Covid-19 teve origem em laboratório? Trump pressiona, OMS desmente

05 de maio 2020 - 17:19

A teoria de que a Covid-19 nasceu num laboratório de Wuhan está a ser utilizada como uma nova arma na disputa entre EUA e China. O New York Times noticia pressões do governo norte-americano para que os seus serviços secretos declarem que foi aí que começou a pandemia.

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Donald Trump a fazer uma declaração esta segunda-feira. Foto de Oliver Contreras/POOL/EPA/Lusa.
Donald Trump a fazer uma declaração esta segunda-feira. Foto de Oliver Contreras/POOL/EPA/Lusa.

O governo dos Estados Unidos está a promover a versão de que há provas da origem da Covid-19 ter sido em laboratório. Mas, como outrora aconteceu no caso das armas de destruição massiva no Iraque, ninguém as conhece.

O Secretário de Estado do governo dos EUA contradiz-se sobre este assunto. Se, num primeiro momento, Mike Pompeo, em entrevista este domingo ao canal ABC, garante perentório que há “enormes provas” do novo coronavírus ter vindo do laboratório de Wuhan e que “os melhores peritos parecem pensar até agora que o novo coronavírus foi fabricado por humanos”, a seguir, quando lhe fazem notar que os serviços secretos desmentem esta versão, dá-se ao luxo de anuir que “está correto, concordo com isso”.

Trump alinha na mesma confusão. Na passada quinta-feira, declarou ter visto provas de que a pandemia surgiu a partir do laboratório mas acrescentou que não pode dizer quais sejam. Só que diz igualmente, na mesma declaração, que “vamos ver de onde é que vem [a doença]” e que “temos pessoal a olhar para isso muito, muito fortemente. Pessoal científico, pessoal dos serviços secretos e outros. (…) Penso que acabaremos por chegar a uma resposta muito boa.”

Assim, pouco tempo depois de ter começado a indicar que se deveria investigar a teoria, a administração Trump passou rapidamente a dizer que tem provas do sucedido, apesar de cultivar ativamente a falta de clareza.

Serviços secretos pressionados

Ao que se sabe não foi feita nenhuma investigação sobre o caso. O gabinete do Diretor dos Serviços de Informação nacionais emitiu uma declaração em que se afirma que os serviços secretos do país concordam “com o vasto consenso científico de que o vírus da Covid-19 não foi feito por seres humanos ou geneticamente modificado.” Apesar disto asseguram que “a comunidade dos serviços de informação vai continuar a examinar rigorosamente informação emergente de forma a determinar se o o surto começou com contacto com animais infetados ou se foi o resultado de um acidente no laboratório de Wuhan”.

Esta nota dos serviços secretos seguiu-se a uma notícia do New York Times que dizia que altos quadros da administração Trump estariam a pressionar as agências de espionagem do país para providenciar provas à teoria sobre o laboratório de Wuhan e dava conta do desconforto destas por serem instrumentalizadas.

Trump estará a utilizar a China como cortina de fumo devido às críticas à sua gestão das medidas de combate à pandemia no seu país. Assim, altos responsáveis governamentais têm culpado a China por não ter combatido atempadamente o surto e já tinham instruído, segundo a NBC, os serviços secretos a tentar determinar se, no início do surto, tinha sido escondida qualquer informação.

O Departamento de Segurança Interna dos EUA defende que o governo da China “ocultou intencionalmente a gravidade” da situação em janeiro, tendo-o feito para ter acesso a equipamentos médicos do estrangeiros: as importações deste material terão aumentado logo no início desse mês, ao passo que as exportações do mesmo diminuíram, assim como as de máscaras e luvas, por exemplo.

Agora, a parada parece ter subido acrescentando-lhe a teoria da criação humana do vírus.

As razões apresentadas para duvidar sobre Wuhan

As dúvidas sobre o Instituto de Virologia de Wuhan surgiram, em primeiro lugar, devido à proximidade do local em que se acredita que o surto começou, o mercado de animais vivos. Foram alimentadas pelo governo norte-americano ter feito saber que em 2018 cientistas e diplomatas norte-americanos comunicaram preocupações sobre os padrões de segurança daquela instituição.

Para elas concorre ainda a análise no jornal médico Lancet que mostrou que dos primeiros pacientes com esta doença 27 tinham tido ligação direta com o mercado de Wuhan mas que o primeiro caso conhecido não tinha.

A falta de transparência do governo chinês também ajudará a propagar a teoria. Gauden Galea, representante da OMS na China, disse à Sky News, que o país ainda não respondeu ao pedido de uma investigação conjunta e que a sua instituição não teve acesso aos dados dos laboratórios da região em que a pandemia começou. Isto apesar de notar que concorda com a teoria até agora avançada de que não há origem humana.

A versão da Organização Mundial de Saúde

A OMS diz que as afirmações de Trump quanto à origem humana do vírus são “especulativas”. Mike Ryan, diretor-executivo do Programa de Emergências em Saúde da instituição, afirma que não receberam “nenhum dado ou prova específica do governo dos Estados Unidos em relação à suposta origem do vírus”, insistindo na teoria da origem animal.

A especialista Maria Van Kerkhove, na mesma conferência de imprensa, que há perto que de 15.000 sequências completas de genoma do novo coronavírus disponíveis, sendo que “de todas as provas que vimos, este vírus é de origem natural”.

O cientista que tem dado a cara nos EUA e contrariado Trump, Anthony Fauci, vai no mesmo sentido numa entrevista dada à National Geographic: vendo a evolução dos vírus nos morcegos, as evidências vão no sentido “muito contundente de que não possa ter sido artificialmente ou deliberadamente manipulado”.

O mesmo que reforça um artigo publicado na revista Nature Medicine e assinado por cinco especialistas. Kristian G. Andersen, infeciologista do Scripps Research Translational Institute in California, e um dos autores, diz que “simplesmente não há nenhuma razão para considerar o laboratório como uma explicação potencial”.