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Crime organizado controla dois terços do Rio de Janeiro

Um estudo feito por ONGs e universidades revela que 3,8 milhões de cariocas vivem em áreas controladas por grupos criminosos, mais de metade pelas milícias formadas por ex-polícias. Em todo o Brasil há um assassinato a cada dez minutos.
Rio de Janeiro. Pintura na parede. Foto de Luis Cordova.
Rio de Janeiro. Pintura na parede. Foto de Luis Cordova.

Um estudo intitulado “Mapa dos Grupos Armados do Rio de Janeiro”, divulgado esta segunda-feira e que juntou organizações não governamentais e universidades, mostra que cerca de dois terços da cidade do Rio de Janeiro está sob domínio de grupos criminosos. Estes 72% de território abrangem 96 bairros, de um total de 161, onde moram 3,8 milhões de pessoas.

A sua autoria é partilhada por investigadores do Grupo de Estudos sobre Grupos Ilegais da Universidade Federal Fluminense, do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo e de Organizações Não Governamentais como a Fogo Cruzado e a plataforma digital Pista News, especializada em notícias sobre a criminalidade organizada deste tipo de estruturas.

Uma das fontes de informação do relatório foram os 37.883 relatos enviados em 2019 por cidadãos para um número de denúncia anónima da criminalidade, o Disque-Denúncia. Os especialistas fizeram uma triagem da credibilidade da informação e distinguiram três elementos agregadores: controle territorial, controle social e atividades de mercado.

O destaque do mapa vai para o crescimento das milícias, grupos formados por ex-polícias sob o pretexto do combate ao tráfico de droga e aos grupos tradicionais que o dominam. Começaram por cobrar “taxas de segurança” pelo suposto serviço prestado e depois evoluíram para aplicar taxas e vender outros serviços como transporte, distribuição de gás, eletricidade, ocupação de terrenos e construção ilegal e rede de internet. As milícias são de longe quem mais território domina na cidade fluminense, 57,5% do total e 41 bairros. Ficam também à frente no número de habitantes das suas zonas. Há perto de 2,2 milhões de cariocas aí, um terço do total da população.

Os grupos que têm controlado o narcotráfico na cidade estão longe desse área. Controlam 15,4%, 185 quilómetros quadrados, correspondentes a 44 bairros. Neles habitam 1,6 milhões de pessoas. A maior parte de território está nas mãos do Comando Vermelho, 11,4%, o Terceiro Comando detém 3,7% e os Amigos de Amigos 0,3%.

Se estes grupos cresceram a partir do final dos anos 1970, o crescimento das milícias é bem mais recente, datando do início dos 2000. O estudo considera o avanço das milícias “o fenómeno mais notável dos últimos anos” que “reconfigura a dinâmica dos conflitos armados no seu conjunto”.

O que quer dizer também que as fronteiras entre todos estes grupos não são fixas. O estudo estima, aliás, que 25,2% da cidade esteja a ser disputada. Por outro lado, só 1,9% do território é considerado livre deste tipo de grupos.

Anuário de Segurança do Brasil mostra aumento da criminalidade

Esta terça-feira foi publicado o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2020, da responsabilidade do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que indica um aumento de 7,1% no número de vítimas de homicídio quando comparado o período entre janeiro e junho de 2020 com igual período do ano passado.

A relativa estabilidade dos números é atribuída pelos investigadores à pandemia. Houve crescimento do número de homicídios no norte e nordeste devido ao fim de uma trégua entre grupos criminosos e aumentaram as mulheres vítimas de violência durante o período mais forte de confinamento e restrições à mobilidade provocados pela pandemia. Nos primeiros seis meses do ano foram assassinadas 2.500 mil mulheres.

Houve ainda mais de três mil mortes de civis ocorridas devido a operações policiais, um aumento de 6% comparativamente ao ano passado. A população negra foi a mais afetada.

Em 2019, perto de cinco mil crianças e adolescentes foram assassinados, 10% do total e houve mais de 66 mil vítimas de violação sexual, uma a cada oito minutos, sendo 60% menores de 13 anos.

No primeiro semestre deste ano, a cada 10 minutos, uma pessoa foi morta no país, totalizando cerca de 26 mil.

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