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Descobertas centenas de cartas solidárias com novela lésbica censurada

Um livro do início do século XX sobre uma relação lésbica por uma autora lésbica foi alvo de uma campanha de difamação em Inglaterra. Uma nova investigação aos seus arquivos mostra a dimensão das respostas de solidariedade para com a autora.

O livro “O Poço da Solidão” de Radclyffe Hall foi objeto de escândalo. Lançado em 1928, foi alvo de uma campanha por parte do jornal Sunday Express que conseguiu que este fosse censurado no Reino Unido por ser “obsceno”. O editor do jornal, James Douglas, queria “prevenir a contaminação e corrupção da ficção inglesa” e “tornar impossível que qualquer outro novelista repita este ultraje.”

O livro retratava uma relação entre duas mulheres. A heroína, Stephen Gordon, cedo toma consciência que se sente atraída por mulheres, veste roupas masculinas e apaixona-se por uma mulher. As descrições do envolvimento não primam pela ousadia: um beijo nos lábios ou uma noite “em que elas não estiveram divididas”.

As investigações entretanto feitas pelo Harry Ransom Center da Universidade do Texas nos arquivos da autora mostram o outro lado desta campanha: centenas de cartas agradeciam à autora pelo que escreveu. “Fez-me querer continuar a viver e continuar… Descobri-me em Paris e temia esta coisa que achava ser anormal”, pode ler-se numa dessas cartas. Muitas delas são de mulheres que se assumem como lésbicas mas também há cartas de pessoas que dizem ter mudado de perspetiva sobre a questão “ao início sentia repulsa e nojo mas depois o pathos e a beleza tomaram conta de mim.”

O responsável por esta pesquisa, Steven Macnamara, conclui “as cartas demonstram a consciência das pessoas de que “O Poço da Solidão” não era uma novela obscena e de que Hall tinha sido tratada injustamente pelo governo e pelos media.”

Em curso está a digitalização de mais de 38,500 papéis da autora que estarão disponíveis online em janeiro de 2021.

Hall tinha como intenção expressa “colocar a sua caneta ao serviço de algumas das pessoas mais incompreendidas do mundo.”

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