental, síndrome respiratório agudo severo (SRA), síndrome respiratório do Médio Oriente (MERS), doença do vírus Ebola ou Covid-19 (SRA-CoV2) – colocaram sérias ameaças à saúde humana e ao desenvolvimento económico global.
São geralmente imprevisíveis, pois muitos têm origem em animais e são causadas por novos vírus que só são detetados após um surto. No entanto, há pelo menos dez fatores que sabemos com certeza que estão ligados ao aparecimento de uma futura epidemia ou pandemia. Eis a lista:
1. Guerras e fomes
Os danos causados pela guerra são muitos e complexos. As mortes, os ferimentos e as deslocações forçadas são os mais óbvios. Mas a emergência de epidemias infecciosas está também intimamente ligada à guerra.
Em 2006, foram notificados surtos de cólera em 33 países africanos, 88% dos quais provenientes de países afetados por conflitos. Nos últimos anos, vários países do Médio Oriente e África sofreram surtos infecciosos como efeito direto da guerra, agravados pela escassez de alimentos e água, deslocações e danos nas infraestruturas e serviços de saúde
2. Alteração do uso do solo
A alteração do uso do solo é uma modificação do ecossistema induzida pelo homem. Estas alterações podem afetar a abundância e distribuição da fauna selvagem e torná-la mais suscetível à infeção por agentes patogénicos. Além disso, ao criar novas oportunidades de contacto, facilitam o movimento de agentes patogénicos entre espécies, conduzindo, em última instância, à infeção humana e a uma maior propagação de agentes patogénicos.
3. Desflorestação
Com a desflorestação e a fragmentação da floresta favorecemos a extinção de espécies especializadas em habitats, permitindo que as generalistas prosperem. Comprovou-se que as espécies de vida selvagem que são hospedeiras de agentes patogénicos, em particular morcegos e outras espécies de mamíferos tais como roedores, são relativamente mais abundantes em paisagens manipuladas pelos seres humanos, como os ecossistemas agrícolas e as áreas urbanas, do que em locais adjacentes não perturbados.
O estabelecimento de pastagens, plantações ou explorações pecuárias intensivas perto das margens da floresta pode também aumentar o fluxo de agentes patogénicos da fauna selvagem para os seres humanos.
4. Urbanização descontrolada e aumento da população
As alterações demográficas na dimensão e densidade populacional através da urbanização afetam a dinâmica das doenças infecciosas. Por exemplo, a gripe tende a exibir surtos mais persistentes em regiões urbanas mais povoadas e densas.
5. Alterações climáticas
As alterações climáticas aumentam o risco de transmissão viral entre espécies. Muitas espécies de vírus ainda são desconhecidas, mas é provável que tenham a capacidade de infetar seres humanos. Felizmente, a grande maioria circula atualmente silenciosamente em mamíferos selvagens. No entanto, o aumento das temperaturas levará a migrações em massa de animais que procuram condições ambientais mais amenas, facilitando o aparecimento de pontos críticos para a biodiversidade. Se alcançarem áreas de alta densidade populacional humana, principalmente na Ásia e em África, surgirão novas oportunidades de propagação zoonótica aos seres humanos.
Previsões recentes com cenários de alterações climáticas apontam para um aumento de 4.000 vezes na transmissão de vírus entre espécies em 2070.
6. Globalização
A globalização facilitou a propagação de numerosos agentes infecciosos a todos os cantos do globo. A transmissão de doenças infecciosas é o melhor exemplo da crescente porosidade das fronteiras. A globalização e o aumento da conetividade aceleram a potencial emergência de uma pandemia devido ao constante movimento de microrganismos através do comércio internacional e dos transportes.
7. Caça, comércio e consumo de carne de animais selvagens
A transmissão de doenças zoonóticas pode ocorrer em qualquer ponto da cadeia de abastecimento de carne de animais selvagens, desde a caça no meio selvagem até ao ponto de consumo. Os agentes patogénicos que foram transmitidos aos humanos a partir da carne de animais silvestres são numerosos e incluem, entre outros, o VIH, o vírus Ébola, o vírus da imunodeficiência dos símios ou o vírus da varíola do macaco.
8. Tráfico de espécies ilegais e mercados de vida selvagem
Um ecossistema natural, com um elevado grau de riqueza de espécies, reduz a taxa de encontro entre indivíduos suscetíveis e infecciosos, diminuindo a probabilidade de transmissão de agentes patogénicos. Em contraste, mercados de animais vivos e recintos dedicados a esconder animais para comércio ilegal são locais onde espécies animais de todos os tipos estão enjauladas e sobrelotadas.
Em tais circunstâncias, não só partilham o mesmo espaço pouco saudável e não natural, como também vetores de doenças ectoparasitários e endoparasitários. Os animais sangram, babam, defecam e urinam uns sobre os outros, levando à troca de microrganismos patogénicos e parasitas, forçando interações entre espécies que nunca deveriam ocorrer.
9. Evolução microbiana
Os microrganismos estão em constante evolução em resposta a pressões de seleção indiretas e diretas no seu ambiente. Um exemplo claro é o vírus da gripe A, cujo reservatório ancestral são as aves aquáticas, a partir das quais conseguiram infetar outros tipos de animais.
Outro exemplo claro da capacidade de adaptação rápida dos microrganismos é o desenvolvimento global de muitos tipos de resistência antimicrobiana em agentes patogénicos humanos comuns.
10. Colapso do sistema de saúde pública
Nas últimas décadas, em muitos países, tem havido uma retirada gradual do apoio financeiro aos sistemas de saúde pública. Isto dizimou as infraestruturas essenciais e necessárias para fazer face a surtos repentinos. A recente emergência rápida de novas ameaças de doenças infecciosas como a Covid-19, juntamente com o ressurgimento de doenças mais antigas como o sarampo e a tuberculose, tem implicações importantes para os sistemas globais de saúde pública.
Devemos estar conscientes de que a preparação contra possíveis epidemias e pandemias futuras exige um estudo exaustivo e consciencioso dos fatores potenciais que facilitam o aparecimento de doenças infecciosas. Uma análise cuidadosa e crítica permitirá a conceção de futuras estratégias de previsão e prevenção.
Raúl Rivas González é professor de Microbiologia na Universidade de Salamanca.
Publicado originalmente no The Conversation. Traduzido por António José André para o Esquerda.net.