Covid-19: Eslováquia faz testes rápidos a toda a população com mais de 10 anos de idade

04 de novembro 2020 - 19:10

No passado sábado, 31 de outubro, foram feitos testes rápidos a metade da população da Eslováquia. Das cerca de 2,58 milhões de pessoas testadas, houve quase 26 mil positivos. No próximo fim de semana será testada a restante população.

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Testes rápidos a toda a população da Eslováquia, Bratislava, 31 de outubro de 2020 – Foto de Jakub Gavlak/Epa/Lusa
Testes rápidos a toda a população da Eslováquia, Bratislava, 31 de outubro de 2020 – Foto de Jakub Gavlak/Epa/Lusa

O Governo da Eslováquia decidiu fazer testes rápidos a toda a população com mais de dez anos de idade, com o objetivo de tentar evitar as medidas de confinamento. É a primeira vez que uma tal medida é tomada num país.

No dia 31 de outubro foram testadas 2,58 milhões de pessoas, revelou o ministro da Defesa, Jaroslav Nad’, no domingo passado, informando também que do total de pessoas rastreadas, 25.850 testaram positivo à covid-19 e entraram em quarentena, em casa durante dez dias ou num local assegurado pelas autoridades.

Segundo o The Guardian, foram montados 5 mil locais para o rastreio de sábado, tendo participado mais de 40.000 médicos, apoiados por soldados, polícias, funcionários administrativos e voluntários. No domingo, 1 de novembro, foram testados 45 mil médicos, militares, polícias e profissionais de saúde.

Os testes são gratuitos e voluntários, facilitam a circulação perante medidas de confinamento, mas o governo pretende penalizar quem não participa neles. Todas as pessoas que participam no teste receberão um certificado que poderão apresentar, se lhes for solicitado pelas autoridades. Quem não participar nos testes, deve isolar-se em casa durante dez dias.

Em conferência de imprensa, o primeiro-ministro da Eslováquia, Igor Matovic, pediu desculpa por pressionar as pessoas a participarem no rastreio, que justifica “com a responsabilidade” para com as pessoas doentes e idosas.

No próximo fim de semana será realizada a segunda fase de testagem, esperando o governo atingir o global da população (cerca de 5,5 milhões de pessoas) com mais de dez anos.

Rastreio seguido com atenção por outros países europeus

A Eslováquia teve relativamente poucos casos na primavera e no verão, após as restrições que impôs no início da pandemia, tendo sido mesmo apontada como exemplo de um país de sucesso na primeira fase do combate à pandemia. Nas últimas semanas, os casos de covid-19 dispararam, como em todo continente, e as autoridades eslovacas temem que o país siga as pisadas da República Checa, que na última quinzena teve a mais alta taxa de mortalidade da Europa.

Segundo o jornal britânico, a operação de rastreio de toda a população, inédita para um país do tamanho da Eslováquia, está a ser observada por outros países europeus que procuram caminhos para retardar a propagação do vírus e para evitar a sobrecarga dos seus serviços de saúde.

Interrogações de especialistas

Segundo a “The Lancet”, há poucos antecedentes de rastreios massivos, como o da Eslováquia. A revista cita dois casos, ambos realizados na China. No início de outubro, foram testadas mais de 7 milhões de pessoas na cidade de Qingdao, durante 3 dias. Nestas operações realizadas Na China, foram agrupadas amostras individuais dos residentes, que foram processadas dez de cada vez num único teste de ácido nucleico. Em maio passado, foram feitos testes semelhantes em Wuhan, a 9 milhões de pessoas. Porém, nunca se tentou testar toda a população de um país.

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01 de novembro 2020

Alguns especialistas consideram que a realização de testes em massa não é uma má ideia, mas que a abordagem da Eslováquia tem falhas.

Vladimir Leksa, um imunologista que trabalha na Academia Eslovaca das Ciências e na Universidade Médica de Viena de Áustria, disse à revista que “existem riscos graves”, na abordagem que está a ser feita na Eslováquia. Leksa defende que um confinamento rigoroso com restrições severas era preferível do que os testes massivos e que o confinamento acabaria por ter de ser feito, a menos que as infeções diminuam até ao fim dos testes.

Alguns cientistas questionaram também o uso de testes de pesquisa de antigéneo e referem que a OMS (Organização Mundial de Saúde) considerou que não são adequados para testes em massa, exceto se usados em conjunto com os testes PCR. Sobre o assunto, pode ler-se no site do Infarmed: “Os testes de pesquisa de antigénio têm uma menor sensibilidade que a metodologia de referência - os testes de biologia molecular (RT-PCR) - no entanto, quando corretamente realizados e interpretados podem orientar as decisões em saúde pública e a vigilância da covid-19”.

Segundo a The Lancet, muitos especialistas concordam com os benefícios dos testes massivos, consideram, no entanto, que para conter o aumento de infeções são necessárias outras medidas

Alexandra Brazinova, epidemiologista da Faculdade de Medicina da Universidade Comenius de Bratislava, disse à The Lancet que há muitos riscos com a testagem massiva de toda a população, alertando nomeadamente que pode “não se comunicar adequadamente o objetivo e o processo dos testes, podendo criar mal-entendidos, frustação, medo e oposição”. A epidemiologista destacou também o risco de haver muitos resultados falso positivos e falso negativos, o que pode levar a que pessoas infetadas espalhem a doença e outras estejam desnecessariamente em casa. “Isto poderia minar a confiança pública em relação aos testes e a todas as outras medidas de contenção da pandemia”, explicou. Alexandra Brazinova afirmou, por fim, que “os testes em massa não vão impedir a pandemia; o melhor que fará é diminuir a propagação e levar-nos de volta ao ponto em que estávamos há algumas semanas”.

A equipa de especialistas e cientistas do Governo da Eslováquia está convencida que os testes massivos serão uma “ferramenta-chave” para reverter a tendência de aumento do número de infeções. Pavol Jarcuska, infecciologista e membro da equipa governamental, disse à revista que “o teste-piloto”, feito antes do teste nacional, “foi um sucesso”. “Identificámos cerca de 5.000 pessoas infetadas numa única área”, sublinha, acrescentando que os testes massivos também “ajudarão a ganhar algum tempo para o sistema de saúde da Eslováquia”. Sobre o uso apenas de testes de antigéneo, Jarkuska afirma: “Nenhum lugar do mundo tem a capacidade de fazer testes nesta escala no espaço de um fim de semana usando testes de PCR. Os testes de antígeneo não são tão sensíveis nos primeiros dias de infeção de uma pessoa, por isso estamos a fazer segundos testes uma semana depois ”.

Julian Peto, professor de epidemiologia da London School of Hygiene & Tropical Medicine, tem defendido que o Governo do Reino Unido faça testes massivos regulares. Ele declarou à The Lancet que o teste de toda a população da Eslováquia é uma “ótima ideia”, mas deve ser preparado adequadamente, o que considera não estar a acontecer. “Este tipo de teste não pode ser implementado durante uma noite”, frisou.

Segundo a revista, embora muitos especialistas, da Eslováquia e de outros países, concordem com os benefícios dos testes massivos, consideram, no entanto, que para conter o aumento de infeções são necessárias outras medidas, nomeadamente, confinamentos.