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Defender Rojava!

Neste manifesto, líderes de diversos movimentos sociais, comunidades e Primeiras Nações do mundo inteiro defendem que "uma experiência revolucionária no Médio Oriente poderia oferecer possibilidades para o futuro da humanidade".
Combatentes curdas do YPJ.
Combatentes curdas do YPJ. Foto Kurdishstruggle/Flickr

Defender Rojava!
Uma experiência revolucionária no Médio Oriente poderia oferecer possibilidades para o futuro da humanidade.

O que está em jogo no nordeste da Síria é mais que o destino do povo Curdo, ou da região autónoma de Rojava, ou até da luta contra ISIS (também conhecido pelo seu acrónimo árabe Da’esh). O que está em jogo é a capacidade da humanidade sobreviver à crise civilizacional que enfrenta, e a capacidade de imaginar novas alternativas antes de ser tarde demais.

A invasão brutal de Rojava, promovida pelo Primeiro Ministro Turco Recep Tayyip Erdoğan, recorre a técnicas de violência extrema e genocídio pertencentes ao séc. XX, alegando ao mesmo tempo um “cessar fogo”. A força aérea Turca faz chover napalm e fósforo branco sobre civis inocentes. Simultaneamente, as guerrilhas Jihadistas massacram os civis em fuga, como vingança pela luta de Rojava contra ISIS e pelo seu papel como talvez o aliado mais importante do Ocidente na região.

Os Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia e outras super-potências traem activamente a lei internacional e a convenção de Genéva, ao permitir e compactuar com a limpeza étnica e a ocupação de Rojava. O objectivo da Turquia é claro: erradicar o que temem todas as forças fascistas, um povo livre que se atreve a criar experiências corajosas e de sucesso exteriores ao sistema extractivista e generalizado.

Desde 2012, cerca de cinco milhões de pessoas – Curdos, Árabes, Assírios, Turcomanos, Yazidis, entre outros – têm trabalhado na construção da região autónoma de Rojava, demonstrando como uma sociedade multi-étnica pode coexistir em respeito mútuo, para além das limitações de um estado-nação, do patriarcado e do capitalismo. Ao promover a auto-governação autónoma, radical e descentralizada, a equidade entre géneros, a agricultura regenerativa, um sistema jurídico baseado na reconciliação e inclusão de minorias, a experiência de Rojava apresentou um exemplo vivo de possibilidades, na mais impossível das circunstâncias. Como inspiração, encorajamos o leitor a rever a Carta do Contracto Social de Rojava.

Os líderes ocidentais simulam empatia, enquanto simultaneamente os fabricantes de armas da Alemanha e do Reino Unido continuam a venda de armas para a Turquia. Obviamente, o sistema dominante não poderá e não irá defender quem procura explorar novas formas de saber e de estar. Como escreve o encarcerado líder Curdo, Abdullah Öcalan, “A verdadeira força do modernismo capitalista não é o dinheiro e as suas armas, [mas] a sua capacidade de sufocar qualquer utopia […] com o seu liberalismo.”

Contudo, existe todo um coro de aliados que se ergue no mundo inteiro. Do Haiti ao Líbano, do Chile ao Iraque, dos Camarões aos Estados Unidos, do Reino Unido a Hong Kong, as revoluções sociais confrontam a ascensão do fascismo, da visão a curto prazo, da ganância, da devastação climática e do belicismo, necessários para manter o actual paradigma económico. As frentes de combate tornam-se mais claras – dominação versus cooperação, colonização versus autonomia, opressão versus liberdade, patriarcado versus parceria – estes valores são a aberração e a teia da luta decisiva pelo futuro da humanidade.

Para que Rojava sobreviva e a justiça possa prevalecer, os que se erguem nos diferentes contextos locais devem unir criativamente as suas vozes, valores e visões, rumo a uma mudança global de sistemas. Rojava luta pelos mesmos motivos que motivam a maioria que desperta no mundo inteiro, mostrando que o caminho de saída para as crises sociais e ecológicas já não consiste num “desenvolvimento” que se baseia no PIB, mas em comunidades autónomas descentralizadas.

A criação dessas comunidades em cada vez mais lugares, que regeneram ecossistemas, curam o nosso trauma colectivo e criam estruturas sociais de solidariedade e confiança, é o trabalho de transformação dos nossos tempos. Assim que reconhecermos as nossas lutas como interligadas – e interligadas com a teia da Vida em si – não haverá exército capaz de impedir a transição inevitável.

Enquanto líderes de diversos movimentos sociais, comunidades e Primeiras Nações do mundo inteiro, expressamos a nossa solidariedade com a visão e o trabalho de Rojava. Rezamos pela sua resiliência, protecção e perseverança. Rezamos para que sejamos capazes de ouvir e aprender com a Terra, à medida que ela nos mostra incessantemente como construir sociedades que vivem em cooperação com todos os seres. Rezamos para que os que se encontram em posições de poder sejam relembrados da sua humanidade e coloquem um fim imediato a esta invasão.”

Publicado a 1 de Novembro de 2019, no The Guardian, por:

LaDonna Brave Bull Allard, Standing Rock – EUA
Salim Dara, Rural Solidarity – Benin
Eve Ensler, One Billion Rising – EUA
Sabine Lichtenfels, Tamera Centro de Investigação para a Paz – Portugal
Tiokasin Ghosthorse, First Voices Indigenous Radio – EUA
Alnoor Ladha, The Rules – Canadá
Gildardo Tuberquia, Comunidade de Paz de San José de Apartadó – Colômbia
Yael Ronen, Maxim Gorki Theater – Alemanha
Sami Awad, Holy Land Trust – Palestina
Gigi Coyle, Beyond Boundaries – EUA
Joshua Konkankoh, Better World – Camarões
Stuart Basden, Extinction Rebellion – Reino Unido
Aida Shibli, Global Campus – Palestina
Claudio Miranda, Favela da Paz – Brasil
Rajendra Singh, Tarun Bharat Sangh – Índia

Termos relacionados Luta dos curdos, Internacional
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