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Covid-19 já fez meio milhão de mortos no Brasil

Durante seis meses, Bolsonaro ignorou mais de cem mails da Pfizer a tentar vender vacina. Ao mesmo tempo fazia lóbi junto do governo indiano para que disponibilizasse matérias necessárias à produção da cloroquina, ineficaz no combate à pandemia.
ONG Rio da Paz colocou Rosas na praia de Copacabana em homenagem aos brasileiros falecidos por Covid-19. Foto de Antonio Lacerda/EPA/Lusa.
ONG Rio da Paz colocou Rosas na praia de Copacabana em homenagem aos brasileiros falecidos por Covid-19. Foto de Antonio Lacerda/EPA/Lusa.

No sábado, o Brasil ultrapassou o patamar do meio milhão de mortes causadas por covid-19. O ministro da Saúde de Bolsonaro, Marcelo Queiroga, confirmou o número no mesmo dia em que milhares saíam às ruas de várias cidades contra o presidente.

O país de 212 milhões de habitantes está quase a chegar ao total de 18 milhões de infetados com o novo coronavírus. Sofreu uma segunda vaga logo no início de 2021 e pode estar agora à beira de uma terceira vaga. A Fundação Fiocruz, entidade de referência na investigação médica, classifica a situação atual como “crítica”, refere a possibilidade de agravamento nas próximas semanas com a chegada do inverno e indica que a taxa de ocupação das unidades de cuidados intensivos está nos 90% em oito estados e em 80% nos 19 restantes.

Bolsonaro ignorou vacina, insistiu em cloroquina

A gestão sanitária do governo brasileiro está a ser investigada por uma comissão parlamentar de inquérito. Os críticos sublinham a oposição de Bolsonaro ao confinamento e ao uso de máscara, a insistência na solução desacreditada da cloroquina e a lentidão da campanha de vacinação por parte de um presidente que não respondeu durante seis meses aos mails que lhe chegavam da fabricante de uma das vacinas, a Pfizer.

O Correio Braziliense conta essa história denunciada pelo vice-presidente da CPI, o senador Randolfe Rodrigues, da Rede Sustentabilidade. Contam-se 101 e-mails de pedido de contacto da indústria farmacêutica norte-americana, entre ofertas de venda de vacinas e de reforço de disponibilidade de doses, que ficaram sem resposta. Chegaram a ser quatro no mesmo dia. Enquanto o número de mortes subia, em agosto de 2020, a Pfizer oferecia 70 milhões de doses de vacinas para chegar em dezembro. O senador conclui na sua conta do Twitter: “O povo morreu pela omissão do governo!”

O mesmo órgão de comunicação social revela também o outro lado da gestão pandémica. Ao mesmo tempo que ignorava estes contactos das farmacêuticas, Bolsonaro fazia lóbi junto das autoridades indianas para que estas disponibilizasse componentes necessários ao fabrico da cloroquina. O jornal teve acesso a transcrições de telefonemas, até entre ele e Modi, telegramas e e-mails em que se diz que a substância sem validade científica comprovada estava a ter “resultados animadores” e por “uma questão humanitária” a Índia deveria disponibilizar “insumos farmacêuticos — em particular, de sulfato de hidroxicloroquina”. Estes acabaram por receber luz verde para exportação por parte das autoridades indianas, indo parar à EMS e à Apsen, que pertence ao bolsonarista Renato Spallicci. Devido à produção de hidroxicloroquina, esta aumentou os seus lucros em 2020 em 30 milhões de reais.

Entretanto, foram ainda revelados outros e-mails nomeadamente sobre a tragédia de Manaus. A empresa White Martins, por exemplo, alertou a Secretaria de Saúde do Amazonas e o Ministério da Saúde de que iria haver uma falta de oxigénio.

Segundo a CNN Brasil, a direção da CPI estuda com a sua equipa jurídica a melhor forma de incluir Bolsonaro na investigação sem que tal seja inviabilizado pelo Supremo Tribunal, o que pode passar por um depoimento escrito. O relator desta, Renan Calheiros, do MDB, diz que o presidente deve fazer parte dos investigados: “Aparecendo factos óbvios, como têm aparecido, a CPI vai ter que responsabilizar. Diante de provas, não há como não responsabilizar. Seria um não cumprimento do nosso papel”.

O tom do poder instalado em Brasília é neste momento bem diferente do que o anterior. Marcelo Queiroga jura estar a trabalhar para vacinar todos os brasileiros o mais depressa possível. Até ao momento, apenas 11,36% dos brasileiros têm a vacinação completa.

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