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Cuba: governo tenta impedir marcha da oposição

Mobilização desta segunda 15 foi proibida pelo governo de Díaz-Canel, mas organizadores mantiveram a convocatória e enfrentam agora uma campanha intimidatória. Multiplicam-se os interrogatórios, ameaças de despedimento e detenções. Por Luís Leiria.
Carro da Polícia patrulha rua de Havana no dia 15 de julho, quatro dias após os protestos que abalaram muitas cidades de Cuba. Foto de Ernesto Mastrascusa/EPA
Carro da Polícia patrulha rua de Havana no dia 15 de julho, quatro dias após os protestos que abalaram muitas cidades de Cuba. Foto de Ernesto Mastrascusa/EPA

Cuba vive nesta segunda-feira, dia 15, um dos episódios mais tensos da sua história recente. Para este dia está marcada a primeira manifestação de oposição oficialmente pedida por um grupo de cidadãos, ao abrigo da nova Constituição de 2019. O governo cubano proibiu-a, mas os organizadores mantiveram a convocatória.

O apelo à Marcha Cívica pela Mudança foi feito por um grupo de cidadãos devidamente identificados. Eles representam uma organização com poucos meses de vida, a Arquipélago, que funciona com base numa plataforma própria, instalada na Internet, interligando-se com as redes sociais. Só no grupo do Facebook há mais de 35 mil participantes.

Os moderadores organizam as discussões, procurando estabelecer consensos em torno de propostas. Eles são peças-chave de uma estrutura que se propõe funcionar da forma mais horizontal possível. O seu líder mais visível é um jovem dramaturgo, Yunior García Aguilera.

As principais bandeiras da mobilização, convocada em Havana e em seis províncias do país, são “uma autêntica transformação para a democracia, o resgate das liberdades civis e dos direitos humanos”, bem como a libertação de todos os presos políticos.

Logotipo da organização Arquipélago

O governo cubano, porém, argumenta que as manifestações pretendem derrubar o “Estado socialista”, e que este é “inamovível”. Além disso, acusa os membros da Arquipélago e a sua principal liderança de estarem a soldo do imperialismo norte-americano.

Bloco de Esquerda defende livre direito de manifestação

Em Portugal, “o Bloco de Esquerda manifesta preocupação com o aumento da repressão em Cuba e a tentativa de impedir uma das liberdades mais fundamentais: o livre direito de manifestação”, disse ao Esquerda.net o líder parlamentar, Pedro Filipe Soares.

E, para não deixar dúvidas das suas intenções em relação aos opositores, o presidente e primeiro-secretário do Partido Comunista Cubano, Miguel Díaz-Canel reafirmou, por outras palavras, a “Ordem de combate” que dera às mobilizações espontâneas de 11 de julho, considerando a marcha opositora uma provocação, parte de uma estratégia de “golpe suave”, e advertindo: “Em Cuba, há revolucionários suficientes para fazer face a todo tipo de manifestação”.

Jogo de gato e rato

Mas o governo cubano não parece muito disposto a medir forças na rua, preferindo, por outros meios, impedir que o protesto se realize. Primeiro, lançou mão de um curioso jogo de gato e rato com a Arquipélago, marcando a realização de exercícios militares para três dias, incluindo o 20 de novembro, a primeira data fixada pelos manifestantes para a sua marcha. “Não podíamos ser irresponsáveis, não queríamos violência, não queríamos que os cubanos se enfrentassem uns aos outros”, explicou García Aguilera, sublinhando o risco de o Exército reagir de forma violenta aos manifestantes”.

Assim, a Arquipélago decidiu reagendar a mobilização para mais cedo: 15 de novembro, dia da reabertura do país ao turismo internacional.

Então, as manifestações foram proibidas, primeiro pelas câmaras municipais das cidades, levando os subscritores a entraram com um apelo ao governo. Quando este, por sua vez, o negou, apelaram, numa carta aberta, ao presidente do Tribunal Supremo Popular de Cuba, Rubén Remígio Ferro. Este magistrado afirmara, a propósito das manifestações espontâneas de 11 de julho, que “as opiniões políticas diversas, incluindo as de sentido político diferente do imperante no país, não constituem delito. Mais, manifestar-se, longe de constituir um delito constitui um direito constitucional das pessoas.” A Arquipélago pediu ao magistrado coerência com as suas palavras, dando soluções imediatas aos “danos causados” pela proibição do governo à cidadania, assim como às “violações da Constituição”.

