Um estudo intitulado “Mapa dos Grupos Armados do Rio de Janeiro”, divulgado esta segunda-feira e que juntou organizações não governamentais e universidades, mostra que cerca de dois terços da cidade do Rio de Janeiro está sob domínio de grupos criminosos. Estes 72% de território abrangem 96 bairros, de um total de 161, onde moram 3,8 milhões de pessoas.
A sua autoria é partilhada por investigadores do Grupo de Estudos sobre Grupos Ilegais da Universidade Federal Fluminense, do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo e de Organizações Não Governamentais como a Fogo Cruzado e a plataforma digital Pista News, especializada em notícias sobre a criminalidade organizada deste tipo de estruturas.
Uma das fontes de informação do relatório foram os 37.883 relatos enviados em 2019 por cidadãos para um número de denúncia anónima da criminalidade, o Disque-Denúncia. Os especialistas fizeram uma triagem da credibilidade da informação e distinguiram três elementos agregadores: controle territorial, controle social e atividades de mercado.
O destaque do mapa vai para o crescimento das milícias, grupos formados por ex-polícias sob o pretexto do combate ao tráfico de droga e aos grupos tradicionais que o dominam. Começaram por cobrar “taxas de segurança” pelo suposto serviço prestado e depois evoluíram para aplicar taxas e vender outros serviços como transporte, distribuição de gás, eletricidade, ocupação de terrenos e construção ilegal e rede de internet. As milícias são de longe quem mais território domina na cidade fluminense, 57,5% do total e 41 bairros. Ficam também à frente no número de habitantes das suas zonas. Há perto de 2,2 milhões de cariocas aí, um terço do total da população.
Os grupos que têm controlado o narcotráfico na cidade estão longe desse área. Controlam 15,4%, 185 quilómetros quadrados, correspondentes a 44 bairros. Neles habitam 1,6 milhões de pessoas. A maior parte de território está nas mãos do Comando Vermelho, 11,4%, o Terceiro Comando detém 3,7% e os Amigos de Amigos 0,3%.
Se estes grupos cresceram a partir do final dos anos 1970, o crescimento das milícias é bem mais recente, datando do início dos 2000. O estudo considera o avanço das milícias “o fenómeno mais notável dos últimos anos” que “reconfigura a dinâmica dos conflitos armados no seu conjunto”.
O que quer dizer também que as fronteiras entre todos estes grupos não são fixas. O estudo estima, aliás, que 25,2% da cidade esteja a ser disputada. Por outro lado, só 1,9% do território é considerado livre deste tipo de grupos.
Anuário de Segurança do Brasil mostra aumento da criminalidade
Esta terça-feira foi publicado o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2020, da responsabilidade do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que indica um aumento de 7,1% no número de vítimas de homicídio quando comparado o período entre janeiro e junho de 2020 com igual período do ano passado.
A relativa estabilidade dos números é atribuída pelos investigadores à pandemia. Houve crescimento do número de homicídios no norte e nordeste devido ao fim de uma trégua entre grupos criminosos e aumentaram as mulheres vítimas de violência durante o período mais forte de confinamento e restrições à mobilidade provocados pela pandemia. Nos primeiros seis meses do ano foram assassinadas 2.500 mil mulheres.
Houve ainda mais de três mil mortes de civis ocorridas devido a operações policiais, um aumento de 6% comparativamente ao ano passado. A população negra foi a mais afetada.
Em 2019, perto de cinco mil crianças e adolescentes foram assassinados, 10% do total e houve mais de 66 mil vítimas de violação sexual, uma a cada oito minutos, sendo 60% menores de 13 anos.
No primeiro semestre deste ano, a cada 10 minutos, uma pessoa foi morta no país, totalizando cerca de 26 mil.