Calhou que nesta semana me chamaram para ir preencher as folgas dos efectivos. Das dezoito às duas da manhã que, na verdade, são três porque há que arrumar tudo para o dia seguinte. Dez horas de trabalho com meia hora para meia dose a que chamam jantar.
Setenta e cinco euros, vinte e cinco por noite, dois euros e sessenta e três cêntimos por hora. Servir médias e minis, bocks e sagres, consoante as simpatias de cada um, tostas mistas, pratos do dia, uns vegetarianos, outros sem glúten, alguns cafés escorridos, pingados, “sem princípio”, curtos, cheios, gins, licores beirões, chás para a mesa sete, dezoito, vinte e dois, e para a esplanada, e para a ficar na conta e sobremesas, e somersby com gelo e limão e etecetera...
Conceber um blogue, gerir a informação, dar destaque a certo conteúdo, aliás, escrevê-lo, organizar textos e imagens, tirar as fotografias, reunir as crónicas, definir a linha editorial, actualizar a base de dados de sócios, fazer telefonemas, enviar o mailling, etecetera. A seis euros por hora com o limite máximo de oito horas por semana.
Pesquisar, hierarquizar a informação segundo a sua relevância e pertinência, estruturar o texto, supor a citação da directora executiva, estar a par dos produtos turísticos estratégicos, do dados estatísticos reveladores do impacto da procura no mercado interno alargado, criar notícia, nota de imprensa, assessoria. A oito euros e vinte e oito cêntimos à hora.
Sem contractos, sem recibos, sem segurança social, sem retenção na fonte, sem férias, sem folgas.
Hoje sim, amanhã não.
Depois?
Não sabemos!
E acordamos com a estranha sensação de que já não somos os mesmos. Não estabelecemos compromissos, não acertamos datas nem horários, não nos vinculamos a ninguém, não encetamos relações novas a não ser que sejam convenientemente superficiais, tudo se torna frouxo, desligado, fios pendentes, tudo perene, efémero, passageiro e volátil.
Mercê da necessidade primária da sobrevivência, há um dia em que tudo deixa de ser conjuntural para passar a fazer parte da estrutura e sabemos que estamos impregnados de precariedade em todas as esferas da nossa vida que a do trabalho contaminou.
Andamos a empatar, preencher vazios sem perspectivas de futuro, antecipando a morte profissional e uma pegajosa desumanização.
A inconstância própria da precariedade altera-nos os valores mais elementares.