Ruben Remígio Ferro, presidente do Tribunal Supremo Popular de Cuba
Ruben Remígio Ferro, presidente do Tribunal Supremo Popular de Cuba

Remígio Ferro não respondeu. E a Arquipélago decidiu-se pelo desafio ao governo, mantendo a convocatória.

Onda repressiva

Enquanto isto acontecia, o Departamento de Segurança do Estado não ficava parado. Bem pelo contrário. Começaram as intimidações, tanto através de convocatórias para ir prestar depoimento, quanto via telefonemas, anónimos ou não, interpelações na rua ou mesmo no local de trabalho – que nalguns casos levaram ao despedimento de cidadãos pelo simples facto de mostrar simpatia pela Arquipélago. Houve ativistas detidos, desaparecidos, ou postos em detenção domiciliar (com dois agentes do DSE à porta da sua residência, que impedem o cidadão de sair). Tudo isto sem qualquer base legal, como denuncia a Comissão de Apoio aos Manifestantes do 15-N, formada por ativistas da Arquipélago. Trata-se de um grupo de intelectuais, juristas, politólogos e especialistas em relações internacionais que acompanharão todo o processo.

A própria forma de funcionamento da Arquipélago, em rede, é perfeitamente transparente para todos os seus membros, que participam nas decisões e acompanham a sua execução. Mas a transparência inclui também a DSE, que não encontra qualquer dificuldade para se informar sobre as decisões que a organização vai tomando, o que lhe permite uma reação quase instantânea. Já os ativistas não sabem o que as forças policiais e de segurança vão fazer, embora a sua atuação seja previsível: tudo o que contribua para impedir, com ações de intimidação e com a detenção dos mais irredutíveis, que a marcha aconteça.

O dramaturgo Yunior García Aguilera. Foto de Yander Zamora/EPAnder

O dramaturgo Yunior García Aguilera. Foto de Yander Zamora/EPAnder 

A guerra da propaganda

Outra guerra que vem sendo travada entre o governo e a Arquipélago é a da informação e propaganda (ou desinformação). O governo controla todos os média tradicionais (TV, rádios e jornais principais), mas não controla a Internet, onde os opositores têm o seu “meio natural” e uma audiência muito superior à do governo. O máximo de controlo das autoridades sobre este meio é… desligar a Internet, o que, desde que foi instalada em Cuba a net móvel passou a ser mais complicado. Quando só havia a net fixa, era mais fácil às autoridades cortarem a conexão seletivamente.

Nesta guerra, os ideólogos do PCC e do governo não tiveram a menor dúvida em usar todos os meios à sua disposição para desacreditar os dirigentes da Arquipélago, e principalmente a sua face mais visível, Yunior García Aguilera. O programa de TV “As Razões de Cuba” chegou ao ponto de revelar a identidade de um agente secreto da Segurança do Estado, “Fernando”, na verdade o médico Carlos Leonardo Vázquez, algo muito incomum em qualquer serviço de espionagem no mundo.

O clínico-espião participou, ao lado de Yunior Aguilera, num seminário em Madrid sobre o Papel das Forças Armadas nos Processos de Transição, que contou com a participação do ex-presidente do governo espanhol Felipe González. Disto, o “companheiro Fernando” extrapola a denúncia de que “Yunior procura o confronto com as Forças Armadas e o Ministério do Interior”. E o próprio programa vai mais longe, afirmando que a atuação dos opositores faz parte de um plano dos Estados Unidos para desencadear um processo de “golpe brando” protagonizado por artistas, chegando ao ponto de comparar García Aguilera com Vaclav Havel, principal protagonista da “Revolução de Veludo”, que derrubou o regime stalinista na antiga Checoslováquia.

Sobre as acusações do médico-espião, o dramaturgo reconhece a presença nos seminários, mas afirma terem se tratado de eventos académicos, ao qual se deslocou com o passaporte institucional da entidade a que pertence, a União dos Artistas e Escritores, e que a Segurança de Estado sabia perfeitamente onde ia e não demonstrou, na época, qualquer preocupação.

