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Covid-19: O desespero dos portugueses que tentam sair de Cabo Verde

Cabo Verde confirmou esta quinta-feira o primeiro caso de covid-19. Eu fui uma das últimas pessoas a conseguir sair do país, no meio do caos e do pânico que se instalaram. Para trás, ficaram algumas centenas de turistas portugueses. Sem informações, sem apoio. Em desespero. Por Mariana Carneiro.
Fila nos serviços da TAP no aeroporto da Cidade da Praia para obter informações por parte da companhia aérea. Foto de Mariana Carneiro.
Fila nos serviços da TAP no aeroporto da Cidade da Praia para obter informações por parte da companhia aérea. Foto de Mariana Carneiro.

O nosso voo de regresso a Portugal, meu e do meu colega e amigo Fernando João, estava agendado para dia 19 de março, às 13h40. Era o voo TP1546. Decorei-o de tanto o consultar no site da TAP. Ainda que a companhia aérea não nos tenha contactado em momento algum, seja por que meio fosse, na noite de dia 16 de março começou a tornar-se evidente, quer pelas notícias veiculadas pelos media cabo-verdianos, como pelas informações que chegavam de Portugal, que o tráfego aéreo iria sofrer alterações.

No dia 17 de março, a minha agente de viagens confirmou os piores receios: eu deveria contactar com a maior urgência possível a embaixada portuguesa na Cidade da Praia porque corria o risco de não conseguir sair do país nos próximos tempos. Ainda que ela não tivesse quaisquer informações oficiais, já tinha sido alertada, por outros operadores, que o tráfego aéreo iria ser suspenso. Mas os dados não eram precisos e ela não conseguia adiantar mais nada.

Tínhamos saído do Tarrafal e estávamos em trânsito, na Assomada, a mais de 25km da Praia, o que, na ilha de Santiago, ainda implica um tempo considerável de viagem. Felizmente, eu conduzia um carro alugado, o que, apesar de tudo, nos permitiu alcançar o nosso destino mais rapidamente. Pelo caminho, foram várias as tentativas de contacto telefónico com a embaixada. A chamada ficava sempre em espera e nunca chegava a ser atendida, acabando por ser interrompida. A despesa associada aos contactos rapidamente ascendeu a várias dezenas de euros. Assim que chegámos à Praia, fomos diretos à embaixada. Uma funcionária, de luvas e máscara, entregou-me um papel com os contactos da Linha Covid-19 destinada ao acompanhamento dos portugueses no estrangeiro, e realçou rapidamente que não tinha mais nenhuma informação e/ou apoio para nos dar. Sugeriu que contactássemos a nossa agência de viagem, alegando que a mesma é que se deveria responsabilizar pelo nosso voo. Soubemos depois que, no dia seguinte, a embaixada encerrou.

Rumámos rapidamente ao hotel. No site da TAP o nosso voo já aparecia como “Cancelado”. Tentámos contactar a companhia aérea portuguesa por diversas vezes, seja telefonicamente como por email. Sem sucesso. Tentámos contactar a linha Covid-19, seja telefonicamente como por email. Também sem sucesso. A agente de viagens ia trocando mensagens e telefonemas, dando conta de que, também ela, não conseguia contactar a TAP. A sua preocupação era bastante explícita. A possibilidade de ficarmos retidos em Santiago era cada vez mais real.

Fomos para o aeroporto, tentar obter informações. O panorama era revelador. Ainda que os serviços da TAP estivessem encerrados, já se tinha juntado um enorme aglomerado de pessoas que, tendo bilhetes para outros dias, aguardavam para saberem o que os esperava. Voltámos para o hotel para ir buscar as malas, por forma a tentarmos seguir no avião da TAP à uma da manhã. De volta ao aeroporto, o cenário era ainda mais desolador. Não só o número de pessoas tinha aumentado exponencialmente como o desespero era cada vez mais palpável. Não existiam lugares nesse voo e as trabalhadoras da TAP não tinham informações concretas sobre os voos seguintes. Tivemos de voltar novamente para o hotel.

Fila nos serviços da TAP no aeroporto da Cidade da Praia para obter informações por parte da companhia aérea. Foto de Mariana Carneiro.

No dia 18 de março, acordámos às 8h com uma chamada da agente de viagens para que nos dirigíssemos imediatamente para o aeroporto da Praia, tentássemos seguir no voo para a ilha do Sal e, de lá, tentássemos seguir no voo para Lisboa às 18h. Alertou-nos que, se tal não fosse possível, iríamos ficar retidos em Cabo Verde. Assim fizemos. Conseguimos os bilhetes para o voo interno, despachámos as malas e dirigimo-nos à porta de embarque. Enquanto isso, a fila nos serviços da TAP tinha triplicado e o caos e o pânico no aeroporto era ainda maior. Fomos então alertados por uma trabalhadora da Tacv Cabo Verde Airlines que o nosso avião tinha avariado, estava na ilha do Fogo, e que eles aguardavam que chegasse um técnico de outra ilha para o reparar. A hipótese de conseguirmos o voo do Sal para Lisboa era cada vez mais ténue.

