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Desigualdade não parou de crescer na Europa desde 1980

Um estudo do Laboratório Mundial da Desigualdade conclui que nas últimas décadas não houve convergência real de rendimentos entre países europeus. O acesso universal a serviços públicos é o travão a um aumento maior da desigualdade na Europa.
Foto de Paulete Matos.

Elaborado por Thomas Blanchet, Lucas Chancel e Amory Gethim, o estudo publicado esta semana pelo Laboratório Mundial da Desigualdade introduz uma nova metodologia que faz a análise sistemática do rendimento antes e depois de impostos de cada classe de rendimentos em cada país, permitindo assim perceber o efeito dos diferentes sistemas de redistribuição no fosso de rendimentos.

“É a primeira vez que todas as fontes sobre distribuição de rendimentos — inquéritos e dados sobre impostos e contas nacionais — são utilizados e combinados através de uma metodologia consistente. Assim, somos agora capazes de seguir a forma como o crescimento do rendimento nacional foi distribuído nas últimas quatro décadas com maior precisão do que antes, em particular para os rendimentos mais altos”, afirma Thomas Blanchet. Sem surpresa, são os países da Europa do Norte que revelam maior eficiência na redistribuição do rendimento.

E o que dizem os números? A desigualdade de rendimentos tem vindo a aumentar na Europa desde 1980, embora de forma menos pronunciada do que nos Estados Unidos. Os 0.001% europeus mais ricos viram o seu rendimento crescer 200%, ou seja, cinco vezes mais depressa do que os 80% com menos rendimento, que aumentou 40% no mesmo período.

Evolução da desigualdade no rendimento entre 1980 e 2015 nos EUA e Europa.
A linha vermelha mostra a fatia do rendimento total detido pelos 1% mais ricos e a linha azul a dos 50% menos ricos.


A maior resiliência do modelo europeu em comparação com os EUA “deve-se mais à maior igualdade do rendimento antes de impostos (nomeadamente através dos serviços públicos) do que à eficiência do sistema redistributivo fiscal”, aponta o relatório. Amory Gethin sublinha que “os salários mínimos, proteção social, saúde universal e acesso igual à educação são a chave para assegurar um crescimento mais inclusivo”.

"É preciso assegurar que as multinacionais e os indivíduos ricos pagam a sua fatia justa de impostos"

Para Lucas Chancel, este estudo mostra que “as desigualdades entre os cidadãos europeus são essencialmente um assunto interno de cada país — há alemães pobres e gregos ricos. A questão principal não é então o aumento das transferências entre países europeus, mas como esses países se coordenam para se assegurarem que as multinacionais e os indivíduos ricos pagam a sua fatia justa de impostos — de forma a financiarem adequadamente os serviços públicos que são a base fundamental do modelo social europeu”.

O estudo indica que a fatia do rendimento nas mãos dos 10% de europeus mais ricos se situa um pouco abaixo de um terço do total, com tendência de subida nos últimos 40 anos, em particular no leste europeu (de 20.7% para 31.4%) por causa da transição para o capitalismo nos anos 1990. Mas também o norte da Europa viu essa fatia crescer de 23.5% para 29.1%. Nos países do Sul europeu, essa desigualdade já existia e sofreu um aumento ligeiro (de 29.1% para 31.3%), sendo no entanto ultrapassada pelos países da Europa de Leste e Ocidental (ver gráfico em baixo).

Olhando apenas para o crescimento dos rendimentos antes de impostos  dos 1% europeus mais ricos nos últimos quarenta anos, verifica-se que rondou os 90%, face a um aumento de 20% na fatia dos 10% mais pobres.  

Ainda assim, quando comparado com o cenário dos Estados Unidos, a diferença é gritante. Enquanto os rendimentos dos 50% mais pobres evoluiu 37% na Europa desde 1980, esse crescimento na mesma fatia da população foi apenas de 3% nos EUA.

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