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Covid-19 e clausura fascista, xô, xô! Vade-retro, satanás!

Em Caxias, eu estive 5 meses e meio quase sempre sozinha, tendo por distracção pouco mais do que os meus pensamentos e umas quantas formigas que, lá fora, corriam e contornavam as florzinhas amarelas – um mundo a dar vida à terra da barreira, erguida a um metro da minha janela. Por Helena Pato.

O esquerda.net tem publicado um testemunho por dia de resistentes antifascistas sobre o seu quotidiano na prisão e/ou na clandestinidade e as estratégias que encontraram para combater o isolamento.

Todos os testemunhos publicados até ao momento estão reunidos aqui:

Confinamento(s) em tempo de ditadura

Projeto organizado por Mariana Carneiro.

 


Covid-19 e clausura fascista, xô, xô! Vade-retro, satanás!

E, no entanto, o confinamento social e a clausura da prisão política não são a mesma coisa. Nem sequer se parecem. Estar confinada nos meus 100 metros quadrados é muito diferente de estar enclausurada nuns exíguos 9 metros quadrados, com uma janela gradeada, que apenas me deixava espreitar uma barreira de terra e que me barrava o mundo, o céu e o sol. Agora eu disponho de televisão, internet, música, jornais, livros e telefone. Agora eu sou uma cidadã de pleno direito, de corpo inteiro e não um pseudónimo. Agora eu converso com a família e os amigos, sempre que me apetece e acerca de tudo o que quero; e não estou vigiada, como acontecia durante as conversas habilmente cifradas (para que não fossem abruptamente interrompidas) - aquelas conversas semanais, limitadas a 20 minutos, com apenas dois familiares, de quem eu estava separada por um vidro, e que decorriam na presença tirânica de uma guarda e dois agentes da PIDE, numa atmosfera única, que dificilmente conseguimos transmitir.

Não pensem nunca que o “confinamento Covid-19” é ou foi semelhante. Não é. Há uma diferença abismal. Sofrer a amputação total de liberdades, num quadro altamente repressivo de um regime fascista, é radicalmente diferente de estar condicionado em alguma liberdade de movimentos, por razões de ordem sanitária, num Estado democrático. Essa é uma comparação que até dói. A mim dói-me, mas eu falo por mim, pois cada um sabe de si (embora esteja certa de que seremos muitos a sentir o mesmo). Foi a lembrar-me do que ouvira contar aos meus amigos – que penaram duras penas, durante meses, nos curros do Aljube, em cubículos com 1 metro de largura –  que eu encontrei alguma força, 3 anos mais tarde.

Em Caxias, eu estive 5 meses e meio quase sempre sozinha, tendo por distracção pouco mais do que os meus pensamentos e umas quantas formigas que, lá fora, corriam e contornavam as florzinhas amarelas – um mundo a dar vida à terra da barreira, erguida a um metro da minha janela. Elas eram tudo o que eu podia ver da Natureza. Elas eram a Vida possível ali na minha frente, um deleite supremo para os meus olhos, mesmo que sofresse o constrangimento provocado pela presença constante de um guarda da GNR que nos olhava, lá do cimo, enquanto caminhava na sua rotina de nos vigiar.

Nenhum dos antifascistas que passaram por um período de isolamento total esquece o que sentiu, o que isso significava. Não foi o meu caso, mas houve companheiros que sofreram mais com o isolamento do que com as torturas.

Para sobreviver, cada um de nós criou as suas próprias rotinas e foi graças a elas que o ânimo não quebrou, nem se endoideceu. Eu pouco tenho para contar das minhas –  eram tão pobrezinhas, que são até difíceis de descrever.

Eu a agarrar-me a uma única ideia de salvação da minha saúde mental: a de que, com o meu presente, eu estava a escrever o futuro – o meu próprio e, seguramente, o de muitos outros

Foram meses e meses a inventar o que fazer para cortar o vazio, um tempo cheio de nada, de coisa nenhuma além de inquietação. Meses à espera de vir a ser, ou de não ser, levada a Tribunal Plenário. Foram dias em que vivi realmente a sós comigo, a aturar-me (como pude) no desânimo e na raiva, e a animar-me, recorrendo a todas as armas psicológicas e ideológicas que tinha levado para dentro da prisão. Hora após horas, a fugir da profunda tristeza de um dramático passado recente, sem poder dividi-la com ninguém; ela a voltar sempre e eu a agarrar-me a uma única ideia de salvação da minha saúde mental: a de que, com o meu presente, eu estava a escrever o futuro – o meu próprio e, seguramente, o de muitos outros. Mas eles não cediam e eu também não. Hoje, no confinamento, se precisasse de desabafar, eu pegava no telemóvel e tinha dezenas de pessoas com quem, segundos depois, podia fazê-lo.

Oh, amigos, isto agora é tão diferente!

