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Desculpas por massacre de Wiriamu é “um passo”, mas “precisamos de descolonizar a história”

Em entrevista ao Público, a historiadora moçambicana Maria Paula Meneses afirmou que o pedido de desculpas de António Costa pelo Massacre de Wiriamu de 1972 “devia obrigar-nos a olhar para a história de Portugal e a questão colonial”.
Imagem do Museu do Aljube.

Maria Paula Meneses, moçambicana, antropóloga e historiadora classifica o pedido de desculpas do primeiro-ministro de “corajoso”. Diz que vem em linha com o que já fizeram outros países europeus e defende que é necessário criar “comissões de verdade e reconciliação” sobre os crimes de guerra.

Questionada pela jornalista Joana Gorjão Henriques sobre como olha para o pedido de desculpas de António Costa aos moçambicanos pelo massacre de Wiriamu, Maria Paula Meneses, antropóloga, historiadora moçambicana e investigadora coordenadora no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, referiu que este “foi o primeiro passo” para “o reconhecimento sobre o que foi a violência colonial”.

Maria Paula Meneses sublinhou, todavia, que “no meio disto há uma questão muito grande: como se vai recontar a história da Europa sobre estes não ditos e estes interditos, que é o problema da memória histórica que não entra no espaço reflexivo português”.

“Isto é muito importante porque um pronunciamento destes devia obrigar-nos a olhar para a história de Portugal e a questão colonial”, defendeu.

A historiadora criticou uma frase do primeiro-ministro, em que António Costa afirma que com o 25 de Abril demos a independência às colónias: “não é verdade, foram as lutas de emancipação das então colónias que abriram caminho à democracia em Portugal”, corrigiu.

Maria Paula Meneses lembrou também que “a seguir a Wiriamu, em Moçambique, há mais massacres”. “Há muitos outros contextos de massacres, e na mesma região, de que não se fala. E há toda a questão de Goa e do Brasil. A questão colonial está intimamente ligada à violência e destruição, e uma outra violência que é a destruição da história do outro lado”, apontou.

Em vésperas da comemoração dos 50 anos do 25 de Abril, a investigadora partilhou a sua preocupação pelo facto de “termos esquecido o que foi a questão colonial”. “Isto tudo se apagou, a questão das ditaduras na Europa Central e Ocidental, a existência de regimes coloniais. As democracias tiveram grande facilidade em apagar a história. Foi um acto corajoso do primeiro-ministro. Um anterior Presidente [Cavaco Silva] recusou falar do assunto quando se deslocou a Moçambique”, realçou.

Assinalando que “Portugal parte para uma história exaltante da democracia sem querer refletir sobre a guerra que está na origem dessa democracia”, Maria Paula Meneses defendeu a criação de comissões de verdade e reconciliação, “para que a história sobre o massacre de Batepá, Wiriamu, o 3 de Fevereiro possa ser ouvida de várias perspectivas e todos tenhamos uma história simultânea, estejamos a explicar quais foram as razões que levaram àquele conjunto de acontecimentos”.

 

“Precisamos de descolonizar a história. Mas acho que é um acto corajoso de muitos líderes europeus que se têm de confrontar com o seu passado. As narrativas imperiais estão a voltar, e temos de um lado esta perspetiva e, do outro, as extremas-direitas a exaltar a importância de ter havido impérios”, assinalou.

A historiadora falou também sobre a questão dos materiais que pertencem a Moçambique e que “deveriam ser pelo menos microfilmados e digitalizados e entregues ao país”.

“Documentação histórica, e mesmo etnográfica, deveria ser parte fundamental do processo de reparação, porque qualquer moçambicano que queira estudar tem de vir a Portugal. Isso é uma pequena parte, depois o resto são acordos governo a governo”, frisou.

Maria Paula Meneses referiu como o colonialismo fez foi com que os moçambicanos perdessem “toda a sua genealogia histórica”.

“Vocês têm desde o D. Afonso Henriques e nós de repente não temos nada. As reparações económicas são com os economistas, a nível de Estado. Para mim a reparação é uma questão histórica, o recuperarmos a nossa dignidade”, rematou.

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