Um estudo da consultora CE Celft citado esta segunda-feira pelo Guardian defende que as emissões poluentes dos navios de mercadorias podiam ser cortadas até metade em poucos anos através da utilização de tecnologias já existentes.
A melhoria da manutenção dos motores dos cargueiros, a redução da velocidade e a sua otimização de acordo com as condições do mar, o uso de equipamentos de tecnologias que aproveitam o vento forte ou o uso de combustíveis alternativos como o hidrogénio, biocombustíveis e formas de eletrificação com baterias solares são algumas das propostas para cortar as emissões entre 36% e 47% numa década, em comparação com os valores de 2008.
A University College de Londres calcula que cada ano de atraso na descarbonização na marinha mercante nesta década vai custar mais 100 mil milhões de dólares para atingir a meta do "net zero" em 2050. O estudo agora divulgado visa responder às preocupações de países como a Argentina, China, India, Brasil, Equador e Arábia Saudita, que argumentam com o prejuízo para o comércio que significam as medidas para regular as emissões no seio da Organização Marítima Internacional.
A instituição da ONU que regula o transporte marítimo vai reunir esta semana em Londres e na agenda está uma taxa de 100 dólares por tonelada de carbono emitido pelos navios. As receitas iriam reverter para um fundo de perdas e danos para financiar os países a braços com os fenómenos climáticos extremos. E o Banco Mundial prevê que essas receitas possam totalizar entre 50 a 60 mil milhões de dólares por ano.
A proposta conta com a resistência de vários países, como o Japão, que tem a segunda maior frota mundial registada no país, e que propôs uma taxa de 56 dólares por tonelada de CO2 a partir de 2025. Também os EUA não se comprometem, com a maioria republicana no Congresso a opor-se à medida. "Está 50/50, não há certezas quanto a um acordo", diz o ministro do Ambiente irlandês, Eamon Ryan, citado pelo Guardian. Este governante defende também a aplicação de uma taxa ao transporte aéreo de passageiros. "Um euro por bilhete de avião significaria 5 mil milhões de euros por ano Não é pouco para o esforço que temos de fazer", argumenta Ryan, sublinhando a vantagem da equidade da medida pois "são as pessoas mais ricas que viajam de avião".
Em 2019, a associação ambientalista Zero apontava que “as emissões dos navios que abastecem em Portugal é equivalente à poluição das oito cidades portuguesas com mais carros registados”. E que “se o transporte marítimo integrasse o regime de comércio de licenças de emissão da UE (o que atualmente não se verifica), a MSC seria o oitavo maior emissor na lista dos dez maiores poluidores europeus”.
Segundo a OCDE, cerca de 90% dos bens comercializados internacionalmente são transportados via marítima. E as cinco maiores empresas representam dois terços do mercado e as dez maiores controlam 85% do transporte global. A força deste setor conseguiu evitar que fosse abrangido no acordo internacional sobre tributação mínima das multinacionais, com as grandes empresas do transporte marítimo a pagarem uma taxa efetiva de apenas 1% a 2% sobre os lucros.