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Crise na Conforama: 1900 despedidos em França, lojas portuguesas à venda

A multinacional de venda de móveis pretende fechar lojas e despedir 1900 trabalhadores em França. Os sindicatos consideram a proposta de indemnização “ridícula” e apelam a que a greve se torne “ilimitada”. As lojas da Península Ibérica da Conforama estão à venda. Os lucros irão para fundos de investimento credores da empresa.
Conforama França em greve. Outubro 2019.
Conforama França em greve. Outubro 2019. Foto FODeuxSevres/Twitter.

No passado mês de julho, a Conforama anunciou a implementação de um plano de reestruturação da empresa em França que previa o fecho de 42 lojas do grupo deixando 1900 trabalhadores no desemprego.

A defesa dos postos de trabalho levou a que uma greve fosse marcada para esta quarta-feira, na véspera da qual a administração apresentou uma proposta de indemnização que os sindicatos consideraram “vergonhosa”. Para além das indemnizações devidas por lei, a empresa avançou com valores de mil euros até aos dez anos de trabalho, dois mil entre dez a vinte anos e 2500 anos para quem tenha trabalhado mais do que isso.

Gilles Guez, representante do sindicato CGT, em declarações à agência noticiosa France Press durante um protesto em frente a uma das lojas, realçou que “alguns dos que trabalhavam cá na abertura da loja há 40 anos, sentem-se traídos”. E pelo menos três dos sindicatos franceses, CGT, FO e CFE-CGC juntaram-se no apeloa uma greve que alguns insistem que seja “ilimitada”.

Guez explica porque estes montantes são vistos como “ridículos” comparando-os com o aconteceu no Carrefour, onde esta indemnização é de dois meses de salário por ano de trabalho e na Castorama, onde é de 1,6 meses por ano de trabalho.

Da África do Sul, à França e ao resto do mundo, a Conforama em crise

A multinacional Conforama está sediada em França mas pertence ao grupo Steinhoff International que, por sua vez, deslocou a sua sede da Alemanha para a África do Sul em 1997. Desde 2013, a Conforama França perdeu 500 milhões de euros. E, no total do grupo, foram de mais de mil milhões de euros em 2018 que se somam a quatro mil milhões em 2017. Em dezembro de 2017, o seu chefe executivo foi demitido na sequência da descoberta de um desvio de 6 mil milhões de dólares nas contas.

Para além da crise mundial, o problema na Conforama França é específico. Os sindicalistas falam em má gestão. Jérôme Moussayan, delegado sindical da CGT, explica os maus negócios como a compra de ativos da loja online Showroomprive.com por 150 milhões de euros para serem vendidos seis meses mais tarde por metade, um contrato com a Liga Francesa de Futebol que fez a empresa desembolsar 24 milhões e os 1,5 milhões gastos para festejar os 50 anos da empresa com espetáculos no Olympia e atividades na pirâmide do Louvre.

A venda ibérica e as mais-valias abutres

Dada a crise, a empresa está a vender ativos em todo o mundo. Na Europa, o objetivo é recuperar 400 milhões de euros para reembolsar as perdas da casa-mãe. Parte desse valor é o que é esperado pela venda das filiais ibéricas da empresa: 300 milhões de euros. Uma venda que ocorre apesar das 11 lojas portuguesas e das 38 espanholas serem consideradas dos poucos ativos rentáveis da empresa.

Os sindicatos franceses denunciam que o dinheiro ganho com estas vendas não será aplicado na defesa dos postos de trabalho ameaçados no seu país mas irá parar aos fundos de investimento que se tornaram credores da empresa em França. Até os restantes 87 milhões de mais-valia ficarão para estes a título de juros. Assim, 21 fundos de investimento, entre os quais o KKR Credit Advisors, a Goldman Sachs ou o Owl Creek Partners, vão ter uma taxa de lucro superior a 50%, apenas quatro meses depois do seu investimento na Conforama.

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