Na disputa da informação, há porém uma realidade que os média controlados pelo governo não conseguem ocultar: o fracasso do plano económico-financeiro para acabar com as duas moedas que circulam na ilha fracassou, a promessa de fechar as lojas exclusivas a quem quem disponha de divisas também não foi cumprida, e a inflação decorrente destes fracassos é tão grande que esmaga o poder de compra dos parcos salários dos cubanos. Família que não tenha algum parente a viver no exílio com a possibilidade de mandar-lhe dólares ou euros regularmente, está condenada à miséria. E isso, nenhuma propaganda do governo consegue ocultar.

O Presidente e primeiro-secretário do Partido Comunista Cubano, Miguel Díaz-Canel
O Presidente e primeiro-secretário do Partido Comunista Cubano, Miguel Díaz-Canel

Táticas criativas

No dia 11, a Arquipélago começou a acusar a pressão da intimidação. Nesse dia, Yunior García Aguilera publicou um post nas redes sociais em que anunciava a sua decisão de marchar solitariamente e em silêncio, no dia 14, véspera da marcha de 15, em nome de todos os cidadãos “que o governo privou do direito a manifestarem-se”, e levando apenas uma rosa branca nas mãos. A rosa branca é uma alusão ao poema “Cultivo una rosa blanca”, de José Martí, o herói nacional de Cuba, mártir da luta de independência contra os espanhóis dos finais do século XIX.

Cultivo una rosa blanca

en junio como enero

para el amigo sincero

que me da su mano franca.

Y para el cruel que me arranca

el corazón con que vivo,

cardo ni ortiga cultivo;

cultivo la rosa blanca.

García Aguilera esclareceu que não seria ele que impediria os cidadãos de exercer o seu direito a manifestarem-se, mas pediu”humildemente a todos que evitemos qualquer tipo de confronto violento, toda a ação que gere repressão, todo o ato que os coloque em situação de perigo.” E prosseguiu apelando a que cada qual encontre formas engenhosas e pacíficas de conseguir exprimir-se sem dar espaço a detonar a violência contra ele, “contra ninguém, absolutamente”.

A Arquipélago depois mencionou algumas: que no dia 15 cada pessoa vestisse ao menos uma peça de roupa branca, ou que pendurasse na varanda um lençol branco. Ou que levasse na mão uma rosa branca. Citou também a realização de “panelaços”.

Mas, diante da perplexidade suscitada pela proposta, a organização, e o próprio García Aguilera esclareceram que a convocatória para a marcha se mantinha; que as formas alternativas visavam ampliar os seus efeitos para todos os que não considerassem possível a sua participação devido à ameaça de repressão.

Bloqueado em casa

Porém, no domingo dia 14 agentes da Segurança de Estado à paisana, disfarçados de “povo”, impediram o líder da Arquipélago de sair da própria casa para fazer a anunciada marcha solitária. Além de impedi-lo de se deslocar, os agentes ainda cobriram a casa com uma gigantesca bandeira de Cuba, para impedir que Yunior García Aguilera fosse fotografado à janela.Bloqueio à casa do líder da organização Arquipẽlago

Bloqueio à casa do líder da organização Arquipélago

A muito custo ele acabou conseguindo afixar um papel onde se lia: “A minha casa está bloqueada”. Mas os agentes do DSE também fizeram um cordão periférico, procurando impedir a aproximação de fotógrafos e operadores de câmara de TV. Mas o jornalista Atahualpa Amerise, que fez chegar as fotos à Arquipélago, conseguiu furar o bloqueio e registar o momento.

Ainda no domingo, o artigo principal do site do jornal oficial Granma tinha como título: Nem as rosas brancas nem os lençóis estão à venda”. O artigo, em tom professoral, faz uma interpretação do poema de Martí, para depois comparar a Arquipélago com uma fracassada organização contrarrevolucionária “liderada por conotados esbirros e oficiais do regime de Batista” e afirmar que “não há quem possa manchar” a rosa branca. A concluir, o articulista também se apropria dos lençóis brancos, que “sempre animarão a banda sonora da autêntica canção cubana”, e que continuam cingindo os corpos e coroando as cabeças das filhas de Obatalá, deidade do panteão Yorubá, pelo que “a cor branca também não está à venda”. Corre o boato que o governo proibiu o comércio de vender rosas e lençóis brancos até dia 16, por temor de que a convocatória da Arquipélago funcione.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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