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A Crise do Jornalismo

Consideramos que a crise atual do jornalismo é afetada não só pela quebra de receitas publicitárias devido à passagem do investimento em publicidade para meios digitais, mas também por outros fatores. Artigo de Francisco Cordeiro, Jéssica Vassalo e Paula Monteiro
“Tem-se verificado uma evolução no que diz respeito aos mass media, no sentido de serem cada vez mais tendenciosos e menos isentos” - foto retirada de journalismresearchnews.org
“Tem-se verificado uma evolução no que diz respeito aos mass media, no sentido de serem cada vez mais tendenciosos e menos isentos” - foto retirada de journalismresearchnews.org

As redes sociais foram criadas para aproximar pessoas, porém, nestes últimos anos têm sido utilizadas também para veicular informação falsa.

Entrámos numa era cada vez mais digital, onde somos constantemente bombardeados no nosso feed do Facebook, por exemplo, com informação excessiva, como se quase fosse de minuto em minuto, sendo cada vez mais difícil filtrar a informação que nos chega, ocorrendo, assim, o fenómeno da desinformação.

Tem-se verificado uma evolução no que diz respeito aos mass media, no sentido de serem cada vez mais tendenciosos e menos isentos.

Outrora os jornais tinham uma linha ideológica, claramente definida, isto é, eram parciais, mas transparentes (os leitores sabiam que tipo de informação iam ler quando compravam um determinado jornal). Atualmente a maioria dos jornais e outros media tentam passar uma imagem de neutralidade ideológica, sendo mais difícil de distinguir as diferenças entre eles.

Cada vez menos são comprados jornais (fenómeno justificado pelo aumento do consumo das redes sociais) pelo que o jornalismo deixou de ser como nós o conhecíamos - em papel - tendo de se ajustar à nova forma de consumo. Inclusive, jornais apostaram na digitalização, como é o caso do Diário de Notícias, que foi durante mais de dois anos impresso apenas uma vez por semana, voltando ao formato em papel diário apenas no final de 2020.

Com a quebra de receitas da maior parte dos jornais, os grupos empresariais a que pertencem têm pressionado as redações para serem reduzidas e cortarem custos, despedindo os jornalistas mais experientes e com os salários mais elevados, substituindo-os por jornalistas precários. Inclusive, tem existido uma redução do número de jornalistas por redação, tome-se como exemplo o artigo “Imprensa: a Fábrica de Chouriços vai ter robots”, de João Ramos de Almeida, no livro “Economia com todos”:

Em 2006, houve dezenas de pessoas despedidas do jornal Público; de 2012 a 2017 o Público já passou por três, no primeiro despedimento coletivo levou a 25% da redação; no segundo ofereceu melhores propostas de rescisões amigáveis, sendo que houve mais pessoas a rescindir.”

No Grupo Impresa, no ano de 2008 houve uma vaga de despedimentos, assim, como em 2010. Já no ano de 2013, despedimento coletivo.

No “Grupo Controlinveste”, jornal “Diário de Notícias”, “24Horas”, “Jornal de Notícias da Madeira” e no “O Jogo”, em 2009, houve despedimentos coletivos.

Esta dinâmica tem consequências diretas na qualidade do jornalismo, havendo menos pessoas para a mesma quantidade de trabalho; muitas vezes os jornalistas não têm o tempo necessário para fazer um trabalho de investigação mais profundo ou para refletirem sobre aquilo que estão a escrever.

Será uma espiral recessiva?

O que fazer?

Consideramos que a crise atual do jornalismo é afetada não só pela quebra de receitas publicitárias devido à passagem do investimento em publicidade para meios digitais, mas também a fatores como o desinteresse geral da população nos assuntos relacionados com a vida coletiva e mesmo pela falta de qualidade e independência dos meios de comunicação social mais poderosos.

Na nossa opinião, a redução do horário de trabalho da população seria um incentivo a que todas as pessoas se interessassem pela sociedade e que pudessem investir tempo naquilo que as estimula. Talvez assim a vontade de se sentirem informadas e de fazerem parte de um coletivo as levasse ao interesse pela leitura, pela informação credível que as ajudasse a decidir em consciência.

As escolas e faculdades devem introduzir temáticas que incentivem os alunos a questionar, debater e investigar assuntos relacionados com política, jornalismo e sociedade.

Este ponto remete-nos para as questões: que pessoas está a escola a formar? Qual o papel que a mesma tem na formação dos indivíduos? Estará efetivamente a cumpri-lo? É importante refletir-se sobre o quanto o ensino está ou não massificado, onde se privilegia cada vez mais a aquisição de conhecimentos, mas ainda parece ser necessário percorrer-se um longo caminho na formação de mentes críticas e criativas, que consigam e tenham interesse em pensar de forma independente, se assim for necessário.

Mais, não obstante a importância da aquisição de conhecimentos, não será também fundamental a aquisição de valores? Um exemplo claro disso tem sido o debate recente que tem existido em torno da disciplina de Cidadania.

Como já referido, as escolas e universidades podem (e devem) ter um papel ativo na formação dos indivíduos, promovendo nos mesmos mecanismos de reflexão, de questionamento e de desconstrução das notícias a que se tem acesso, para que estes possam “pensar para além” da informação que lhes é transmitida. Há uma forte ligação entre esta dimensão e a formação para a política, cada vez mais necessária e debatida. Abrantes (2016) realça que a educação tem como objetivo, também, a promoção e o aprofundar dos princípios democráticos. O autor realça que, embora possa parecer algo redundante, através da educação deve contribuir-se para a igualdade (de oportunidades, económicas, sociais, culturais, entre outras), promovendo “(…) o combate ao que os sociólogos têm denominado “mecanismos de reprodução das desigualdades” inscritos nos sistemas educativos” (Abrantes, 2016, p. 26, ao referir Bourdieu e Passeron, 1970).

Em suma, a forma como a educação atua tem vindo a potenciar fenómenos de desigualdade, mas é através dela, ao se introduzir novos campos de atuação, que se podem combater e até dissipar alguns desses mesmos fenómenos. E é possível percecionar que o papel que a educação tem na formação dos indivíduos é crucial, dado que tem implicações transversais a diversas áreas da vida dos cidadãos.

Para além do papel da educação, visto que que pensamos que o jornalismo independente e de qualidade é imprescindível para a democracia, deve-se pensar igualmente em políticas públicas que ajudem a relançar o jornalismo e a aumentar o interesse das pessoas por este.

Entre estas políticas públicas devem estar algumas sugeridas pelo Sindicato dos Jornalistas, como: criação de bolsas de apoio a jornalistas; apoio a projetos independentes de media; dedução em sede de IRS e de IRC de parte ou da totalidade dos gastos com assinaturas digitais; atribuir vouchers a cada cidadão para financiar um órgão de informação à sua escolha; fazer uma campanha de sensibilização sobre a importância do jornalismo para a sociedade; eliminar o IVA nas assinaturas digitais e em papel; incluir a existência de um conselho de redação nos requisitos para registo de um órgão de informação; responsabilizar as grandes plataformas multinacionais, como a Google e o Facebook, pela utilização de conteúdo que não lhes pertence,; maior fiscalização nas plataformas que disseminam conteúdo falso (isto é, que colocam em causa o Jornalismo), criminalizando-as.

Por fim, é essencial reforçar o orçamento da Lusa e da RTP para que assegurem um serviço público de qualidade e possam contratar novos jornalistas (acabando com as situações de precariedade verificadas nas duas empresas).

Artigo de Francisco Cordeiro, Jéssica Vassalo e Paula Monteiro

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