Passámos por um “estado de excepção” e por um “estado de calamidade”, e nunca deixei de acordar na tranquilidade que me é oferecida por cada dia saudável, fruto do confinamento (provavelmente ainda exagerado), que me imponho… – Agora, tudo depende apenas de mim, do meu querer, da minha força para me manter em segurança. Mas no Forte de Caxias, mal acordava e ouvia os passos da guarda, já o coração me pulava dentro do peito. Aí vem ela… (“prepare-se para ir a lisboa”…). Uma ansiedade diária, durante meses: «Será que é hoje que vou para a tortura? Tomara entrar, de vez, “no sono”». A solidão era permanentemente invadida por um misto de medo e da forte vontade de despachar aquela horrível inevitabilidade. Actualmente, confortavelmente confinada num apartamento – e fosse até num casebre … –  dou-me ao prazer de fazer um bom assado, escolher um bom vinho e, sem pressas nem horários (quantas vezes, a trocar o Sábado pelo Domingo), entrego-me ao gosto de me acomodar num sofá com um tabuleiro, a ler um livro, a ouvir música ou, simplesmente, a ver o sol tornar-se vermelho no horizonte. Agora, enquanto envelheço, sozinha,  insistindo ainda num rigoroso confinamento - porque quero fruir tudo o que a Vida continua a dar-me e é tanto! – falo com os meus filhos e faço projectos para um reencontro próximo. A quebra do confinamento total acontecerá quando os três quisermos, porque somos livres de decidir: apenas o nosso amor, cruzado com o sentido de cidadania, lhe imporá limites.

Oh, amigos, agora tudo é tão diferente!

Há dois meses que encho o quotidiano de afazeres que têm um sentido prático, mas não deixam de ser prazerosos. Não há comparação com as rotinas da cela, em Caxias…

Lá, os hábitos do quotidiano, que criei para sobreviver, funcionavam como um refúgio para repouso emocional. Durante os meses em que eles não desistiram de obter da minha boca as confirmações que pretendiam, nada quebrava a minha rotina na cela, salvo as idas para interrogatório. Nos intervalos de dias, entre essas viagens a Lisboa, passava muito tempo deitada em cima da cama, acordada, entretida com os meus pensamentos – muitos, sei lá, hoje, onde eles me transportavam… – e, por momentos, voltava a ser uma pessoa realmente livre. Sem limites, de frente para mim, e com medo de ter medo, embalava nas recordações do amor a quem me queria muito; e recuava ao tempo em que estava segura do que me movia – do que, afinal, me levara àquela situação. Em breve, via chegarem-me as forças de que tanto precisava para conseguir manter a confiança na organização e no futuro da Humanidade, apesar de algum desmoronamento, que me trazia tanta preocupação e dor. De manhã, entre um cigarro e outro, lavava roupa, as roupas negras da viuvez que continuavam a acompanhar-me. Lembro-me que, ao fim da tarde, ia às grades e cantava, cantava muito e a plenos pulmões: “Quem canta por conta sua canta sempre com razão, mais vale ser pardal na rua que rouxinol na prisão” –  O que eu gostava! Cantar era uma forma de dizer às companheiras da cela ao lado que ainda ali continuava, ou que já tinha regressado da “tortura do sono” (como um dia aconteceu). A proximidade da secretária das guardas impediam-me outra forma de comunicação.

 E, na expectativa de me manter fisicamente resistente para mais outra dose de “o – que – desse – e viesse”, lá por Lisboa, eu fazia ginástica: saltos à corda sem corda, exercícios de pernas e de braços ou rodando a anca, imitações do que tinha aprendido no liceu. A meio da tarde – oh, excelso prazer! – deliciava-me com o nescafé que fazia no púcaro de alumínio, e que bebia enquanto amassava miolo de pão, com as pontas dos dedos, e via nascer, nas minhas mãos, as flores e os cestos. Alinhava-as no cimento do chão, à espera de secarem, sem cor, pois a pidesca direcção do Forte nem aguarelas me deixara entrar, para poder pintá-los. Um dia, já perto da minha libertação, autorizaram-me a entrada de uma agulha de crochet e dois novelos de linha lilás, e a minha vida na cela ganhou outra dimensão: fazia sacos de guardanapos, em série. Mas, até ao fim dos 5 meses, continuei sem livros, sem jornais, sem canetas ou lápis, sem papel, sem pano ou linhas ou tesouras, sem lã para tricotar. Vi recusado tudo aquilo que pudesse distrair-me. Tudo para o que, sem excepção, eu solicitei permissão de entrada. Entretinha-me, então, a espreitar pelas frinchas da madeira da minha porta, a ver vultos, a ouvir as conversas das guardas, a ver quem aparecia à porta da cela da frente, quando ela se abria (foi assim que soube da prisão da minha camarada Aida Paulo).

Cinco meses em que não soube o que era o recreio, sem respirar o ar exterior à cela. Minto: quando ia aos interrogatórios, na Rua António Maria Cardoso, mudava de ares – na carrinha celular e no 3º andar da sede da PIDE.

Cinco meses sem dar um beijo ou um abraço à minha família. Cinco meses entre o desejo de passar ao chamado regime normal e a expectativa, direi mesmo a esperança, de que de repente me comunicassem que iria ser libertada sem ir a julgamento. Assim foi.

