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Descoberta em Alenquer muralha da era do Calcolítico

Nas margens do rio Ota, em Alenquer, arqueólogos descobriram uma muralha de 150 metros de comprimento que terá protegido um povoado há mais de 4 mil anos. Poderá ser um dos maiores achados da era do Calcolítico no país.
Aspeto da muralha do Calcolítico em Alenquer, agosto de 2019. Foto: Mário Cruz/Lusa.
Aspeto da muralha do Calcolítico em Alenquer, agosto de 2019. Foto: Mário Cruz/Lusa.

A 170 metros de altitude, em pleno Canhão Cársico da Ota (mapa), vale profundo sobre o rio do mesmo nome a montante do povoado da Ota, uma equipa de arqueólogos descobriu vestígios de uma muralha com quatro a cinco mil anos, que poderá ter envolvido um povoado da mesma época. A confirmar-se o achado, trata-se de uma das maiores estruturas da chamada era do Calcolítico conhecidas no país.

O recinto identificado tem uma área de cerca de quatro hectares (200 por 200 metros, caso fosse um quadrado), dois deles intra-muralha e outros dois no exterior da muralha. "Já identificámos quatro a cinco metros de largura da estrutura e um comprimento de 150 metros", declarou à Agência Lusa o arqueólogo André Texugo Lopes, da Universidade de Lisboa, que vê no achado "provavelmente a maior estrutura pré-histórica deste tipo de sítios". A muralha preservada tem uma altura de 1,4 metros.

A zona estava assinalada desde 1936, mas apenas em 2016 Texugo Lopes, arqueólogo natural da zona, estudou o acervo de materiais recolhidos ao longo de décadas à superfície e fez prospeções no local. A investigação continuou através do estudo de imagens do Google Earth, que permitiram uma identificação preliminar da estrutura murada, e mais tarde com trabalhos de desmatação e escavação, realizadas por uma equipa oriunda de quatro universidades (Lisboa, Coimbra, Autónoma de Madrid e Jaén), que a puseram a descoberto.

As escavações, além da muralha, recolheram fragmentos de ferramentas do Calcolítico e também de épocas posteriores, como a idade do Bronze (1500 anos antes de Cristo), do Ferro (700 anos aC), das época romana (400 anos aC a 200 anos dC) e islâmica (séc. VIII dC). Entre eles, conta-se machados de bronze e de pedra polida, cerâmicas decoradas, elementos de construção romanos, artefactos em sílex, ossos polidos, e mesmo um "lagomorfo", que se pensa estar associado a ritos funerários.

No Calcolítico, ou idade do Cobre, os rios eram a grande via de comunicação, pelo que a localização do recinto é plausível, nas proximidades de "uma via de comunicação importante, o rio Ota, que nasce na serra do Montejunto e desagua no Tejo", segundo Texugo Lopes. Isto permitiria ao local ter "água por perto" e "controlo e defensibilidade sobre a zona a 360 graus", dada a sua altitude. Naquela era, fixavam-se nas proximidades dos rios povoados assentes no uso de tecnologias agrícolas ainda hoje familiares, como a roda, o arado, o carro de bois, o uso de cavalos para montar, a irrigação artificial de terras, a metalurgia.

A dimensão do recinto já conhecido dá aos arqueólogos expectativas de mais achados de relevo no futuro. Para já, está planeada uma investigação com drones que usam feixes laser para mapear estruturas no terreno escondidas por baixo da vegetação. Será a primeira vez que se utiliza em Portugal tecnologia deste tipo, que nos últimos anos proporcionou à arqueologia grandes avanços e achados de relevância, nomeadamente no continente americano.

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