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Destemidas – Mulheres que só fazem o que querem

Neste livro de Pénélope Bagieu, não encontraremos apenas as mulheres que habitualmente surgem (quando surgem) nos livros de História. Aqui, a maior parte delas são muito pouco conhecidas. Por Marco Marques.

A versão portuguesa do primeiro livro da série Destemidas: Mulheres que fazem o que querem (Cullotées, na versão original), da ilustradora francesa Pénélope Bagieu, foi recentemente editada pela editora LEVOIR, em parceria com o jornal Público. Este primeiro trabalho, que já se encontra traduzido em pelo menos 11 línguas, descreve a vida de 15 mulheres que contribuíram, com as suas ideias e os seus gestos, para o avanço da sociedade ou simplesmente para contrariar a ideia do impossível.

Esta não é a sua primeira incursão numa novela gráfica de registo biográfico. A ilustradora francesa tirou o curso de animação na Escola Superior de Artes Decorativas de Paris e vive actualmente nos Estados Unidos da América. Em 2015, publicou o livro California Dreamin’, uma biografia, em banda desenhada, de Mama Cass, a vocalista da banda The Mamas and The Papas. 

Inicialmente publicada no blogue do Le Monde (ainda disponível on-line), esta série de pequenas biografias de três dezenas de mulheres surgiu de um projecto proposto pela autora ao jornal francês, o qual, depois de aceitar o desafio, publicou as histórias semanalmente e durante um ano. Porém, as histórias ganham com esta publicação em livro. Por exemplo, no final de cada biografia, a ilustradora oferece-nos uma ilustração de duas páginas, como que a pedir a quem a lê que pare para pensar um pouco na vida da personagem, antes de avançar, avidamente, para a próxima prancha. A capa da edição portuguesa segue a da edição francesa, ao contrário da versão inglesa que escolheu enquadrar os rostos de 12 das mulheres retratadas com uma cintilante expressão do feminismo: o símbolo de Vénus com o punho fechado.

Neste livro, não encontraremos apenas as mulheres que habitualmente surgem (quando surgem) nos livros de História. Aqui, a maior parte delas são muito pouco conhecidas. Quem conhece Georgina Reid, a mulher que salvou um farol nos EUA? Ou Agnodice, a ginecologista da Grécia Antiga que se disfarçou de homem para poder exercer medicina? Mas, também constam do livro caras mais conhecidas como a de Josephine Baker ou as irmãs Las Mariposas, sempre com detalhes incríveis sobre as suas vidas. Com um traço bastante livre e alegre, com o recurso à cor de uma forma bastante económica, porém, eficaz e com uma incrível capacidade de síntese (todas as histórias têm 7 ou menos páginas), a autora acompanha as personagens desde o seu nascimento até à sua morte, passando pelos episódios mais marcantes do seu percurso.

No interessante prefácio da edição portuguesa, Joana Fernandes conta-nos como a publicação original deste livro coincidiu com a 43ª edição do Festival Internacional de Banda Desenhada em Angoulême (um dos maiores festivais de BD do mundo, o maior de França): “Umas semanas antes do festival começar, gerou-se uma onda de indignação motivada pela ausência de mulheres na selecção para o seu galardão mais importante, o Grande Prémio. Aproveitando o ruído nos media e nas redes sociais, a editora antecipou o lançamento de Destemidas.” Diz-nos também a autora do prefácio que na mesma altura foi divulgado um estudo sobre a precariedade laboral no sector da BD francesa, indicando que esta tem maior incidência no grupo as autoras femininas: “Esta situação de precariedade motivou uma manifestação durante o festival, em que Pénélope Bagieu esteve presente, defendendo melhores condições para os profissionais e igualdade de condições para as mulheres.”

Na verdade, Bagieu é também uma feminista comprometida. Numa entrevista à revista Les Inrockuptibles, onde também fala sobre Trump e o perigo da extrema-direita em França, ou sobre o seu envolvimento na Women’s March, a autora assume que por vezes parece que a palavra feminista é considerada “diabólica”, quando afinal significa simplesmente “querer a igualdade entre homens e mulheres”. E deixa o aviso às pessoas que gostam das suas novelas gráficas: “Se gostas da minha BD, tu és feminista.”

Uma última curiosidade, relacionada com a edição polaca deste livro. Numa entrevista ao site de BD “The Beat”, Bagieu conta como a editora polaca lhe pediu para retirar uma das histórias. Tratava-se da história de Thérese Clerc, uma activista da luta pelo aborto livre em França. A autora recusou que esta história fosse retirada e conseguiu. Esta não poderá ser lida no primeiro livro publicado em Portugal, mas constará do segundo volume com certeza. E, enquanto esperamos, podemos demorar-nos a conhecer Clémentine Delait – A mulher barbuda, Nzinga – Rainha do Ndongo e Matamba, Margaret Hamilton – Actriz aterrorizadora… e tantas outras mulheres que só fizerem o que queriam, e assim conseguiram dobrar o impossível.

Artigo publicado na revista Esquerda nº1 em março de 2019

Sobre o/a autor(a)

Engenheiro florestal
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