Nenhum de nós, resistentes antifascistas, esquece o grau de isolamento e solidão, em que, na ditadura fascista, muitos foram forçados a viver nas cadeias, durante meses ou anos

Depois da tortura, eles terão desistido de obter (comigo) os resultados que pretendiam, e o inspector do meu processo, Sílvio Mortágua, decidiu mudar-me para a cela de uma companheira desse mesmo processo. Porém, mesmo acompanhada, o regime de isolamento persistiu, até ao dia em que, já perto dos seis meses, o sinistro Sachetti, Sub-director da PIDE, me chamou a Lisboa. Era finalmente a libertação, após umas frases que ainda guardo na minha memória: «O que os nossos ouvidos ouviram e os nossos olhos viram não podem ser negados. Apanhámo-la em verde e, desta vez, vai embora…Vencidos mas não convencidos! Há-de cá voltar!» 

Não gosto nada de estar sempre a recontar isto, a voltar a esses tempos. Mas é verdade que nenhum de nós, resistentes antifascistas, esquece o grau de isolamento e solidão, em que, na ditadura fascista, muitos foram forçados a viver nas cadeias, durante meses ou anos. Nunca esquecerei a mão da minha Mãe espalmada no vidro do parlatório, num adeus. Quantos se lembrarão com dor, ainda agora, dos beijos dos filhos colados no vidro? As crianças a chorar e os agentes da PIDE a apressarem a Mãe: “Vamos rápido! Acabou a visita! Senhora guarda, leve a presa!”

 Oh, amigos, o confinamento sanitário é tão diferente! Acreditem: aquele era um isolamento não comparável com este que se vive no presente. É imperioso recordar tudo o que se viveu – isto e muito, muito mais – e só aceitei fazê-lo porque sei a importância que têm todos os testemunhos, quer daqueles que mais sofreram na Ditadura, quer dos outros, os que menos sofreram. Trata-se de uma pedagogia política contra o regresso do fascismo.

E, no entanto ...

Hoje somos velhos e, naquele tempo, éramos jovens. Durante o regime fascista, os jovens da minha geração, que lutavam na Resistência, apareciam nas notícias clandestinas da repressão. Agora, os mesmos cidadãos, idosos entre os mais velhos dos velhos, procuram fugir de entrar na contabilidade diária dos óbitos…

Este assassino das nossas vidas não tem um rosto. Tem um nome, mas não é uma entidade tangível, ou um ser vivo ao qual possamos assacar a primeira ou a última das responsabilidades. Unidos no seu combate, enfrentamos um flagelo que irá deixar, possivelmente, milhões de vítimas e que, na sua extensão geográfica, não tem semelhanças com qualquer outro, daqueles que vivemos ou conhecemos no passado. (Talvez a Pneumónica, de que ainda ouvi, na família, relatos vivos). O certo é que, quando imaginávamos que o maior dos sofrimentos colectivos poderia, no futuro, provir de catástrofes com origem nas entranhas do Planeta ou decorrentes de erros da Humanidade, vemo-nos de repente a lutar, corpo a corpo, com um inimigo invisível, um infinitamente pequeno, de dimensão inimaginável, que se abeira de nós e ora nos mata, ora nos esmaga, ora nos amedronta. E, curiosamente, para vencê-lo, pedem agora às mulheres e aos homens da minha geração, que ajam completamente ao invés do que aprenderam a fazer para vencerem o regime em que nasceram, cresceram e que viram cair (ou ajudaram a tombar). «Não enfrentem a besta, fujam, escondam-se dela e ela morrerá» - dizem-nos, de todo o mundo. Assim fazemos, alguns de nós, beneficiando de hábitos de disciplina adquiridos nas lutas da juventude.

E eu sei (ou espero) que, mais uma vez, possa este combate em união ter uma vitória certa. Protejo-me por todos os meios, fecho-me e isolo-me em casa, dias e dias, meses e meses, se for preciso. Não escondo a dor forte da ausência dos meus queridos filhos, uma dor a que eu nunca pensei ter de regressar. Vou, aos poucos, e confiando no SNS, tornando menos rigorosas, (ou novamente mais rigorosas, se for preciso), as medidas de confinamento, persuadida de que, para já, assim tem de ser, se queremos defender-nos e defender a comunidade. Custa, sim, mas adoro viver. Conforto-me com a expectativa da vacina e vou buscando alento ao enorme sentido de cidadania e aos gestos de solidariedade, revelados diariamente pelos povos de todo o mundo. Emocionam-me. Tal como dantes, como sempre, como em todas as lutas em que a Humanidade se agiganta.

Pessoalmente, tenho bem presente que este sacrifício duríssimo tem um objectivo impregnado de humanidade e que é infinitamente menos difícil do que o fascista “isolamento prisional” nos exigia. Esse pretendia esvaziar-nos da nossa dignidade, era entrecortado com a tortura e fazia parte do quadro de terror em que o regime da Ditadura lançava os presos políticos, para lhes impor a submissão, a denúncia e o medo.

Helena Pato
17/05/2020

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