O telemóvel tocou e a agente de viagens pediu-nos para voltarmos imediatamente para trás porque tinha surgido um voo extraordinário da TAP que faria o percurso Praia-Lisboa. Seria o último a sair da ilha. Fomos novamente para o caos da fila da TAP, onde uma senhora de idade já estava a ser assistida por ter desmaiado no local. Uma jovem turista, aparentemente sozinha, não conseguia conter o choro por não conseguir regressar a casa. O telemóvel voltou a tocar. A agente de viagens conseguiu dois dos últimos bilhetes para Lisboa. A adrenalina caiu a pique e o meu corpo começou a ressentir-se. Fomos recuperar as malas, cancelar os bilhetes do voo interno e sentámo-nos no bar do aeroporto.

À nossa frente, centenas de pessoas numa fila infindável. Sem respostas, em angústia, com um futuro indefinido. Novos, velhos, sozinhos ou acompanhados, todos com o objetivo de regressar a casa. Fui percorrer a fila. Entretanto, apercebi-me de que já não existiam bilhetes para o voo. Ainda assim, a imensidão de pessoas que ali se tinha reunido recusava-se a sair dali. Recusava-se a perder a esperança. Todos os portugueses me disseram que não tinham recebido qualquer informação por parte da TAP. Uma senhora tinha chegado nesse dia à Praia e, apercebendo-se de que não iria poder regressar na data prevista, estava a tentar voltar para trás. Três jovens turistas alemãs não faziam ideia como e quando iriam chegar a casa. Várias pessoas que tinham ido visitar os seus familiares a Cabo Verde não podiam agora regressar. Um casal de turistas franceses, de idade já bastante avançada, abraçavam-se e trocavam olhares desoladores.

Aeroporto da Cidade da Praia. Foto de Mariana Carneiro.

Depois de três dias de desinformação, de ausência total de respostas por parte das várias entidades responsáveis, de incertezas, de desresponsabilização, de angústia, de mudanças minuto a minuto, de correrias sem fim, de portas que se fecharam, conseguimos sair de Cabo Verde. Tive um "anjo da guarda", a minha agente de viagem, que fez de tudo para tentar trazer-me de volta. Ela nem deve imaginar o quão importante foi para mim ter tido uma permanente voz amiga, preocupada e competente do outro lado da linha.

Não tenho ideia do número total de pessoas que não conseguiram regressar às suas casas. Sei que, esta quinta-feira, o governo cabo-verdiano confirmou o primeiro caso de covid-19. Sei que, conforme explicou à Lusa fonte diplomática, há entre 200 a 300 portugueses em várias ilhas de Cabo Verde, sobretudo no Sal e em Santiago (Praia), a aguardar viagem de regresso a casa. E que os turistas ouvidos pela Lusa confirmaram que “efetuaram diligências com os operadores turísticos, agência de viagens, embaixada portuguesa, Ministério dos Negócios Estrangeiros”, no entanto, essas entidades “não informam oficialmente como irá ser o repatriamento, alegando que nada sabem, acrescentando que tão pouco têm responsabilidade no repatriamento, empurrando a responsabilidade para as agências de viagens e respetivos seguros".

A fonte diplomática citada pela agência noticiosa garantiu que “o Governo está a pedir à TAP para honrar os seus compromissos com os passageiros que compraram bilhete". É bom lembrar que, de acordo com a Moody’s, citada pelo jornal Público, a TAP deverá precisar, muito brevemente, de receber capital por parte dos seus acionistas. Com a privatizaçao da TAP, o Estado português passou a deter 50% do capital social da companhia aéra. Já o consórcio Atlantic Gateway - de David Neeleman com a Azul, e de Humberto Pedrosa, cabendo 50%  a cada uma das partes - , reúne 45%. 

O presidente da TAP, Antonoaldo Neves, realçou que já sabia que podia contar com o apoio dos accionistas. Ou seja, o erário público, ou seja, os bolsos de todos os portuguesas e as portuguesas serão os visados. Incluindo os daqueles e daquelas que foram abandonados pela TAP em países como Cabo Verde. 

O que eu exijo é que o Governo português garanta imediatamente o regresso de todas estas pessoas. Que as mesmas sejam acompanhadas e informadas dos procedimentos que garantirão o seu regresso a casa. O que eu exijo é que o nosso Governo não deixe ninguém para trás.

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do trabalho
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